27 de jun de 2015

Carta de Jesus ao pastor: mais um texto sobre religião totalmente equivocado de Gregório Duvivier

O último artigo de Gregório Duvivier , na Folha, é uma carta de Jesus a um pastor. O humorista mediano, alçado a intelectual, demonstra, no texto, desconhecer os evangelhos e, portanto, o próprio Jesus ao qual pretende dar voz e que seus conhecimentos de História não vão além das leituras dos livros didáticos do MEC. Não quero tratar, aqui, das críticas do humorista aos pastores estelionatários da fé, nem à teologia da prosperidade de igrejolas que surgem a cada dia. Vamos aos tremendos foras sobre Jesus e História.

"... e você ler direitinho vai perceber, pastor-deputado, que eu sou de esquerda."

Bobagem. O espectro político-ideológico surge com a partidarização na Revolução Francesa, 1789 anos após Jesus. Antes disso, qualquer posição política ou ideológica de qualquer personagem da História é inclassificável e toda tentativa comete-se o "pecado do historiador": o anacronismo.

"Tem uma hora do livro em que isso fica bastante claro (atenção: SPOILER), quando um jovem rico quer ser meu amigo. Digo que, para se juntar a mim, ele tem que doar tudo para os pobres. "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus"."

A citação de Jesus é precisa. Mas faltou o que antecede esta fala de Jesus. O jovem rico se encontra com Jesus. Ele tem sede de Deus e quer saber do Mestre o que fazer para alcançar a vida eterna. Jesus lhe diz: "Observa os mandamentos"; "Quais?", pergunta o jovem; "Não matarás, não roubarás, não cometerás adultério, não levantarás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe". Ou seja, Jesus diz ao jovem que cumpra os Dez Mandamentos. O jovem lhe diz que todos estes mandamentos ele tem observado, Aí, então, vem a resposta de Jesus: "Se queres ser perfeito, uma coisa só te falta: vai, vende o que tem, dá aos pobres e me segue." O jovem rico vai embora entristecido porque tinha muitos bens. Este é o relato que consta nos evangelhos. Bom, não me parece que o pessoal da esquerda goste muito de dar seus bens aos pobres, nem por caridade, muito menos para se tornarem livres no seguimento de Jesus. Nem me parece que se empenham em cumprir os mandamentos do "esquerdista" Jesus. Aliás, matar e roubar foi o que a esquerda mais fez ao longo da história. Mas quantos cristãos não deram tudo o que tinham para seguir Jesus.

"Sou mais socialista que Marx, Engels e Bakunin -esse bando de esquerda-caviar. Sou da esquerda-roots, esquerda-pé-no-chão, esquerda-mujica.  Distribuo pão e multiplico peixe -só depois é que ensino a pescar."

O Jesus socialista não é uma bobagem inventada por Gregório Duvivier. Tem até bispo que acredita nisso. Qual esquerda-mujica? Do Mujica aborteiro, ex-presidente do Uruguai? Jesus não distribuía peixe e pão. O milagre da multiplicação não foi o antecedente do Bolsa-Família. Ao contrário, conta-nos o evangelho de São João, que, logo após o estupendo milagre, queriam proclamar Jesus como rei. Ele recusou, é óbvio. Muito diferente de demagogos que usam o discurso da pobreza para alçar ao poder. Também nos conta João, que no outro dia, o povo todo acorreu até Jesus. Repreendeu-os porque o procuravam não porque tinham visto o milagre, mas porque queriam comer pão gratuitamente. Jesus não ensinava a pescar. Pelo contrário, colocava algumas pessoas em apuros. Por exemplo, ao curar um cego ou aleijado que pedia esmola, automaticamente Jesus obrigava-os a arrumar um trabalho. Por conta deles, é claro.

"Se não quiser ler o livro, não tem problema. Basta olhar as imagens. Passei a vida descalço, pastor. Nunca fiz a barba. Eu abraçava leproso. E na época não existia álcool gel."

Se Jesus andava descalço ou nunca fez a barba, jamais saberemos. Aliás, é totalmente irrelevante. Sabemos, com certeza, que Jesus usava uma túnica inconsútil, o que não era comum a um miserável. Conta-nos os evangelhos que Jesus tocou uma única vez num leproso para curá-lo. Não entrarei nas minúcias do texto original de Marcos que diz que Jesus se irou pelo fato de o leproso irromper entre a multidão para vir prostrar-se aos seus pés, o que indica que o Senhor desaprovou a atitude do leproso de desrespeitar a Lei. Mas, de fato, Jesus tinha especial atenção aos doentes e pecadores. Não me parece que a turma vermelha se interesse por leprosos, nem pela dignidade dos doentes, já que o próprio autor do texto já defendeu a eutanásia em outra ocasião. Não me parece que seja possível existir um Damião de Molokai entre ateus e comunistas.

"Fui crucificado com ladrões e disse, com todas as letras (Mateus, Lucas, todos estão de prova), que eles também iriam para o paraíso. Você acha mesmo que eu seria a favor da redução da maioridade penal?"

Que Jesus foi crucificado entre ladrões, todos os evangelhos concordam. Mas só Lucas conta a conversão daquele que viria a ser conhecido como o bom ladrão (conhecido pela tradição com o nome de Dimas). Os dois ladrões injuriavam Jesus, até que Dimas foi tocado pela graça e se converteu. Imediatamente, reprendeu o outro ladrão. Dimas se arrependeu e pediu perdão a Jesus, recebendo a promessa de estar com ele no paraíso. Só Dimas, arrependido, recebeu a promessa. O outro, não. Encaixar a questão da maioridade penal aqui é hilário. Primeiro, Jesus pode perdoar qualquer criminoso e queremos que eles se arrependam e se convertam. Mas que sejam punidos pela justiça. Jesus perdoa Dimas, mas não o tira da cruz. Aliás, o próprio Dimas reconhece que a sentença que ele e o outro ladrão cumprem é justa. Que todos os criminosos se convertam e aproveitem as penas como penitência.

"Soube que vocês estão me esperando voltar à terra. Más notícias, pastor. Já voltei algumas vezes. Vocês é que não perceberam. Na Idade Média, voltei prostituta e cristãos me queimaram. Depois voltei negro e fui escravizado -os mesmos cristãos afirmavam que eu não tinha alma. Recentemente voltei transexual e morri espancado."

Jesus conta a parábola do fim do mundo quando vai julgar toda a humanidade e divide-a entre aqueles que fizeram obras de caridade, que deram de comer, de beber, vestiram e visitaram os mais necessitados e os que nada fizeram diante das necessidades dos homens. “Cada vez que fizerdes algo a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes.” De fato, Jesus está de certa forma presente nos pobres. Mas não nos pecadores. Jesus diz que Ele e seu Pai virão àqueles que observarem seus mandamentos e neles farão sua morada. Aqui, Duvivier comete erros de História, ou melhor, parte para as clássicas acusações sem fundamento nenhum. Na Idade Média, não se queimava prostitutas. Aliás, nenhum país tentava combater a prostituição seriamente. Nem em Roma. Entendiam sua função social "assim como tem função social as cloacas das cidades". Os prostíbulos eram regidos por estatutos específicos elaborados pelo governo de cada cidade e funcionavam como uma espécie de corporação de ofício. Geralmente as prostitutas eram obrigadas a vestirem-se com uma roupa que as diferenciava das outras mulheres. Havia ordens religiosas e confrarias - sob a proteção da Santa Maria Madalena - que procuravam ajudar aquelas que queriam deixar a prostituição e, em certos períodos, a Igreja concedia indulgência plenária a quem casasse com uma prostituta.











4 de jun de 2015

A Religião Ateísta: ateísmo puro é insuportável. Graças a Deus, não conheço um único ateu puro sangue

Richard Dawkins andou pelo Brasil. Sinceramente, não vi as repercussões. Dawkins é um dos pregadores do ateísmo militante, uma espécie de religião sem divindade. O ateísmo militante se organiza como uma religião. Tem pregadores, profetas apocalípticos, livros sagrados, oráculos, códigos morais e até santos e santas. Eu me irritava com a religião ateísta, porque via nela uma negação dos princípios do livre-pensamento, tão caro aos primeiros ateus. Mas não me irrito mais, ao contrário, vejo algumas vantagens nela.

A religião ateísta não é um fenômeno recente. Já nos primórdios do ateísmo, os ateus se organizaram em instituições para compartilhar suas ideias e fins comuns. A primeira foi na maçonaria, que não nasceu ateia, mas, por sua própria dinâmica e atração que exerceu sobre os ateus, tornou-se pouco a pouco. Depois, duas grandes correntes filosóficas atraíram os ateus: o positivismo e o marxismo. O positivismo de Auguste Comte era uma verdadeira religião. Fundaram-se até "igrejas" positivistas (a do Rio de Janeiro está lá até hoje). Porém, a maior expressão da religião materialista é o marxismo. O marxismo é um decalque do cristianismo numa complexa (ou simplória) explicação globalizante da História. Muitos textos marxistas são puros oráculos divinos comparados aos dos profetas bíblicos. É impressionante a semelhança.

Poderíamos citar outras correntes: o darwinismo, o cientismo (ou cientificismo) e até o espiritismo, religião que pode funcionar sem Deus. Estas correntes religiosas materialistas surgidas no século XIX, eu as chamo de "religiões ilustradas". Em comum, todas elas compartilham noções teleológicas: dão um sentido para a vida humana, explicam suas contradições, apontam caminhos para progredir, possuem um código moral e culminam na construção do paraíso terrestre. Finalmente, depois deste parêntese histórico, o porquê de o ateísmo militante não me irritar mais.

O ateísmo puro é insuportável. Graças a Deus, não conheço um único ateu puro sangue. Ateus nietzschianos são raros. Um ateu que crê em energias positivas (ou negativas), que torce pela recuperação de alguém que está doente, que simplesmente deseja sorte para um amigo que vai prestar vestibular ou felicidades para um casal recém-casado não pode ser um ateu puro sangue - ainda que muitos apelem a uma pseudo-ciência que respalda estas "crenças". O ateu puro não crê em nada disso. Crê nas forças cegas da natureza, nos condicionamentos psicológicos, nos determinismos biológicos. Não crê nem mesmo no amor, esta reação físico-química que serve apenas ao extinto de conservação da espécie. Mais uma vez, agradeço a Deus pela maioria dos ateus não ser pura, não ser nietzschiana, não ser niilista. O ateu puro só encontra dois caminhos: a loucura ou o suicídio.