25 de jan de 2012

Perseguição aos católicos na Espanha (1931-1939)

Esta é a terceira parte do meu artigo sobre a perseguição aos católicos na Europa durante a primeira metade do século XX.

Primeira parte: Resumo e a Introdução


Segunda parte: URSS e países do Leste europeu

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A Espanha entrou no século XX seguindo sua tradição centenária de ser um dos países mais católicos da Europa. Não é possível conceber uma nação espanhola sem o catolicismo. Desde os visigodos, a Igreja marcou sua forte presença quando seus sínodos equivaliam à assembleias políticas e seus decretos tinham força de lei para todo o reino. A unidade espanhola foi construída durante a Reconquista quando os católicos retomaram das mãos dos muçulmanos a Península Ibérica. A unificação espanhola veio em 1492, com o casamento de Fernando de Aragão e Isabel de Castela, que receberam o título de “reis católicos”. Era impossível saber se o orgulho do povo provinha de ser católico ou ser espanhol. A relação entre a Igreja Católica e o Estado espanhol sempre foi tão profunda que muitas vezes se misturaram, ocasionando ora prejuízos, ora vantagens para ambos.

A Espanha entra no século XX mantendo sua longa tradição católica e em franca decadência política e econômica, em nada se parecendo com a sede de um império que abrangeu todos os continentes. Era certo que o país precisava modernizar-se política e economicamente e houve a tentativa de instaurar-se uma república no início do século, trazendo consigo a herança republicana da França, com todos os preconceitos intelectuais onde pregavam que qualquer avanço político-social só poderia ser levado adiante se a Igreja fosse eliminada. Conforme Royal (2001, p. 147), os “republicanos” espanhóis eram, em sua maioria, frutos das lojas maçônicas e compunham uma amálgama de ideologias, contendo poucos democratas e muitos radicais socialistas, comunistas e anarquistas, em geral, bastante violentos e ateus anticlericais.

Após o governo estabilizador do ditador Miguel Primo de Rivera (1923-1930) e os breves mandatos de Dámaso Berenguer e Juan Bautista Aznar-Cabañas marcados por distúrbios populares e levantes, as eleições regionais em abril de 1931 demonstraram o baixo apoio popular à monarquia e, para evitar um eminente derramamento de sangue, o rei Afonso XIII abdicou e exilou-se na Inglaterra. Tinha início, assim, a Segunda República e com ela a perseguição aos católicos da Espanha, onde “em tempo algum no curso da história da Europa, talvez mesmo de todo o mundo, viu-se um ódio tão apaixonado à religião e suas obras” (THOMAS, 1964, p. 271).

Foi durante o regime monárquico que um feroz anticlericalismo começou a ganhar formas, mas seus excessos foram contidos pela ditadura. Para os republicanos, derrubada a monarquia, era o momento de extirpar a Igreja do território espanhol. A propaganda anticatólica foi disseminada por todo o país através da publicação de jornais, revistas, apresentação de peças de teatro e discursos transmitidos pelo rádio. A prática seguia o itinerário já conhecido: apresentavam a Igreja como intolerante e opositora de qualquer mudança socioeconômica na sociedade espanhola, favorecida pelo governo com diversos privilégios, proprietária de enorme riqueza enquanto mantinha o povo na pobreza através de um controle insuportável exercido sobre o comportamento das pessoas e acusada de invariavelmente se colocar ao lado dos poderosos, ricos e opressores (ORTÍ, 1995, pp. 46-49). Em resumo, a Igreja Católica era tida como a principal causa de todos os males da Espanha, inimiga da República e do povo. Esta era a imagem que os laicistas forneceram da Igreja e que penetraram na consciência das massas populares. Contudo, afirma Ortí (1995):

Às acusações lançadas pelos anticlericais e inclusive pelos políticos moderados e de direita contra a Igreja na Espanha, deve-se responder que eram, em 1931, em parte exageradas e em parte gratuitas. Uma campanha propagandística cujo ensinamento e grosseria possam parecer hoje incríveis, mas que resultaram de provada eficácia. Cunhada a imagem de uma Igreja rica, poderosa e corrompida, inimiga da República e do povo, precisamente quando a Igreja estava realizando todo o possível para encaminhar os fiéis pela via pacífica da legalidade. A riqueza da Igreja estava nos tesouros artísticos de seus templos e em seu patrimônio documental conservado em arquivos diocesanos e paroquiais, em monastérios e em conventos. Mas o clero vivia na miséria e, pese a frequentes reclamações durante a ditadura, não se conseguiu elevar justamente a dotação econômica do mesmo. No entanto, a reiterada insistência do anticlericalismo conseguiu fazer o povo crer exatamente o contrário (ORTÍ, 1995, p. 48).

A data do início da perseguição à Igreja Católica é colocada frequentemente pelos historiadores após o Alzamiento, o levante militar comandado por Francisco Franco contra o governo e que foi o estopim da guerra civil, quando a Igreja foi vista como aliada do general. Porém, mesmo sem jamais ter havido um edito de perseguição, os fatos demonstram que esta teve início já em maio de 1931, posto que “as omissões e a tolerância à violência e certa colaboração oculta ou indireta provam que o governo estava pouco preocupado com a situação dos católicos” (ORTÍ, 1990, p. 18).

Em maio de 1931, um mês após o fim da monarquia, antes do martírio dos católicos, teve início o “martírio das coisas” (CORÇÃO, 1972, p. 214). Os discursos anticlericais e anticatólicos surtiram efeito sobre as massas populares. Milícias armadas pelo governo, conhecidas como “incontroláveis” (ROYAL, 2001, p. 143) avançaram sobre as igrejas, mosteiros e conventos que foram saqueados e incendiados sem que as forças de segurança do governo ou a Guarda Civil interviessem. Quase uma centena de edifícios eclesiais foi destruída por toda a Espanha sem que ninguém fosse punido ou, ao menos, fosse processado por estes atos (ORTÍ, 1995, pp. 54-55). Até 1936, seriam 411 igrejas destruídas. A declaração do ministro da guerra, Manuel Azaña, demonstra a posição do governo diante do vandalismo generalizado: “Todos os conventos da Espanha não valem a vida de um único republicano” (ROYAL, 2001, p. 143).

As destruições e assaltos só vieram a comprovar a pobreza em que viviam os clérigos e religiosas. Enquanto se esperava encontrar grandes tesouros em ouro e dinheiro nos conventos e casas paroquiais, os despojos mostraram-se insignificantes. A riqueza da Igreja Católica consistia em seu patrimônio cultural, nas bibliotecas, nas obras de arte, na beleza arquitetônica. Justamente o que foi destruído pelos vândalos (ORTÍ, 1995, p. 19). Mas o ano de 1931 não ficou apenas marcado pelo “martírio das coisas”. De acordo com Royal (2001, p. 140), sete freiras visitandinas que tiveram seu convento incendiado em Madrid foram sequestradas e executadas por anarquistas.

Em outubro, a Assembleia Constituinte começou a debater a nova carta magna da nação. Durante os debates, a questão religiosa foi o principal, senão o único assunto. Foram propostos vários artigos anticatólicos, como o fim das escolas confessionais, a retirada de símbolos religiosos em lugares públicos, a proibição do culto público e a supressão das ordens religiosas (ORTÍ, 1990, p. 142). Os católicos republicanos se sentiram traídos, mas a despeito de todos os protestos, a Constituição da República foi aprovada em dezembro de 1931 e, no dia seguinte, Niceto Alcalá Zamora foi eleito presidente.

A legislação abertamente antirreligiosa não se fez esperar. Em 19 de janeiro de 1932, os professores nacionais receberam uma carta circular do diretor geral do Ensino Primário que lhes obrigava a retirar das escolas todo símbolo religioso, porque a escola deveria ser laica, e, em aplicação do artigo 43 da Constituição, foram suprimidos os crucifixos. Esta medida, ainda que legal, provocou grande irritação entre as numerosas famílias cristãs, que sentiram sua fé profanada e a educação de seus filhos ameaçada. Em 24 de janeiro foi dissolvida a Companhia de Jesus, já que o artigo 26 da Constituição declarou a supressão das ordens religiosas que, além dos três votos canônicos, impusessem a seus membros outro especial de obediência a uma autoridade distinta da autoridade legítima do Estado (ORTÍ, 1995, p. 60).

Continua Ortí (1995, p. 61):

Em dois de fevereiro foi aprovada a lei do divórcio e no dia seis foram secularizados todos os cemitérios. A partir de 11 de março foi suprimida a disciplina de “Religião” em todos os centros docentes. Mas a disposição legislativa mais polêmica do primeiro biênio republicano foi a Ley de Confesiones y Congregaciones religiosas, aprovada pelas Cortes em 17 de maio de 1933, com grande satisfação dos partidos de esquerda e publicada na Gaceta, em três de junho, que chegou a ser qualificada como obra mestra da República. O presidente Alcalá Zamora se negou a assiná-la até o último momento por considerá-la persecutória e apurou o tempo legal para sua promulgação até dois de junho. [...] Esta iníqua lei limitou o exercício do culto católico e o submeteu, na prática, ao controle das autoridades civis, com ampla margem para o arbítrio pessoal dos poderes municipais.

Além das disposições constitucionais, diversas leis anticatólicas regionais e municipais surgiram pela Espanha, regulando e restringindo o exercício da Igreja Católica. A Espanha vivia uma crise de governo e de ordem. Na tentativa de restaurar a governabilidade, o presidente demitiu o chefe de governo e a formação do novo contava com grande número de católicos e ministros de direita, já que a Confederación Española de Derechas Autônomas (CEDA), tinha a maioria dos deputados nas Cortes. Era o que bastava aos revolucionários de esquerda em todo o país. Acusando a direita de ser golpista, em outubro de 1934, explode a revolução socialista na Catalunha e nas Astúrias. O governo bombardeia Barcelona e em dez horas a revolução catalã é vencida. Nas Astúrias a situação se agravou. Em diversas localidades, os comitês constituídos por violentos comunistas proibiram toda manifestação religiosa e queimaram templos.

Os sacerdotes e religiosos foram considerados inimigos do povo e foi dado ordem para que fossem todos detidos. Aqueles que não puderam fugir ou esconder-se foram presos em cárceres improvisados e submetidos à múltiplas humilhações e atropelos. Não se levou em conta nem a idade, nem qualquer outra consideração. Apesar das ordens recebidas, em vários lugares foram fuzilados sem piedade, algumas vezes em meio ao ódio desatado de turbas enaltecidas ou em ocasiões em que era feita a simulação de um julgamento popular onde os comitês erigiram-se em tribunais e os juízes foram os mesmos carrascos que executaram as sentenças (ORTÍ, 1995, p. 69).

A revolução socialista nas Astúrias durou quinze dias e foi derrotada pelo governo, deixando um saldo de 34 sacerdotes e religiosos mortos. Os corpos dos religiosos eram cortados em pedaços e pendurados em frente aos açougues com os dizeres: “carne de porco” (CORÇÃO, 1972, p. 245). Porém, o pior estava por vir. Em meio à turbulência política, em janeiro de 1936, o presidente dissolveu as Cortes. Dias depois, o líder da esquerda espanhola, Largo Caballero, afirmou que a implantação do marxismo era solução para a Espanha. No mês seguinte, as eleições mostraram que a direita espanhola e a Frente Popular – uma coligação de esquerda que reunia comunistas, socialistas e anarquistas – estavam praticamente empatadas revelando a profunda divisão que se encontrava a sociedade espanhola. A Frente Popular assumiu o governo sem a devida prudência que evitaria aprofundar o racha entre os espanhóis. Em março, alguns generais se reuniram em Madrid e avisaram que interviriam se o governo não contivesse as desordens, se ameaçasse implantar o marxismo e se Largo Caballero, conhecido como o “Lênin espanhol”, fosse nomeado primeiro-ministro.

Naquele mesmo dia, cinco igrejas, um convento, um seminário e uma escola católica foram incendiados em Cádis. Outras tantas igrejas e casas paroquiais foram saqueadas. Aconteceram vários atentados contra a vida dos sacerdotes. Outros foram ameaçados, presos e expulsos de suas casas. Imóveis eclesiásticos foram desapropriados por autoridades locais e em muitas localidades houve limitações ao culto, proibição de procissões e outras manifestações religiosas. Cemitérios e sepulturas foram violados. Igrejas eram invadidas e tinham seus objetos e as hóstias profanadas. Para fomentar o ódio, acusações infundadas eram levantadas contra a Igreja, como a que, em 14 de maio, correu por Madrid: as religiosas salesianas estavam distribuindo caramelos envenenados às crianças. Incitada pelos radicais de esquerda e maçons, a turba enfurecida ateou fogo ao colégio e feriu gravemente as religiosas (ORTÍ, 1995, pp. 72-73).

Em 13 de junho de 1936, o líder da direita, Calvo Sotelo foi assassinado. Dia 18 de junho, os generais decidiram organizar um golpe de Estado e, sob o comando do general Francisco Franco, os militares e nacionalistas puseram-se em marcha (ROYAL, 2001, p. 149). Com o Alzamiento, tinha início a guerra civil espanhola e com ela um massacre de católicos jamais visto na história da Europa. À medida que Franco e seus comandados ganhavam terreno, a Espanha se dividia entre duas zonas: nacionalista e republicana. A repressão política se deu nas duas zonas e em ambas houve abusos e crueldades. Todavia, apenas na zona republicana explodiu a perseguição religiosa, já esboçada desde a fundação da República, em toda a sua fúria. A Igreja Católica foi logo acusada de fomentar e apoiar os nacionalistas, ainda que jamais tivesse se pronunciado contra a forma republicana de governo e a declaração da hierarquia católica em apoio ao general Franco ocorreu somente um ano após o início da guerra, não sem motivos óbvios, posto que a Igreja Católica, após anos de limitações, afrontas e assassinatos de seus membros, na zona nacionalista era respeitada e protegida. De acordo com Redondo (1993, p. 19), assim que chegou a Madrid a notícia do Alzamiento, igrejas e conventos foram incendiados e alguns jovens da Ação Católica foram assassinados enquanto tentavam salvar os templos.

Os assassinatos em massa de católicos não teve outro motivo senão o simples fato de pertencerem à Igreja Católica. Os republicanos negaram que havia perseguição religiosa na zona que governavam alegando que os milhares de assassinatos de padres, religiosos, religiosas e leigos foram “acidentais” ou porque eram “fascistas”. Apenas na segunda quinzena do mês de julho, foram mortos 124 padres, 12 freiras e 24 leigos em Madrid, 197 padres e três carmelitas em Barcelona, 14 seminaristas em Lérida e o bispo de Sigüenza (ROYAL, 2001, pp. 152-153).

Os atos de vandalismo, comuns desde o início da República, varreram templos e casas religiosas. Quando detidos, mesmo em flagrante, eram inocentados pelos tribunais. Ortí (1990, pp. 240-241) relata que em todas as dioceses espanholas, igrejas foram parcial ou totalmente destruídas, profanadas e saqueadas, tendo seus objetos litúrgicos roubados ou destruídos. Os lideres republicanos incitavam os milicianos a destruírem as igrejas mesmo que se encontrassem diante de obras arquitetônicas e monumentos históricos.

Neste contexto se explica os fatos violentos e sacrílegos tão graves como a profanação direta da sagrada Eucaristia, realizada de mil formas: esvaziando os sacrários, destruindo os objetos consagrados, alvejando o Santíssimo Sacramento, comendo sacrilegamente o que tinha nos vasos sagrados e bebendo utilizando-se dos cálices, jogando e pisoteando pelas ruas as sagradas hóstias, convertendo as igrejas em quadras e os altares em cocheiras para animais (ORTÍ, 1995, p. 84).

Mas, apesar de as destruições de igrejas e objetos sagrados serem chocantes, nada foi mais trágico do que o assassinato de milhares de católicos. Tendo a perseguição religiosa durante a República atingindo toda a sua ferocidade após o início da guerra, nos esclarece Ortí (1995) que:

Em toda a zona republicana, o culto público esteve proibido durante quase três anos. Nenhum templo permaneceu aberto e nenhuma cerimônia religiosa pode ser celebrada. Somente ao final da guerra, em Barcelona, existiu uma relativa tolerância para os atos religiosos privados e se permitiu a celebração pelas ruas de um funeral, com sacerdotes e cruz alçada, que serviu para que a propaganda republicana difundisse fotografias fazendo crer a existência de uma liberdade religiosa que, na realidade, nunca houve. A Igreja não existiu oficialmente no território republicano a partir de 18 de julho de 1936 até o final da guerra, mas se organizou clandestinamente. Os eclesiásticos foram assassinados simplesmente pelo que eram: os bispos de Almería, Guadix e Teruel, porque eram pastores da Igreja; as carmelitas de Guadalajara e as Irmãs da Doutrina Cristã de Mislata (Valência), porque eram freiras; e os passionistas, os claretianos, os Irmãos de São João de Deus, de La Salle, os escolápios, os marianistas e os Operários Diocesanos, porque eram sacerdotes e frades. O mesmo deve ser dito do engenheiro Vicente Vilar, de Manises (Valência), assassinado porque era um católico militante e um fervoroso filho da Igreja. Nenhum destes esteve jamais implicado em lutas políticas nem intervieram nelas (ORTÍ, 1995, p. 29).

Milicianos patrulhavam as ruas e pessoas eram detidas simplesmente porque carregavam alguma medalha religiosa ou crucifixo no pescoço. Clérigos e leigos fugiam da zona republicana atravessando a fronteira com a França ou refugiavam-se em embaixadas (ROYAL, 2001, p. 146).

Os católicos eram submetidos a todos os tipos de torturas psicológicas e físicas, mutilações e insultos. Numa reedição dos espetáculos romanos, padres e religiosos eram jogados nas arenas para serem mortos por animais, os assassinos cortavam as orelhas dos sacerdotes e as exibiam como troféus, muitos eram obrigados a engolir terços e crucifixos ou eram-lhes introduzidos nos ouvidos até que o tímpano fosse perfurado. Cemitérios foram profanados e os corpos de padres e freiras eram expostos nas ruas com escárnio (THOMAS, 1964, p. 272).

Padres, religiosos e religiosas eram arrastados para fora de hospitais, seminários e escolas, sendo que, muitas vezes, professores foram executados com seus alunos. Padres e freiras eram torturados para que renunciassem à fé gritando “Viva o comunismo” em vez de “Viva Cristo Rei”, o lema dos católicos espanhóis, inspirados nos seus irmãos perseguidos do México. Freiras eram estupradas e sacerdotes, castrados. Todas as formas de tortura e de matar foram empregadas no trato com católicos, fossem leigos ou clérigos. Nem a crucificação foi descartada (ROYAL, 2001, pp. 154-156). E Messori (2004, p. 45) afirma que a inventividade em matar dos perseguidores era tanta que “chegou-se ao extremo de recuperar barbáries cartaginesas como a de atar uma pessoa viva a um cadáver e deixá-los ao sol até ambos apodrecerem”.

Conforme relata Royal (2001, p. 159), padres, freiras e leigos eram assassinados em retaliação por alguma ação militar dos nacionalistas. Quando a cidade de Irún foi tomada, os republicanos executaram seis claretianos, em Barcelona. Em Madrid, vinte e três adoradoras foram fuziladas porque um miliciano republicano foi morto na rua do apartamento onde estavam refugiadas.

A Guerra Civil Espanhola terminou em primeiro de abril de 1939, com a vitória dos nacionalistas liderados pelo general Francisco Franco, tendo um saldo assustador para a Igreja Católica na Espanha: entre sacerdotes, religiosas e religiosos, o número de mortos chegou em 6832, destes sendo treze bispos, 4184 padres diocesanos, 2365 religiosos, 283 religiosas e vários seminaristas. Para se ter uma ideia da dimensão do genocídio perpetrado na zona republicana, as dioceses de Barbastro, em Aragão, perdeu 123 dos seus 140 padres, ou seja, 88% do total do presbitério; de Barcelona, 279 (22% do total); de Valência, 327 (27% do total) e de Madrid-Alcalá, 1118 (30% do total) (ROYAL, 2001, p. 141).

É impossível calcular o número de leigos assassinados durante a perseguição, pois ainda não existem estatísticas confiáveis. Mas, afirma Ortí (1990, p. 234), que “foram provavelmente vários milhares, haja conta dos dados oferecidos em alguns martirológios diocesanos”. Segundo Redondo (1993, p. 23), na Catalunha, a perseguição atingiu fortemente os leigos e afirma que “da Federação de Jovens Cristãos da Catalunha, que agrupava cerca de quinze mil [membros], foram assassinados mais de trezentos”. Sobre o número de leigos assassinados, assegura Sánchez, apud. Royal (2001, p. 142):

Um número incalculável de leigos foi morto por causa de sua ligação à religião, quer por serem frequentadores assíduos da igreja, quer por fazerem parte de organizações religiosas fraternas ou caritativas, quer por serem pais, mães, irmãos, irmãs ou amigos de membros do clero. Alguns foram mortos por ostentarem um símbolo exterior de fé, como uma medalha ou um escapulário. Outros foram mortos por praticarem atos de caridade, por darem refúgio a clérigos que tentavam escapar à fúria. É impossível determinar o número de leigos chacinados pela sua fé.

A maior perseguição aos católicos no século XX ainda é causa de controvérsias. Os defensores dos republicanos afirmam que as repressões à Igreja foi um mecanismo de defesa da República já que os bispos apoiavam os nacionalistas e influenciavam com esta decisão a maioria dos católicos o que, consequentemente, veio a formar a base de sustentação de uma longa ditadura fascista e sanguinária. Redondo (1993, pp. 25-26) esclarece esta controvérsia:

A pergunta que é inevitável formular, ainda que não seja de modo algum fácil de responder, é a que se deveu esta particularmente brutal perseguição religiosa. Possivelmente cabe aduzir toda uma gama de explicações possíveis: a perseguição se produz dentro de uma revolução social que, segundo o parecer de quem a investigou com mais detalhe, nos primeiros meses teve uma violência maior que a Revolução Russa, que levou os comunistas ao poder em 1917. A revolução tentava alterar radicalmente a estrutura social espanhola e, na situação precisa do país em 1936, muitos puderam pensar que um dos primeiros passos para conseguir a mudança absoluta era a eliminação da Igreja da vida espanhola e, consequentemente, o assassinato massivo de sacerdotes, religiosos e leigos. Porque tal situação chegou a acontecer, pode, de forma indireta, ter alguma culpa o mesmo clero que talvez se mostrou em excesso apegado a uma determinada concepção de vida social, a concepção cultural tradicionalista tão remissa a introduzir alguma mudança por entender que o que existia era o que tinha que existir, e além disso, para sempre. Neste sentido podem seguir aventurando-se em suposições que, em qualquer caso e em última instância, são incapazes de explicar aquele tremendo estouro de ódio e crueldade. Também deve-se levar em conta a propaganda constante e caluniosa que tantos mantinham contra a Igreja e seus ministros há mais de cem anos e em diversos setores: desde as publicações mais vulgares até os ataques sutis. De alguma maneira, como uma confirmação de todo isto, há de se lembrar que o assassinato de tão grande número de pessoas inocentes se juntou as profanações e destruição das igrejas, a destruição sacrílega de imagens, por uma espécie de afã de riscar do mapa até a última lembrança de tudo o que supusesse para o homem uma advertência de que havia algo mais do que o puramente material e tangível. Frente ao ódio antirreligioso, as advertências insistentes de que a Igreja nada teve a ver nem com a preparação, nem com o desenvolvimento do Alzamiento militar não foram já não mais escutadas, mas sequer foram ouvidas.

A despeito de um julgamento sobre o franquismo que não nos cabe neste artigo, sabendo que as perseguições e os inflamados discursos anticatólicos começaram juntamente com a República em 1931, Ortí (1995, p. 83) afirma que a grande maioria das mortes de sacerdotes e religiosos apenas teve motivações antirreligiosas, sem nenhum indício de motivação política e que as execuções em massa de católicos sem distinção de sexo, idade ou classe social demonstram que os assassinatos ocorreram fora de qualquer contexto político.




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