16 de ago. de 2013

Os adeptos da TL no Brasil se arvoram em porta-vozes do Papa Francisco

É irritante a instrumentalização que se tenta fazer das palavras do Papa Francisco. E nem me refiro à mídia laica, mas a certos "católicos" que estavam nas sombras e viraram porta-vozes do Papa no Brasil e vivem falando besteira nos meios de comunicação. Entre eles, os marxistas Frei Betto e Leonardo Boff (este último oficialmente condenado por heresia pela Igreja). Leonardo Boff andava sumido. Agora quer falar em nome do Papa e traduzir seu pensamento, ou melhor, quer que todos pensem que o Papa concorda com a Teologia da Libertação, uma forma de interpretação da Revelação divina usando os métodos marxistas. Os adeptos da Teologia da Libertação, que estão em extinção, odeiam os Papas João Paulo II e Bento XVI (principalmente Boff, que foi proibido de ensinar em nome da Igreja) e querem a todo custo opor o antecessor de Francisco a este. Espero que leiam as palavras do Papa Francisco dirigidas ao CELAM: 

"A opção pela missionariedade do discípulo sofrerá tentações. É importante saber compreender A ESTRATÉGIA DO ESPÍRITO MAU, para nos ajudar no discernimento. Não se trata de sair para expulsar demônios, mas simplesmente de lucidez e prudência evangélicas. Limito-me a mencionar algumas atitudes que configuram uma Igreja “tentada”. Trata-se de conhecer determinadas propostas atuais que podem mimetizar-se em a dinâmica do discipulado missionário e deter, ATÉ FAZÊ-LO FRACASSAR, o processo de Conversão Pastoral.

A ideologização da mensagem evangélica. É uma tentação que se verificou na Igreja desde o início: procurar uma hermenêutica de interpretação evangélica FORA da própria mensagem do Evangelho e FORA DA IGREJA. [...] Existem outras maneiras de ideologização da mensagem e, atualmente, aparecem na América Latina e no Caribe propostas desta índole. Menciono apenas algumas:

a) O reducionismo socializante. É a ideologização mais fácil de descobrir. Em alguns momentos, foi muito forte. Trata-se de uma pretensão interpretativa com base em uma hermenêutica de acordo com as ciências sociais. Engloba os campos mais variados, desde o liberalismo de mercado até às categorizações marxistas." (os destaques são meus)

O discurso todo é excelente e vale a pena conferir as outras "tentações" pela qual a Igreja passa:

9 de ago. de 2013

A bomba atômica de Nagasaki: motivos religiosos influenciaram na escolha da cidade como alvo?

Há 68 anos, um bombardeiro norte-americano lançava sobre Nagasaki uma segunda bomba atômica. A primeira tinha sido lançada fazia três dias, destruindo Hiroshima. O porquê de Nagasaki ter sido escolhida como alvo ainda não é totalmente esclarecido. Não configurava entre as primeiras cidades-alvo sugeridas pelo Estado Maior norte-americano. Militarmente não era a mais importante, ainda mais na altura dos acontecimentos onde o Japão estava enfraquecido, já que suas forças aérea e marítima haviam sido liquidadas. Surge uma teoria, dificílima de ser comprovada, mas que pode ter pesado na triste escolha de Nagasaki: um motivo religioso. 

Catedral de Nagasaki destruída após a explosão atômica
Nagasaki era - e ainda é, apesar do número reduzido de católicos japoneses - a capital católica do Japão. No período entre-guerras, o catolicismo vivia uma expansão jamais vista no Império do Sol Nascente. Neste tempo, São Maximiliano Maria Kolbe, partindo como missionário para o Japão, tinha conseguido resultados extraordinários naquele país. A base de operações do renascimento católico, como desde os primórdios da evangelização japonesa, continuava a ser Nagasaki. Coincidentemente, o epicentro da explosão foi exatamente o distrito de Urakami, o bairro católico da cidade. 

Por que os EUA escolheriam Nagasaki
por motivo religioso? Bem, vejamos. Os EUA são conhecidos por ser um país livre e, quanto à relação com a religião, de sadia laicidade. Mas nem tanto. Houve nos EUA, até meados do século XX, um forte sentimento anticatólico com profundas raízes históricas. Muitas das colônias britânicas que mais tarde viriam a formar os EUA tiveram origens religiosas. Praticamente todas as denominações que eram perseguidas pelo anglicanismo oficial da Inglaterra fugiram para o Novo Continente e tiveram seu pedaço de terra na América: puritanos em Massachusetts; quakers na Pensilvânia; católicos em Maryland. 

Poucas pessoas sabem, mas a primeira constituição da História moderna (século XVIII) que declarava liberdade religiosa para todos os cidadãos foi a da católica Maryland. Graças a isso, milhares de pessoas que eram perseguidas por causa de sua religião, inclusive em outras colônias americanas, migraram para Maryland. Mas o aumento do número de protestantes foi o fim da liberdade religiosa. Indignados por viver sob um governo católico, arquitetaram uma revolta, destruíram a capital Baltimore e tomaram o poder na colônia. Era o fim da liberdade religiosa. 

Com a independência, a liberdade religiosa e a laicidade do Estado foram princípios estabelecidos e consolidados pela Constituição, graças aos esforços do arcebispo de Baltimore John Carroll (seu irmão, Charles Carroll é um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos). O ódio anticatólico aumentou no século seguinte, graças a imigração massiva de irlandeses e italianos para os EUA, aumentando o número de católicos no país. Havia uma mistura de racismo com anticatolicismo que ganhou corpo com os W.A.S.P. (White, Anglo-Saxon and Protestant) que afirmavam que os EUA eram para brancos, anglo-saxões e protestantes e cuja expressão violenta foi a Ku Klux Klan, que perseguia os católicos tanto quanto negros e judeus. 

Durante a primeira metade do século XX pouco mudou. O catolicismo era acusado de ser antidemocrático e contrário aos princípios norte-americanos. Julgava-se incompatível ser norte-americano e católico. Ainda que o governo, obedecendo o princípio da laicidade, não se imiscuísse nos assuntos religiosos, sucederam-se na presidência maçons e protestantes nada simpáticos à Igreja Católica. O governo norte-americano apoiou formalmente o México durante a perseguição aos católicos imposta neste país e fomentou o envio de missionários protestantes por toda a América Latina para quebrar a unidade católica do continente. 

Em 1961, a eleição do católico John Kennedy para a presidência dos EUA foi um marco histórico sem precedentes, comparável aos dias de hoje com a eleição do negro Barack Obama. Somente a partir de então e dos movimentos reivindicativos dos direitos civis é que o anticatolicismo norte-americano perdeu forças. Mas voltemos a Segunda Guerra. Houve um precedente que leva a crer na motivação religiosa da escolha de Nagasaki como alvo atômico: a destruição de Monte Cassino. Monte Cassino foi a abadia fundada por São Bento, o pai do monaquismo ocidental, no século VI. Estes mosteiros beneditinos foram os redutos de civilização e cultura durante as trevas das invasões bárbaras na Europa. Foram eles que salvaram o patrimônio cultural e religioso do Ocidente. Por isso, São Bento foi declarado padroeiro da Europa. 

Abadia de Monte Cassino: antes e depois do bombardeio
Em 15 de fevereiro de 1944, Monte Cassino - zona neutra e de propriedade da Santa Sé - foi bombardeado por um grupo de B-17, onde o primeiro dos aviões a bombardear tinha o intrigante código 666. Foi o maior bombardeio da História sobre um único edifício. O argumento era que o mosteiro tinha se tornado uma fortaleza nazista. Na verdade estavam no mosteiro, além dos monges, refugiados civis. Não havia nazistas entrincheirados no mosteiro. Jamais houve. Por incrível que pareça, um general alemão salvou a biblioteca e obras de arte de Monte Cassino, transportando-as para o Vaticano. 

Sendo assim, não é descabido pensar que a escolha de Nagasaki como alvo do segundo ataque nuclear dos EUA tenha alguma motivação religiosa. A explosão matou 90% dos católicos da cidade, dizimou o clero e destruiu as obras missionárias. Nagasaki tornava-se um centro de irradiação do catolicismo não somente para o Japão, mas para toda o Extremo Oriente. A preocupação com a expansão da Igreja no Japão e, consequentemente, pela Ásia após a guerra, pode ter sido, ainda que não determinante, estrategicamente importante na escolha da cidade, pois assim os EUA conseguiriam anular ou ao menos atrasar os esforços da Igreja Católica, considerada, então, contrária aos princípios, interesses e tendências filosóficas e religiosas norte-americanos. 


31 de jul. de 2013

Os gastos com a JMJ Rio 2013 e o valor de uma alma

Qual o valor de uma alma? Em meio ao materialismo e tecnicismo, uma parcela da sociedade só conseguiu enxergar a Jornada Mundial da Juventude através dos gastos. Falou-se do emprego de verbas públicas (nem sempre com verdade) e dos desperdícios e prejuízos com a transferência dos eventos de Guaratiba para Copacabana. 

Dom Fernando Rifan contou-nos um testemunho ocorrido na pré-jornada: numa das noites, um grupo saiu da igreja de Santana, no centro do Rio, em procissão até a Catedral onde ocorreria uma vigília. Passando pela Lapa, uma prostituta aproximou-se e perguntou o que era aquilo. Uma das moças lhe disse: "venha com a gente". E ela foi. Entrou com a procissão na Catedral e participou da vigília. Terminando, a prostituta aproximou-se chorando e disse aos organizadores que ia mudar de vida. 

Somente por este único caso, a conversão desta moça, todo o gasto com a JMJ, todos os prejuízos, todos os percalços são infinitamente desprezíveis diante da salvação de uma alma. Só por esta conversão, toda a JMJ já terá valido a pena. A sociedade materialista não consegue ver além da obtenção do lucro. Não se consegue ver a alegria no céu por um único pecador que se converte; não consegue estimar o valor de uma alma. Mas nós sabemos quanto vale. Vale a morte na cruz de um Deus feito homem. Vale todo o sofrimento até a última gota de sangue derramado por aquela prostituta da Lapa.




21 de jul. de 2013

De São Pedro ao Papa Francisco: a invencibilidade da Igreja

Às vésperas da chegada do Papa ao Brasil, refletimos sobre as palavras de Jesus dirigidas ao primeiro Papa, São Pedro: “E as portas do inferno não prevalecerão sobre ela [a Igreja]”. A promessa de Jesus é verificável na História. De fato, a Igreja é invencível. Nenhuma instituição puramente humana sobreviveria a 2000 anos, atravessaria todos os períodos em que classicamente dividimos a História, venceria o Império Romano perseguidor, resistiria à invasão dos bárbaros que colocou a Europa de cabeça para baixo, às heresias e cismas que dilaceraram o Corpo Místico de Cristo, às pressões dos governos, às revoluções liberais e comunistas que banharam o mundo com sangue católico e, por fim, aos pecados, traições, escândalos e contra-testemunho dos seus filhos. 

“Dentro de setenta anos não haverá mais Igreja”, quem disse esta frase está morto há 235 anos: Voltaire. 

“Morreu o último papa”, escreveu o carcereiro no relatório oficial enviado a Napoleão por ocasião da morte de Pio VI, mantido preso pelas tropas francesas na fortaleza de Valence. Era o ano de 1799. Os revolucionários afirmavam que era o fim do Papado e consequentemente da Igreja. De Pio VI a Francisco já tivemos dezesseis Papas. 

“Quantas divisões militares tem o Papa?”, perguntou Stálin debochando da condenação ao comunismo proferida por Pio XI. Perguntamos: onde está a União Soviética? 

A Rocha sobre a qual a Igreja está edificada não é abalada, muito menos derrotada. Pelo Sólio Pontifício já passaram homens de todas as espécies: pescadores, mártires, sábios e ignorantes, ex-escravos, pastores de rebanhos, filhos de empregada doméstica, órfãos abandonados, nobres, príncipes, cientistas, filósofos, médicos, adolescentes, corruptos, políticos, assassinos, devassos e, sobretudo, santos, aliás, muitos santos. Porém, todos foram legitimamente Papas. Todos foram escolhidos pelo Espírito Santo, independentemente se o conclave foi limpo ou repleto de pressões externas ou de compra de votos como já ocorreu na História. Todos serviram a Igreja, ou melhor, foram servidos por Deus como instrumentos, muitas vezes indignos, para governar Sua Igreja. A água limpa da graça não se contamina mesmo percorrendo canos enferrujados. Todos tiveram suma importância no tempo em que governaram a Igreja, demonstrando que, em última instância, é sempre o Sumo e Eterno Pontífice, Jesus Cristo quem governa a Igreja através das vicissitudes da História. 

Estudando a história da Igreja, encontra-se uma das provas de que realmente foi instituída por Cristo e é acompanhada pelo Espírito Santo. É em sua história que reconhecemos que é Santa, pois se não a fosse, os pecados de seus filhos a teriam destruído. Porém, fixamo-nos neste ponto de unidade da Igreja, em sua Cabeça visível, no Vigário de Cristo, o Papa, aquele que foi incumbido de pastorear as ovelhas do Sumo Pastor e confirmar os irmãos na fé. De São Pedro a Francisco vemos a perenidade da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, atacada de todos os lados, mas jamais vencida. 

Viva o Papa Francisco!




4 de jul. de 2013

Pula Catraca Piracicaba: sem argumentos válidos, manifestações perdem legitimidade e apoio

"Quem exagera o argumento prejudica a causa". Foi esta famosa frase do filósofo alemão Friedrich Hegel que me veio à mente hoje ao saber que DE NOVO, NOVAMENTE e MAIS UMA VEZ o grupelho Pula Catraca iria fazer uma manifestação contra o reajuste da tarifa de ônibus em frente ao Terminal Central de Piracicaba. 

O problema é que a causa já não é a redução da tarifa (o que já aconteceu) se é que já foi um dia. A intenção do Pula Catraca é político-partidária. Quando o grupelho não tinha nenhuma expressividade, peguei um panfleto durante uma manifestação em frente à Câmara de Vereadores. A linguagem era de quem tem a cabeça no século XIX, quando muito em meados do vinte. O mesmo blá-blá-blá marxista, propondo estatização de tudo e de todos. Sobre a tarifa de ônibus pouco se dizia. O que importava era atacar o prefeito e o seu partido, o PSDB. De lá para cá, recusou-se a discutir com o prefeito. Preferiu o confronto ao diálogo. 

A manifestação em Piracicaba com 12 mil pessoas em pleno calor dos protestos em nível nacional encheram-lhe os olhos. O fato é que a tarifa foi reduzida, a manifestação se esfriou e hoje o grupelho voltou a sê-lo: não consegue reunir duas centenas de pessoas. E não consegue por alguns motivos: primeiro, a população não é contrária ao prefeito que foi eleito com votação expressiva a menos de um ano e não deseja e nem tem motivos para pedir sua saída, como quer o Pula Catraca; segundo, que 12 mil pessoas foram às ruas piracicabanas influenciadas pela onda de manifestos. Só faltou as camisetas: "Protestos 2013. Eu fui!". A modinha já passou. 

O Pula Catraca, sem mandato para isto, quer falar em nome do povo piracicabano. Isto não lhes dá o direito de atrapalhar que trabalhadores voltem para suas casas depois de um dia duro de trabalho (coisa que devem desconhecer). Não lhes dá o direito de incitar a violência ou querer chantagear o prefeito e a população com frases dizendo que vai "tocar o terror" se suas reivindicações não forem atendidas ou declarações antidemocráticas que pretendem derrubar o prefeito legitimamente eleito. O Pula Catraca não representa ninguém: nem estudantes, nem trabalhadores, muito menos a população piracicabana. Descontente com o acordo entre o prefeito e os estudantes universitários de Piracicaba que reduziu o aumento das tarifas de ônibus, o Pula Catraca exige a revogação total do aumento, porém não apresenta um estudo alternativo demonstrando como seria viável a redução sem impactar as finanças do municípios (a redução da tarifa já deixou um rombo de 4,3 milhões de reais nos cofres do município) o que seria um argumento mais contundente do que fazer bagunça. A verdade é que agora o grupelho só tem um objetivo: desestabilizar o governo enchendo o saco do prefeito Gabriel Ferrato.





3 de jul. de 2013

As manifestações populares e a defesa do estatismo

O que me admira nas manifestações é grande parte da população querer mais do mesmo. Referências à alta carga tributária, ao excesso de impostos foram insignificantes. O estopim das manifestações foi exatamente a reivindicação para que pagássemos mais impostos! Ou alguém pensa que o passe livre para o transporte público seria gratuito?

Não há uma discussão séria sobre transporte público, onde opera uma verdadeira máfia, com histórico de assassinato de sindicalistas e prefeitos, inclusive. Ao invés de exigir que o Estado nos cobre mais impostos para garantir um preço razoável da tarifa de transporte, não estaria na hora de pensar seriamente em entregar o transporte público para a iniciativa privada, onde a livre concorrência melhoraria a qualidade, a velha lei da oferta e da procura manteria os preços em valores adequados e os governos fariam apenas o seu papel, ou seja, o de gerente, fiscalizando e aplicando as devidas sanções quando o prestador de serviço descumprisse seus deveres? 

Seria o fim dos monopólios, dos cartéis, das maracutaias em licitações, da promiscuidade entre o público e o privado, da ineficiência operacional de quem sabe que seu lucro está garantido por subsídios governamentais, o que desestimula as melhorias na qualidade do serviço.

"Nós somos os patrões do Estado" (ou do governo. São coisas diferentes ou deveriam ser). Ando vendo esta afirmação neste clima de protestos. É bela e falsa. Como um "ente" que consome cinco meses de nosso trabalho, queiramos ou não, pode ser nosso "empregado"? Se somos o patrão, quando podemos demitir este empregado que só nos dá prejuízo? 

Só o governo federal gasta 23% do orçamento no custeio da máquina pública e ainda somos nós que estamos no comando? Um povo realmente soberano, que é patrão do governo ou do Estado, é aquele que não precisa sustentá-lo, que toma a iniciativa para si, que faz ao invés de exigir. A frase é falsa a partir do momento que se protesta para que o Estado ofereça serviços públicos em vez de a exigência ser exatamente oposta: que o Estado não nos sobrecarregue de impostos para que tenhamos dinheiro suficiente para pagar por saúde e educação de qualidade, como só a iniciativa privada sabe oferecer. 

Jamais seremos "patrões" do Estado enquanto formos dependentes dele.


22 de jun. de 2013

Sem violência-a-a-a, sem violência-a-a-a. Mas se ela vier, será bem-vinda

O vandalismo e a pilhagem tornaram-se freqüentes nas manifestações. Seria um erro – e mais, desonestidade – generalizar. É visível a grande massa de pessoas de bem que participam dos protestos. Porém, também é um erro considerar que as manifestações não têm nada a ver com isso, pelo menos em parte. Vejamos. 

Tudo começou com um grupo paulistano desconhecido: o Movimento Passe Livre (MPL). Nos primeiros dias de manifestações, onde o grupelho marchava lado a lado com bandeiras desfraldadas do PSTU e do PCO pela Avenida Paulista, houve depredações, pichações e só não houve roubo porque comunista que se preza não leva vantagem pessoal. Para um grupo que se declara anticapitalista, devastar o centro financeiro da maior cidade do hemisfério sul é bastante significativo. Houve agressões a policiais e um deles quase foi linchado. Em meio a essas manifestações, diante da violência e das agressões, a polícia agiu. No terceiro dia de manifestação, a Tropa de Choque entrou em ação e a coisa azedou. Vários feridos de ambos os lados e de terceiros, entre eles cidadãos que não participavam do protesto e jornalistas. A polícia fez dezenas de prisões. Aqueles que pagavam fiança – com recursos próprios ou ajudados pelo MPL – saíam ostensivamente como heróis, sentindo-se e autodenominando-se, num anacronismo sem igual, presos políticos de um regime autoritário. Eram em sua maioria, membros do MPL e tinham, de fato, promovido pichações e depredações. O MPL não se posicionou contra a ação de seus correligionários, pelo contrário. Houve justificações para a violência. Algumas delas correram pelo Facebook. 

O confronto com a Tropa de Choque teve como resultado uma jornalista com o olho arrebentado por uma bala de borracha e a prisão arbitrária de um jornalista que carregava um frasco de vinagre. Foi o que bastou. Motivada pelo espírito de corpo, a mídia escolheu o lado a defender. Num maniqueísmo que é próprio da imprensa, a polícia era o bandido e os manifestantes eram os mocinhos da história. Foi então que o movimento cresceu, a par da agenda do MPL. Influenciados pela mídia que não contou a história toda, mas apenas apresentou um Estado repressivo diante de manifestações justas e pacíficas, descontentes de todos os tipos agregaram-se ao movimento, cada um defendendo uma causa. Estes fazem parte da massa que citei no início. São pessoas pacíficas, que, apesar de não saberem exatamente o porquê estão insatisfeitas e nem quem é o culpado por isso, sabem que o Brasil não é este mar de rosas que o governo do PT quer vender. 

E os vândalos? No princípio, eram parte integrante do movimento. Não se distinguiam do restante e nem havia o esforço midiático ou da própria liderança do movimento em diferenciá-los. A partir da reunião com o governo do estado de São Paulo, onde foi concertado que ações violentas da polícia e do movimento (até então, o movimento era simplesmente o MPL) eram prejudiciais para a imagem de todos, o movimento passou a fazer o discurso da não-violência. Com 65 mil pessoas na rua, a grande maioria não alinhada com as propostas do MPL (o lema: “Não é só por 20 centavos” surgiu daquelas e não do MPL) a violência passou a ser mal vista e estrategicamente imprópria para a liderança do movimento.

Mas os atos de vandalismo, depredações de bens públicos e privados e os saques continuaram e aumentaram. Os “vândalos” são um mal para o movimento? De certa forma, não. Lembremos que os membros das primeiras manifestações carregavam bandeiras com a estampa de Che Guevara e não de São Francisco de Assis ou Mahatma Gandhi. A violência faz parte do jogo. Amedronta as autoridades e a população se vê acuada. Cria um clima de insegurança e instabilidade dos governos. É uma estratégia revolucionária. Assim, dois tipos de pessoas acabam servindo à causa: os inocentes úteis que involuntariamente apoiam propostas que não são as deles e os vândalos, seja eles quem for, que botam o terror. 

São infiltrados? Sim e não. Não, quando se vê que na origem o vandalismo faz parte da tática do movimento. Sim, quando por infiltrado entende-se que há bandidos oportunistas que aproveitam o rebuliço para cometerem crimes, principalmente os saques. Mas é sempre de se desconfiar. O MST sempre usou o argumento dos “infiltrados” para esquivar-se das ações criminosas. E o espírito que move o MST no campo, move estes grupos (como o MPL) nas cidades. E aí entramos em outro ponto. 

O que inspira o movimento, em sua origem, é um espírito marxista revolucionário. E como sabemos não se faz revolução atirando bexigas d’água. Carrega em si uma motivação violenta intrínseca. Valem-lhes o princípio maquiavélico onde os fins justificam os meios. Como consequência aparecem os vândalos e criminosos “infiltrados” porque o clima do movimento lhes atrai. Comparemos com as manifestações de religiosos que aconteceram no início do mês de junho em Brasília. Foram 70 mil pessoas reunidas na Esplanada dos Ministérios, em dois dias de manifestações, sem um único incidente violento, sem depredações de prédios públicos, sem agressões, sem precisar de reforço policial. Por quê? Onde estavam os pretensos infiltrados que poderiam aproveitar-se da multidão. Não apareceram, porque o clima do movimento não propiciava as suas ações. 

E o que são manifestações pacíficas? Quando não há quebra-pau? Nem sempre. Ocupar ruas e rodovias retirando o direito de ir e vir que têm os outros cidadãos que não se manifestam, não pode ser considerada uma maneira justa de se manifestar. Gerar prejuízo aos lojistas que com medo precisam fechar o comércio também não. Prejudicar pessoas que precisam tomar um avião ou dificultar a locomoção de ambulâncias, idem. Manifestações podem, na santa paz, prejudicar muita gente “inocente”. Tirar o corpo fora é uma boa estratégia para não se responsabilizar diante da violência e não queimar o filme diante da opinião pública. Desde Pôncio Pilatos... 


20 de jun. de 2013

MPL não me representa

Não adianta. Apesar de tantos louvores midiáticos e de comentaristas de internet, estas manifestações não me conquistaram. Explico o porquê. 

Primeiro: Tudo começa neste Movimento Passe Livre. Não gosto de suas propostas nem de seu modus operandi. Para quem não conhece, basta entrar no site da entidade. Lembremos que no primeiro dia de protesto, com umas mil pessoas, eles devastaram a av. Paulista. Será que já tinha os "infiltrados" desde aquela hora? Na quinta-feira, diante da bandalheira generalizada, a polícia desceu o sarrafo. Manifestantes e o governo de SP perceberam que o confronto era ruim para todos os lados. Segunda-feira se reuniram e entraram em acordo sobre como o movimento e a polícia se comportariam. A partir deste momento - e só deste - o MPL tomou ares de boa moça. 

Segundo: As manifestações são irracionais. Protesta-se sem apresentar propostas. Querem que o valor da passagem de ônibus não suba, mas, a despeito dos argumentos apresentados para o aumento, não indicam como manter os preços diante da alta da inflação e do aumento dos combustíveis neste ano. Sem contra-argumentos, não há negociação. Os protestos serão ad eternum. 

Terceiro: Graças a Deus, vivemos numa democracia. Não é ideal, mas é uma democracia. Numa democracia, há leis e elas devem ser obedecidas. Se políticos ou a polícia não obedecem a lei, isto não justifica a desobediência. Protestos populares fazem parte da democracia. Destruição de patrimônio público ou privado, não. Tentativa de linchamento de policiais, também não. Houve manifestantes que justificaram os atos de vandalismo demagogicamente, alegando que o número de homicídio, a precariedade dos hospitais e afins é que eram atos de vandalismo. Como diria Sócrates (o filósofo, não o jogador), um erro não justifica outro. Isto tudo aconteceu antes do MPL se tornar a donzela de hoje. 

Quarto: Com o afã de mostrar força, o MPL fez convocação geral. Isto atraiu descontentes e baderneiros de todos os matizes. Resultado: perdeu o controle. Há muita gente boa que aderiu ao movimento pacificamente. Porém, junto, vieram os arruaceiros. Nenhum ato de violência é justificável. Depredar patrimônio público, invadir sedes de governo, atacar a polícia e a imprensa, saquear lojas e incendiar carros são coisa de bandido. 

Quinto: Toda esta gente protesta contra tudo e contra nada. Não há foco. Não há objetivo, pelo contrário, há bastante subjetivismo. É um monte de descontentes, mas descontentes com o quê? Quem são os culpados? Um protesta contra a violência. Tem alguém a favor? Outro, contra a corrupção, mas não se sabe se é contra o ato ou contra a impunidade. É uma mistura de otimismo e ingenuidade que, no fim das contas, leva a nada. 

Sexto: Vocês que leem o que eu posto - se é que leem... - já devem ter percebido o quanto repudio o PT e a década que está no governo. E não só. Repudio tudo que cheire esquerdismo, o que me parece óbvio devido às tragédias que o marxismo/ comunismo/socialismo provocaram no século passado. O MPL aparenta ser apartidário, mas não ideologicamente neutro. Palavras de ordem do tipo: "Fora, Dilma" ou "Fora, Alckmin", não cabem no regime democrático. Governantes são destituídos nas urnas. Mesmo achando que o governo Dilma, assim como o Lula, é uma merda, não há nenhum motivo para apoiar um impeachment. Isso não é democracia, é golpismo.


14 de jun. de 2013

Não é o subdesenvolvimento que é um escândalo, o desenvolvimento é que é um milagre

Ora, o fosso que separa os países “desenvolvidos” dos países pudicamente chamados “em vias de desenvolvimento” foi cavado durante um período ínfimo no que se refere à duração da existência humana. No momento da irrupção dos navegadores ocidentais, as mais primitivas das povoações da América do Sul ou da África Equatorial haviam chegado ao nível das populações da Europa dois mil anos antes de nossa era; os chineses tinham atingido um patamar comparável ao da França de Luis XIV. As defasagens podem ser facilmente explicadas por circunstâncias geográficas ou históricas, que estimularam uns e tornaram outros mais lentos, provocaram o isolamento destes, a irritação daqueles. Trinta e cinco séculos de diferença com relação a três milhões e meio de anos: o milionésimo da existência do homem. Nada que possa justificar o sentimento de uma superioridade racial do homem branco sobre o homem de cor.

A Contradição Colonial


A essa fé quase messiânica do Ocidente em si mesmo coloca-o em plena contradição. Posiciona-se como adversário dos seus próprios princípios universalistas compartilhados por toda a Europa, e que a revolução Francesa cristalizou na França. Nega a liberdade, a igualdade e a fraternidade às populações que submete à sua dominação. Essa contradição é tao profunda, que o Ocidente acabou por odiar a si próprio por ter sido colonizador. No momento em que, ao descolonizar, deveria sentir-se novamente em harmonia com seu gênio, ele se flagelou.

Por seu lado, como poderiam os países dominados não se chocarem diante da brutalidade com a qual o Ocidente devastara suas tradições? São orgulhosos, e com razão: um povo que não tem orgulho de si mesmo perde o prazer de viver. Principalmente se for como na Índia ou na China, o centro de uma civilização antiga e refinada. A revolta dos povos do Terceiro Mundo contra o Ocidente era uma reação sadia: a rejeição de uma dominação estrangeira que negara sua identidade. Para qualquer povo que tenha os meios de formar uma nação, a independência não tem preço. Mas em virtude de a necessidade de independência ter suas raízes em profundezas passionais, a descolonização provocou uma explosão de ideias falsas. 

Os marxistas ou “marxizantes” conseguiram convencer não apenas o Mundo Socialista e o Terceiro Mundo, que não queriam outra coisa senão acreditar neles, como também a intelligentsia do Ocidente: o desenvolvimento dos países colonizadores e o subdesenvolvimento dos colonizados seriam o resultado da pilhagem dos segundos pelos primeiros. Esquece-se que a miséria do Terceiro Mundo preexiste à colonização – e sobreviveu a ela, ou, mais frequentemente, renasce depois dela. O subdesenvolvimento, que  deveríamos chamar de não-desenvolvimento, é um fenômeno permanente e universal. 

Desde que o homem apareceu na Terra, a ignorância, as epidemias, a sujeição – escravidão, submissão das mulheres, dependência de um grupo em reação da outro -, a subnutrição, o medo da doença, da fome e da guerra, são o lote comum da espécie. Não é o subdesenvolvimento que é um escândalo, o desenvolvimento é que é um milagre – e muito recente. 

[...]

Naturalmente o irrompimento de uma civilização avançada desestabilizou e finalmente destruiu, do interior, as sociedades de costumes. Mas não se deve idealizá-la retrospectivamente. Na China, tanto quanto nas sociedades primitivas da África, da Ásia, da América ou da Oceania, terríveis flagelos precedera, a irrupção ocidental: a escassez, a lepra, a malária, a mortalidade infantil, a mutilação das mulheres, sem falar do canibalismo [...] nada disso é consecutivo, mas anterior à colonização. Tudo isso a colonização fez recuar. 

O colonizador não trouxe a miséria ao colonizado, mas uma submissão, insuportável e debilitante com o correr do tempo. Aqui reencontramos a contradição: essa submissão não era melhor meio de transmitir ideias que impulsionaram o Ocidente. Não era pela colonização que o Ocidente poderia introduzir sua “civilização” – mas pelo que fundamentava essa civilização: a liberdade e o intercâmbio. (Alain Peyrefitte, O império imóvel, ou o choque dos mundos)

Alain Peyrefitte. O império imóvel, ou o choque dos mundos, p. 588-590

11 de jun. de 2013

Manifesto Zoófilo

O amor interespécies acompanha o ser humano e os demais não-humanos ao longo da história. Não tem cabimento, em pleno século XXI, que a nossa sociedade seja pautada pela humanonormatividade e preconceitos religiosos. Não admitimos mais estarmos à margem da sociedade e carregarmos estes estigmas de tarados e doentes. A zooafetividade ainda consta no rol das doenças e é tratada como tal. Outras formas de amor também já figuraram na Classificação Internacional de Doenças e a evolução da sociedade fez com que fosse percebido este grande engano e hoje são plenamente aceitas. Isso não pode continuar. Não podemos mais ser encarados como anormais, como aberrações. Chega de preconceito!

Nós, zooafetivos, não queremos privilégios. Queremos os mesmos direitos de todos os seres humanos, sejam eles hetero ou homossexuais. Queremos ter reconhecido o direito fundamental de formarmos uma família com a espécie que bem desejarmos. E não é uma luta somente nossa. Nós, humanos, temos o dever de falar por nossos parceiros e parceiras que não tem voz. Eles dependem de nós para que nossos direitos – os nossos e os deles – sejam respeitados. Não podemos continuar na sombra. Lutamos pelo direito de demonstrar nosso afeto livre e publicamente e não mais em estábulos e pocilgas fétidas. Por que somente deficientes visuais podem entrar livremente em espaços públicos com seus cães-guia sem serem molestados por isso? Por que demonstra uma relação servil de um ser inferior servindo seu senhor humano? Nenhuma pessoa se abala diante de demonstrações de amizade entre humanos e não-humanos. Por que tanto preconceito com o amor? Que todo ato discriminatório e de intolerância seja punido!

Vivemos num Estado laico. Desta forma, não podemos ser pautados por preceitos religiosos. Líderes religiosos de todas as vertentes condenam com veemência as práticas zooafetivas, aumentando, assim, o preconceito e a intolerância. Na Bíblia, por exemplo, figuram condenações violentas contra a zooafetividade. Não podemos, em pleno século XXI, continuar seguindo as normas de um livro que foi escrito a três milênios. Antes da moral judaico-cristã se impor, a zooafetividade era encarada com naturalidade. Os mitos gregos estão recheados de histórias de amor entre humanos e não-humanos. Os povos antigos, de forma geral, não condenavam estas práticas, ao contrário, para muitos deles era uma forma de contato com o divino. Tudo isso terminou com o advento da moral judaico-cristã com sua visão limitada e sua vocação castradora. Casamentos entre humanos e não-humanos ainda resistem bravamente em algumas tribos africanas e na Índia apesar das pressões imperialistas que conseguiram criminalizá-los. Pitágoras e Platão defendiam a metempsicose e a transmigração das almas, ou seja, que os espíritos podem reencarnar-se tanto em humanos como em não-humanos. Esta tese está presente em várias religiões do mundo, principalmente nas orientais, não contaminadas pelo cristianismo. O amor é um estado da alma, portanto pouco importa o invólucro, se o corpo que a carrega é de um homem ou de um jegue. Não pode haver limitações e impedimentos para o encontro de almas gêmeas.

Hoje, há uma conscientização crescente dos direitos dos animais. Estes nosso irmãos não podem continuar oprimidos por uma classe que se julga superior, nem explorados em nome do capital. As experiências cruéis em não-humanos continuam nos laboratórios em nome do bem-estar humano. A pecuária ostensiva agride o meio ambiente com a substituição da mata nativa por pastagens e sabemos o quanto grandes rebanhos contribuem para o aquecimento global através dos gases que expelem. Os grandes pecuaristas incentivam o consumo de carne – carne de nossos irmãos! – exclusivamente pela sede do lucro, já que o ser humano chegou num estágio evolutivo onde a ingestão de carne se tornou desnecessária. Outras práticas cruéis de diversão ainda são amplamente aceitas pela sociedade: os rodeios e touradas, por exemplo. Com a argumentação que tais eventos fazem parte da cultura dos povos, geram empregos e movimentam a economia, seres não-humanos são aviltados em público, tratados como seres inferiores em espetáculos sangrentos para o deleite da massa. Diante de todos estes fatos, concluímos que o preconceito contra a zooafetividade segue a lógica de mercado neoliberal. A equiparação de direitos levaria a perda de volumoso capital.

Os intolerantes e retrógrados objetam contra a zooafetividade evocando o Direito Natural. Mas a natureza está repleta de exemplos de relacionamentos interespécies. Encontramos vasto material na internet: cães e gatas (tão inimigos!), bodes e porcas e até chimpanzé e sapo, mostrando que a natureza nada limita quando se trata de relações interespécies, mas sim nos dá belo exemplo de tolerância e igualdade. Curioso notar que a hipocrisia impera em nossa sociedade, posto que muitos que condenam a zooafetividade são consumidores de filmes pornográficos que apresentam cenas de sexo entre humanos e não-humanos.

Segunda objeção: a prática zooafetiva seria fonte de doenças. Alguns chegam a afirmar que a AIDS foi resultado de relações sexuais entre humanos e não-humanos. O preconceito chega às raias da irracionalidade. O risco de se contrair uma doença em relações interespécies não é maior do que entre humanos. Além disso, hoje contamos com exames médicos preventivos e o uso do preservativo é amplamente incentivado pelo nosso movimento.

Uma terceira objeção diz respeito à impossibilidade de procriação. Apesar das tentativas na área da reprodução assistida onde cientistas soviéticos das décadas de 1920 e 1930 tentaram gerar híbridos de chimpanzés e humanos, filhos de seres humanos com seres não-humanos ainda não são uma realidade. Mas as relações zooafetivas não podem ser reduzidas à procriação. Isso sim seria animalesco. As relações entre humanos e não-humanos são baseadas no afeto. Além disso, os orfanatos e abrigos para animais estão lotados, à espera do amor de casais que são impossibilitados de terem filhos. Há alguns anos e de modo crescente não-humanos são tratados como filhos. Há inúmeros casos de testamentos onde o herdeiro é um ser não-humano. Os benefícios nas relações entre crianças e filhotes são reconhecidos. Mas é preciso mais. É preciso que sejamos reconhecidos por parte do Estado como família tendo a equiparação de direitos para que nossos parceiros não-humanos não sejam espoliados em seu patrimônio, principalmente por parentes humanos preconceituosos que não aceitam a relação.

Concluindo, é preciso derrubar os preconceitos. Toda forma de amor vale a pena. Graças à marginalização, o número de casos zooafetivos são completamente desconhecidos. Sabemos como é comum a iniciação sexual com cabritas e frangas nestes rincões. É uma prática que nada denigre os seres, sejam eles de qualquer espécie, pelo contrário: restaura o homem em seu estado natural, onde não há desigualdades e exploração; contribuem para a harmonia da natureza; colabora na construção de uma sociedade mais justa e solidária. O amor entre humanos e não-humanos sempre existiu, ainda que muitas vezes marcados pela hierarquia – um reflexo da sociedade patriarcal – onde o ser humano era tido por superior, mas tais diferenças estão diminuindo à medida que a sociedade evolui. Este amor precisa ser radicalizado e ter o direito de ser realizado plenamente, conforme a vontade das partes, rompendo, assim, tabus cujos marcos são a consciência e a razão. Mas sabemos que o amor tem razões que a própria razão desconhece.

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P.S.: Evidentemente, este é um texto satírico. Quando as relações sexuais são moralmente esvaziadas, pode-se defender qualquer espécie de relacionamento. Argumentos é que não faltam. 


4 de jun. de 2013

Angelina Jolie: o medo de viver

A divulgação da cirurgia de mastectomia realizada pela Angelina Jolie causou espanto. Rapidamente o caso ganhou seus defensores e seus opositores. O medo de vir a ter um câncer de mama fez com que, após um exame genético que constatou uma alta probabilidade de desenvolver a doença, a atriz tomasse essa atitude drástica. Sem entrar no mérito da questão, a atitude da atriz reflete algo inquietante da sociedade pós-moderna: o medo da vida. É comum e natural as pessoas terem medo da morte. Porém, viver virou um terror para a maioria das pessoas. A imprevisibilidade da vida faz com que as pessoas vivam em constante apreensão. Rodeados de inimigos reais ou imaginários, a vida torna-se um peso insuportável e há um medo generalizado do futuro. As pessoas têm um medo paranoico de envelhecer, de adoecer porque a felicidade está baseada em coisas passageiras: na saúde, na beleza, na força e no vigor físicos, no prazer, nas pessoas que amamos. O fato é que apesar de tantos e maravilhosos avanços tecnológicos e da medicina que nos proporcionam maior comodidade, segurança e saúde, o sofrimento é algo bastante presente nas nossas vidas. Ainda nos confrontamos com doenças terríveis e incuráveis, a fome, os desastres naturais e, apesar dos diversos meios de adiá-la, a morte de quem amamos ocorre com certa regularidade. A verdade é que o sofrimento é inevitável. 

Podemos contorná-lo, evitá-lo na medida de nossas possibilidades, mas, cedo ou tarde, nos deparamos com ele. O sofrimento sempre existiu e talvez tenha sido ainda maior em outras épocas. O que mudou, então, para que o medo do sofrimento seja maior em nossos dias? Vejamos. Interessante notar que o período da baixa Idade Média (entre os séculos XI e XIV) é marcado pela alegria. A despeito dos preconceituosos que pouco conhecem a Idade Média, medievalistas tais como Pernoud e Le Goff afirmam esta característica tão marcante em uma época em que a medicina apresentava pouquíssimos recursos e o ser humano estava à mercê das intempéries da natureza e de maior insegurança.

O que diferenciava o homem medieval do homem pós-moderno? A resposta é evidente: a fé. O homem medieval era, sobretudo e apesar de tudo, um cristão. Tinha em mente que "os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada". Mesmo sem entender, tinha certeza de que sua vida e a História estavam nas mãos da Providência Divina e que Deus, mesmo não sendo o autor do sofrimento humano, O permite para que deste sofrimento tire um bem maior. Seu exemplo está na Cruz. É o sofrimento do Filho de Deus, o maior dos sofrimentos, que lhe garantiu a salvação. Foi deste crime terrível que Deus tirou a redenção do mundo. Este era o motivo de sua alegria em meio a tantas dificuldades. Mas o cristão não é uma espécie extinta, que viveu sobre a terra em outros tempos, como os dinossauros. Eles existem, nós existimos. 

Para o cristão, o sofrimento - que continua sendo um mal que deve ser superado dentro dos limites da ética - torna-se em Cristo, caminho de redenção. Todo e qualquer sofrimento unido à cruz de Cristo misteriosamente contribui para a remissão própria e do mundo inteiro. São Paulo nos dá mostra disso quando afirma que "completa em sua carne o que falta aos sofrimentos de Cristo, por seu corpo que é a Igreja ". Para o cristão, diferentemente do homem de mentalidade pós-moderna. o sofrimento (antes, todos os atos humanos) deve ser oferecido a Deus. Seu sofrimento não é em vão. O cristão crê como o apóstolo São Paulo quando afirma "que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus". Não deve procurar deliberadamente o sofrimento. Não é um masoquismo, longe disso. A realidade é que ninguém está inume ao sofrimento, mas nem todos conseguem (e isso é graça de Deus) encontrar sentido no sofrimento.

No auge do materialismo e do ateísmo, os filósofos do seculo XIX afirmavam que a vida era algo sem sentido e tornaram-se os profetas do nada. Seus amores, prazeres, sofrimentos, tudo acabariam em nada. Esta ideia-motor adentrou o século XX e ganhou ainda mais força após as desilusões provocadas pela Segunda Guerra, que colocou fim às teorias evolucionistas e progressistas do Iluminismo, também materialistas, mas que davam um sentido e um fim a vida e a História. Em decorrência deste medo do sofrimento é que entendemos os índices alarmantes de suicídio, de consumo de drogas e de remédios antidepressivos e calmantes, do alcoolismo apresentados no Ocidente nos últimos 150 anos. 

Impressiona saber que o medo da vida é mais forte do que o medo da morte. A vida só é considerada plena se for vivida num corpo perfeito, de preferência jovem e saudável. Assim, em primeiro lugar, surge a  ideia da eutanásia. O pavor da vida, ainda que com limitações, leva a considerar a morte provocada como um ato de caridade. Em seguida, o aborto e a eugenia também são apresentados como solução para o fim do sofrimento e surge a tentação de técnicas imorais para a cura de doenças, como são o uso de células-tronco embrionárias. 

Por fim, o sofrimento está presente na vida humana. É consequência do pecado e, apesar de todos os nossos esforços, estaremos sujeitos a ele até o fim dos tempos. É por isso que necessitamos da redenção conquistada por Cristo. Somente quando Seu Reino for implantado definitivamente sobre a terra é que o pecado e a morte serão destruídos e Ele "enxugará toda lágrima dos olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor". Porém, enquanto o Cristo Senhor não retorna, temos que decidir a maneira de como enfrentamos o sofrimento. Os que confiam em Deus sabem que todo sofrimento é passageiro e aproveitam todas as oportunidades para se aproximarem do Pai celeste. Sua felicidade está naquilo que não passa, no próprio Deus, fonte de alegria e de vida eterna. Não que o cristão não tema o sofrimento. Jesus mesmo apavorou-se a ponto de suar sangue quando, no Getsêmani, antecipadamente viu diante dos olhos os horrores da cruz. Mas o cristão sofre na paciência e naquela paz de Cristo, tão diferente da paz que o mundo dá. 

O cristão alegra-se na medida em que sabe que seu sofrimento, unido ao de Cristo, faz bem ao mundo. E não somente os males físicos, como as dores ou as doenças, mas também o sofrimento causado pelas contrariedades, pela tentação constantemente combatida, pelas renúncias, pelos atos de amor ao próximo e até, se for preciso, pelo martírio. Estas palavras podem soar como loucura - a loucura da cruz - numa sociedade hedonista e imediatista como a que vivemos e mesmo entre cristãos nestes tempos de heresias que pregam a prosperidade e a vida mansa como sinônimos de vida cristã. Confiemos em Deus. Que os exames genéticos (que não são condenáveis em si mesmos) não venham a substituir as cartomantes e adivinhos. Lembremos daquele velho ditado: "o futuro a Deus pertence" e que "a cada dia basta a sua preocupação". Deus está no controle de nossas vidas, mesmo quando não entendemos de imediato o que se passa e é um Pai amoroso que cuida de cada um de nós. 



22 de mai. de 2013

Estado laico e "casamento" gay: uma pretensa guerra religiosa


Estado laico. Eis uma expressão que anda na moda nestes dias onde o Direito natural é pervertido com "casamentos" gays e sem que isto nada tenha a ver com a laicidade do Estado. O casamento "tradicional" não foi instituído por nenhuma religião. Parece desnecessário falar isso diante das evidências, já que a diferença e complementaridade é que formam um casal. 

Antes que o casamento fosse elevado a sacramento por Jesus, ele já existia nas mais diversas culturas e existe em lugares onde não conhecem Jesus Cristo e Sua Igreja. Mesmo em culturas onde o homossexualismo era mais tolerado, como na Grécia (esqueçam o mito do "liberou geral". O homossexualismo não era tão bem aceito na Grécia como se propaga e, apesar de tolerado, era mal visto pelos romanos), jamais houve qualquer institucionalização da prática. Apesar de também antinaturais e, portanto, inadmissíveis, seria mais justificável, social e historicamente, defender casamentos poligâmicos ou poliândricos do que homossexuais. 

Mas levar o debate sobre "casamento" gay para um campo que não é o dele é uma tática antiga e perigosa. É a estratégia usada em defesa do aborto, da eutanásia e de pesquisas científicas eticamente contestáveis. Hitler afirmava que "piedade é coisa de padre". Esqueça o Direito natural que sobrepuja as religiões. Evoque o Estado laico afirmando que a definição de casamento entre homem e mulher pertence à religião e que o Estado não se deve pautar por dogmas religiosos. Neste momento, o debate é inviabilizado e ganha até ares de ilegalidade, pois atenta contra um dos pilares do Estado. Jogo perigoso. 

De fato, e todos concordamos, o Estado laico não se deve pautar por dogmas religiosos (nem ideológicos, diga-se) e nem impô-los a seus cidadãos. Mas o perigo começa quando o conceito de dogma se torna subjetivo. Seria óbvio constatá-lo se o Estado nos obrigasse a crer na Presença real de Jesus Cristo na Eucaristia ou fôssemos punidos por não crer em reencarnação ou na metempsicose. Mas quando um conceito moral torna-se um dogma? Como hoje surge quem defenda que o casamento tradicional é um dogma, amanhã pode surgir alguém dizendo que o "Não matarás" ou o "Não roubarás" são o quinto e o sétimo mandamentos da lei de Deus e que, por isso, o crime de homicídio e roubo devem ser banidos das leis porque são contrárias á laicidade do Estado. Parece um absurdo, porém segue a lógica. Matar e roubar são males evidentes, porque são englobados no Direito natural, aquela lei moral gravada nos corações dos seres humanos, aos quais não é preciso ensinar que é errado tomar o que não lhe pertence ou tirar a vida de alguém e que faz reagir tão naturalmente às novidades em matéria de casamento.    

Portanto, querer empurrar goela abaixo uma novidade sem precedentes na História, com grande impacto moral e social, cujas consequências desconhecemos e só podemos prever, transformando a causa do "casamento" gay em simplória guerra religiosa coloca em risco outras liberdades em defesa de uma só. No Brasil, o sagrado direito de objeção de consciência - este também, um direito natural e previsto na nossa Constituição - já está sendo lesado a partir do momento que a justiça pretende obrigar os cartórios (que não existem como "pessoa" ou entidades sobrenaturais, mas são compostos por pessoas), a realizar casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Com ares de democracia, quem toma certas decisões e o modo como estas ideologias são conduzidas servem à causas totalitárias. Fiquemos de olho. 




13 de mai. de 2013

Injustiça histórica: os abolicionistas negros continuam esquecidos



Esse ano estamos comemorando 125 anos da Lei Áurea que pôs fim à página trágica e vergonhosa da escravidão no Brasil. Em 13 de maio de 1888, como todos nós sabemos, a princesa Isabel promulgou a lei que libertou o que ainda restava de escravos no Império. Interessante notar a pouca manifestação ao redor da data. Aliás, há bons anos que o 13 de maio passa despercebido.

Explica-se os motivos. Os movimentos negros, estas ONG's que julgam representar todos os cidadãos brasileiros que possuem ancestral africano, por estarem contaminados pelo marxismo e não conseguirem ver os fatos a não ser por esta ótica, resolveram esquecer a importante data. Não que sejam contra a libertação dos escravos, longe disso, mas, segundo eles, não se comemora um fato – a libertação dos escravos – que  foi decisão dos poderosos, do “sistema”, da branca Isabel. Não levam em conta que a Lei Áurea tenha sido o último capítulo de anos e anos da luta abolicionista que envolveu brancos, mestiços, mulatos, negros e, finalmente, a Família Imperial. 

Não se menciona as personalidades negras que empenharam a vida para o fim do escravismo: André Rebouças, Luiz Gama, José do Patrocínio, Cruz e Sousa, entre outros. Por que é tão pouco conhecido todos estes homens incríveis da História do Brasil, homens que honraram a cor de sua pele e colocaram as suas inteligências e forças na causa abolicionista? Por que os movimentos negros preferem Zumbi dos Palmares a qualquer um destes nomes citados? Porque eles faziam parte do já citado “sistema”. Eram profissionais liberais bem sucedidos, intelectuais reconhecidos e, em sua grande maioria, monarquistas. Não eram revolucionários, não se rebelaram contra o governo. Ao invés disso, preferiram ponderar, usar a arma que dispunham que era a influência na sociedade. Para os ideólogos do movimento negro, esses seus "irmãos" advogados, jornalistas, engenheiros, políticos venderam-se ao sistema e a abolição, ao fim das contas, foi um acordo entre as elites (o que a própria História desmente com a derrubada da monarquia) e não a adorada luta de classes que move a História.

Mas a ideologia que contamina os movimentos negros prefere o líder do Quilombo dos Palmares, este sim, segundo sua concepção, um representante legítimo da luta de classes. Forjaram o Dia da Consciência Negra, dia 20 de novembro, data da morte de Zumbi que substituiu o dia 13 de maio como o verdadeiro dia da libertação do negro brasileiro. É claro que Zumbi é um personagem importante de nossa história, assim como os supracitados abolicionistas, mas os historiadores marxistas conseguem cometer o anacronismo de reconhecer “marxistas” anteriores a Marx. Nada diferente, diga-se, de sistemas religiosos, como o Islã, que reconhecem muçulmanos antes de Maomé ou os espíritas que encontram kardecistas antes de Allan Kardec. 

Para os marxistas ou marxistizantes – que dominam os movimentos negros –, Zumbi foi um revolucionário, combateu o sistema opressor da Coroa portuguesa, governou Palmares, uma sociedade igualitária. E, por fim, foi morto pelos “conservadores”. Nada melhor para os marxistas que adoram o papel de vítima. Tudo isso nos soa falso. Zumbi jamais defendeu o fim da escravidão, pelo contrário, mantinha escravos domésticos. O quilombo tinha rígida hierarquia, cujo vértice era ocupado pela família de Zumbi, que o governava com mão de ferro. Recusou um acordo com os portugueses que lhe garantiria a autonomia do quilombo, o que lhe valeu sua destruição.

Sem sombra de dúvida, a imagem de Zumbi é mais atraente. É preferível apresentar um líder com uma lança na mão, colar de ossos e tanga do que homens de terno e gravata e tendo por arma, uma caneta. É a imagem do mito, de um super-herói dos quadrinhos para ser mais exato. O resultado dos esforços dos abolicionistas negros foi a abolição da escravatura. Mas há quem prefira homenagear e cultuar aquele, cujo único resultado de suas lutas foi um estrondoso fracasso.





9 de mai. de 2013

Carta de Santo Agostinho ao pastor Marco Feliciano e a todos os fundamentalistas bíblicos:


Normalmente, mesmo um não-cristão sabe alguma coisa sobre a terra, os céus e outros elementos deste mundo, sobre o movimento e a órbita das estrelas e mesmo seus tamanhos e posições relativas, sobre eclipses previsíveis do sol e da lua, os ciclos dos anos e das estações, os tipos de animais, arbustos, pedras, e assim por diante. Tais conhecimentos ele sustenta, tendo-os como certos por conta da razão e da experiência.

Agora, é algo vergonhoso e perigoso para um infiel ouvir um cristão que tira conclusões precipitadas a respeito do sentido das Sagradas Escrituras e diz bobagens sobre esses tópicos; e devemos empregar todos os meios para evitar esse tipo de situação constrangedora, na qual as pessoas mostram seu vasto desconhecimento sobre os cristãos e fazem pouco deles. 

É muita vergonha, não porque um indivíduo ignorante é ridicularizado, mas porque as pessoas que não conhecem a religião acham que nossos sagrados escritores sustentam tais opiniões e, infelizmente para aqueles por cuja salvação trabalhamos arduamente, os autores de nossas Escrituras são criticados e rejeitados como se fossem homens ignorantes. 

Se encontrarem um cristão cometendo um erro em um campo que eles conheçam bem e o ouvirem defendendo suas opiniões idiotas sobre nossos livros, como acreditarão nesses livros e em assuntos referentes à ressurreição dos mortos, à esperança de vida eterna e ao reino dos céus, quando pensam que suas páginas se acham cheias de falsidades sobre fatos que eles aprendera pela experiência à luz da razão?

SANTO AGOSTINHO. Comentário ao Gênesis, 19:39


8 de mai. de 2013

Uma Bíblia na mão e uma ideia na cabeça


O Papa Francisco, num discurso aos membros da Pontifícia Comissão Bíblica, afirmou que a Igreja Católica é a única intérprete das Sagradas Escrituras. Aliás, esta parte do discurso ganhou destaque na mídia (desiludida ou iludida) que viu no Papa o mesmo sectário que seus predecessores. Bom, e o que dizer? O Papa não disse nenhuma novidade. Jesus fundou Sua Igreja para que conservasse a pureza do depósito da fé. É ao Magistério desta Igreja que cabe a verdadeira interpretação da Revelação escrita. A todos que queiram e sejam capazes disso, é possível trabalhar para melhor entender as Sagradas Escrituras, porém todos são obrigados a se submeterem à Tradição e ao Magistério da Igreja. Mal comparando, a Bíblia está para a Igreja, como a Constituição Federal está para o STF. É à mais alta corte da justiça brasileira que cabe defender e interpretar nossa Carta Magna. Imaginem se as decisões do STF referentes à constitucionalidade das leis começassem a ser contestadas e cada estado decidisse criar seus próprios tribunais para interpretarem a CF. 


Pois é o que vem ocorrendo com a Bíblia desde que o livre exame das Sagradas Escrituras foi criado por Martinho Lutero. O ex-monge agostiniano afirmava que "até a serva do moleiro é capaz de interpretar a Bíblia". Pois bem, já na época de Lutero, foi possível observar a confusão causada por esta tese. No século XVI, entre os próprios luteranos, já haviam deduzido da Bíblia até a poligamia. Um dos líderes laicos do luteranismo casou-se com duas mulheres. Sem um Magistério devidamente constituído, a proliferação de interpretações diversas que ocasionava o surgimento de inúmeras seitas - o que Lutero não imaginou e nem desejou - foi inevitável. 

Martinho Lutero
Outro pilar da doutrina de Lutero é a Sola Scriptura, ou seja, somente nas Escrituras Sagradas é possível encontrar a Revelação divina. Lutero imaginava que era possível interpretar a Bíblia através da própria Bíblia, desprezando a Tradição e as decisões magisteriais, sendo elas conciliares ou papais. O surgimento dos anabatistas, zwinglianos e calvinistas foi a prova de que Lutero estava errado. Todos tinham exatamente a mesma Bíblia como regra de fé, mas as interpretações variavam consideravelmente. Lutero morreu angustiado com o resultado de sua obra. E o coitado nem imaginava que o pior ainda estava por vir. Para se ter uma ideia do tamanho da confusão, no mesmo ano que Lutero morreu, foram encontradas mais de 200 interpretações apenas para um versículo da Bíblia: "Isto é o meu corpo". 

Com a impossibilidade de uma igreja unificada vinda da Reforma - não faltaram tentativas, todas fracassadas -, o protestantismo seguiu sua dinâmica própria de esfacelamento. Surgiram os batistas, pois a Bíblia diria que só os adultos devem ser batizados; surgiram os unitaristas, pois a Bíblia afirmaria que Deus é uno e único e a Trindade é uma aberração politeísta; surgiram os que encontram na Bíblia que a alma morre com o corpo ou que "dorme" até a ressurreição, enquanto outros afirmam que a mesma Bíblia diz que a alma vai para junto de Deus. E agora surgem até igrejas que afirmam categoricamente, baseadas nas mais "avançadas pesquisas" bíblicas, que esta não proíbe as relações homossexuais, pelo contrário, até as aprovariam. Os pastores da IURD, por exemplo, já encontram na Bíblia argumentos pró-aborto. E sobre a Teologia da Prosperidade não é preciso nem falar.

Desta forma, a Bíblia cai em descrédito. O protestantismo, com o afã de destruir o Magistério da Igreja, recusou-lhe qualquer autoridade. Como consequência, dois séculos e meio após a revolta protestante, era a própria Bíblia que caía em descrédito sob os ataques dos racionalistas e, por fim, a existência de Deus foi posta em xeque. Afinal, onde encontrar a Verdade se há tantas igrejas, todas afirmando que obedecem o mesmo livro sagrado, mas com doutrinas tão discrepantes? Santo Agostinho afirmava: "Eu não acreditaria no Evangelho, se a isso não me levasse a autoridade da Igreja Católica". Lutero, como monge agostiniano que era, deveria ter considerado a frase daquele que deu uma Regra a sua Ordem.




12 de abr. de 2013

Marco Feliciano, Yoani Sánchez, democracia e as tropas de assalto da esquerda moderna


A democracia no Brasil está sendo sorrateiramente minada nesta última década. O que está acontecendo no caso do deputado pastor Marco Feliciano é mais uma amostra disso. Impressiona como os incautos de plantão são levados a acreditar que o caso trata-se da relação entre o Estado e a religião ou que as asneiras ditas pelo deputado demonstram racismo ou homofobia. Mas é compreensível. A geração Twitter não lê nada que contenha mais do que 140 caracteres. Por isso, fica impossível ter uma visão global do que acontece, posto que é mais fácil ficar preso à frases de efeito e manchetes. Além do que se vê, tem muito mais por trás (sem trocadilhos) do movimento gay.

Se o deputado em questão é ignorante e incompetente – e já deu mostras de ser – é outra história, mas o fato é que ele foi eleito democraticamente. Foi escolhido como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados conforme as regras da Casa. Ninguém é obrigado a concordar com os seus posicionamentos, mas é preciso respeitar o jogo democrático. Não se faz oposição inviabilizando o debate na base da gritaria, causando tumulto  e impossibilitando que o deputado faça seu trabalho. Aliás, na Sexta-Feira Santa, o deputado foi perturbado durante um culto religioso, ou seja, fora das suas funções de parlamentar. Mas algo é preciso notar. Os que protestam de forma violenta contra Marco Feliciano (militantes do PT, do PSOL e do PC do B) são os mesmos que atacaram truculentamente a cubana Yoani Sanchéz, acusando-a de trair um governo ditatorial, porque denuncia a miséria e a opressão mantidas pela família Castro em Cuba. Naquela ocasião, de maneira vergonhosa, impediram que ela se pronunciasse em público. Nada mais antidemocrático. Agem como a S.A., a famosa tropa de assalto nazista que saía à caça de opositores da ideologia. O ex-BBB deputado Jean Wyllys (PSOL - RJ), que durante seu mandato já disse tantas asneiras quanto Feliciano, é partidário destes métodos. Nestes três anos como deputado, preferiu a bravata do que apresentar projetos de lei que possam ser discutidos seriamente pelo parlamento.

Será somente coincidência que os partidos de esquerda abraçaram a causa gay? Vejamos. Nos países comunistas, o homossexualismo era crime. Para os marxistas, o homossexualismo era uma das provas cabal da degradação moral da sociedade capitalista. Gays foram perseguidos, presos e mortos na URSS, na China e em Cuba. Mas o que mudou na mentalidade da esquerda? Seria uma guinada em direção à compaixão? Não. O motivo é a luta de classes, ou seja, continua tão marxista quanto antes. Tal concepção surgiu na esquerda norte-americana, tendo como teórico o filósofo Herbert Marcuse. A luta de classes penetrou pouco no operariado norte-americano e este pouco foi habilmente anulado pelo governo nas primeiras décadas do pós-guerra. Não podendo contar com os protagonistas da revolução, a nova esquerda norte-americana precisou criar outras “classes”, reforçando ou produzindo antagonismos dentro da sociedade. A luta pelos direitos civis da população negra era uma causa justa. Assim, os movimentos negros foram abraçados pelos marxistas norte-americanos. Surgiram os movimentos hippies, feministas e homossexuais. Era preciso lançar negros contra brancos, mulheres contra homens, gays contra héteros, ou seja, a eterna luta entre oprimidos e opressores que move a História e levaria inexoravelmente a uma nova sociedade: a comunista. Neste contexto é que surge o “politicamente correto”, uma forma eficaz de patrulhamento ideológico que inviabiliza o debate e o contraditório, elementos típicos da democracia, através da ameaça e da censura.

Portanto, vemos como que por detrás de toda uma pretensa luta de direitos esconde-se ideologias revolucionárias perniciosas que pretende o fim do regime democrático, implantando o totalitarismo. Os homossexuais são utilizados como massa de manobra. Para esses partidos políticos, cuja ideologia sempre repugnou o homossexualismo, os interesses dos gays não são tão importantes. O que importa, de fato, é o êxito da revolução. Os casos de violência contra homossexuais são raros no Brasil e inflacionados artificialmente e não há dúvida que tais ideólogos inescrupulosos adorariam ver realmente aumentados. E muita gente de boa vontade acaba embarcando nessa, dando apoio ao que não conhece exatamente, engrossando o rebanho. Consola saber que estes esforços estão apenas no princípio. Os homossexuais não apoiam em massa os métodos truculentos. Basta considerar que na Parada Gay de São Paulo aparece um milhão de pessoas e para protestar contra Feliciano, uma dúzia. Mas é preciso conhecer os fatos e os verdadeiros objetivos que tais protestos escondem.  




8 de abr. de 2013

Não à teocracia!



O deputado pastor Marco Feliciano ainda rende assunto. Ocorreu até um manifesto de artistas contra o deputado. Alguém viu protesto de artistas contra os condenados do mensalão? Pelo contrário, houve até manifestações de apoio.

Mas é sempre assim. Basta algum elemento religioso se destacar no ambiente político para que os defensores do Estado laico venham com palavras de ordem que, na verdade, demonstram que não sabem exatamente o que defendem, fazendo verdadeiras misturebas na concepção do Estado e na relação entre este e a religião. Uma destas palavras de ordem que vi várias vezes é: NÃO À TEOCRACIA!

De partida já posso afirmar que, no mundo atual, não existe nenhum regime teocrático em vigor. O Egito Antigo era teocrático, pois o Faraó era a encarnação do deus sol; o Império Romano, em seu período decadente, tornou-se uma teocracia. A China Imperial era uma teocracia. O último regime teocrático, de fato, foi o do Império do Japão e acabou com a desdivinização do imperador após a Segunda Guerra. Portanto, para um regime ser considerado uma teocracia, é necessário que o governante encarne uma divindade. O Tibete não era uma teocracia. O Vaticano e o Irã também não são. Ser governado por um líder religioso ou sob leis religiosas não faz do Estado uma teocracia, assim como ser governado por um militar não faz com que o Estado viva sob um regime militar. Ninguém com o mínimo de conhecimento poderia afirmar que, por exemplo, o governo regencial do padre Diogo Feijó fez do Brasil uma teocracia.

O termo “teocracia” é usado comumente para designar regimes baseados em leis religiosas, como são alguns países islâmicos que adotam a Sharia; ou regimes absolutistas que não se submetem a nenhum poder moderador a não ser ao poder divino. Assim pretendiam os teóricos do Direito Divino dos reis. Mas, nestes caso, é um uso inexato do termo, assim como a utilização do termo “absolutista” para algumas monarquias ocidentais também o é. 

Estados governados por líderes religiosos, onde se confunde o poder religioso com o poder secular, como no caso do Irã dos aiatolás, são Estados clericais e não teocráticos. O fato de um país adotar uma religião oficial também não faz do Estado uma teocracia e sim um Estado confessional e não leva necessariamente à restrição da liberdade religiosa ou da democracia. A Inglaterra, a Islândia, a Noruega e a Dinamarca são exemplos de Estados confessionais e não consta que sejam países com algum atraso civilizacional ou antidemocráticos, muito pelo contrário (ainda que na Inglaterra um católico não pode tornar-se primeiro-ministro. Lembremos que Tony Blair renunciou ao se converter ao catolicismo).

Portanto, o simples fato de termos líderes religiosos ou leigos praticantes de alguma religião ocupando cargos em qualquer instância do governo não põe em risco nem o Estado laico, nem a democracia, pelo contrário, ao longo da História, muitas vezes foi a religião a única oponente do totalitarismo e dos impositores de pensamento único. Os presidentes norte-americanos fazem seu juramento de posse com a mão sobre a Bíblia e os Estados Unidos continuam laicos. Se levarmos em conta que no Ocidente nossas leis derivam em grande parte do Decálogo, podemos pô-las em xeque a todo momento reivindicando a laicidade do Estado, pervertendo, assim, toda a tradição jurídica de nossa sociedade. 

Regimes democráticos não mudam ao sabor de quem governa, nem restringem os direitos políticos dos cidadãos por eles serem líderes religiosos ou professarem alguma religião, nem atentam contra uma sadia laicidade ou contra a religiosidade do povo. Teocracias dependem de concepções profundas sobre a origem do poder e sobre a divindade e não do simples fato da existência de líderes religiosos ocupando cargos públicos. Percebe-se que a concepção de Estado é mais complexa do que pretendem as frases de efeito dos ativistas sem-noção.



2 de abr. de 2013

A origem dos símbolos da Páscoa: o coelho e os ovos


A festa da Páscoa da ressurreição de Jesus Cristo possui variados símbolos. Os símbolos religiosos, tais como as velas e o cordeiro, são de fácil compreensão, ao menos, para a maioria das pessoas. Mas o que tem a ver com a Páscoa o coelho e os ovos? Coelhos não botam ovo, ainda mais de chocolate. Vejamos. A Páscoa cristã tem sua origem na Páscoa judaica. Enquanto a Páscoa judaica comemora a libertação do povo de Israel que vivia sob jugo egípcio, a páscoa cristã comemora a ressurreição de Jesus Cristo. Diversos elementos da Páscoa cristã derivam da Páscoa judaica. Mas, sem dúvida, os símbolos pascais mais conhecidos são o coelho e os ovos. É difícil encontrar a origem desta simbologia. 

A inculturação do cristianismo é a tese mais provável. Ao chegar ao norte da Europa, a Igreja encontrou-se com povos que cultuavam a natureza. A chegada da primavera era bastante comemorada, pois o inverno rigoroso tinha terminado; a vida ressurgia em todo o seu vigor. Os povos pagãos festejavam a fertilidade tão ostensiva da nova estação, sendo representada pelo coelho que se reproduz abundantemente e pelo ovo que, para os antigos, representava a origem misteriosa da vida. Era comum, então, presentear uns aos outros com um ovo. Como a Páscoa também é comemorada no início da primavera no hemisfério norte, a Igreja decidiu não destruir tais elementos, tão importantes para aqueles povos, mas cristianizá-los. Tal prática não era uma novidade. A Páscoa judaica já tinha adotado e adaptado elementos das festas primaveris dos camponeses e pastores do Oriente Médio que também comemoravam a fertilidade da nova estação.
A Igreja deu novo significado aos símbolos. O ovo passou a simbolizar a vida nova em Cristo, a renovação da criação. Jesus ressuscitou no primeiro dia da semana, o que remetia ao Gênesis, ao início da criação. Era o princípio da nova criação. A fertilidade do coelho passou a representar a Igreja que gera os filhos de Deus, através da graça conquistada por Jesus Cristo pela sua morte e ressurreição. Desse modo, os símbolos pagãos das celebrações de primavera no norte da Europa, passaram a fazer parte da Páscoa cristã. Esta é a tese mais provável. Há a possibilidade de o ovo surgir na festa da Páscoa cristã também adaptado da Páscoa judaica, já que faz parte dos símbolos da ceia pascal judaica, um elemento relativamente novo introduzido já na era cristã. Na Idade Média, em algumas localidades do Leste europeu, as pessoas trocavam ovos coloridos durante a Páscoa. Mas este costume ficou praticamente restrito ao norte da Europa e posteriormente foi conservado pelas igrejas luterana e anglicana até o seculo XIX, quando a influência britânica pelo mundo popularizou os símbolos (assim como aconteceu com a árvore de Natal e o Papai Noel, mas esta é outra história). Ovos de chocolate existem desde o século XVIII, porém somente no século XX ficaram populares. O chocolate não acrescenta nada de novo ao símbolo. O uso do chocolate deu-se apenas pela criatividade dos confeiteiros franceses. Mas os motivos são o que menos importa já que todos concordam que é muito melhor ganhar um ovo de chocolate do que um ovo cozido com a casca colorida. Sem relacionar o coelho e os ovos com a ressurreição de Jesus Cristo, ambos perderam a função de símbolos. Hoje, não representam nada, nem a Páscoa, muito menos a primavera, são apenas personagens comerciais numa história sem pé nem cabeça onde coelhos trazem – só Deus sabe de onde – ovos de chocolate.