7 de abr de 2009

A Família: Igreja doméstica, célula da sociedade

No princípio, Deus criou o homem e a mulher (Gn. 2) para que em suas diferenças singulares se completassem e, desta complementaridade, no amor, gerassem frutos, os filhos. Estava, portanto, instituída a família, imagem da Trindade Santa, eterna família. Mas quando veio a plenitude dos tempos (Gal. 4,4) Deus envia seu Filho que quis ter uma família e Se encarnou no seio de uma mulher, a santíssima Virgem Maria, tendo como pai adotivo e guardião, o glorioso São José. Deste modo, Deus revela assim a dignidade da família. E, tamanha dignidade é manifestada quando Jesus eleva o matrimônio a sacramento da Nova Aliança e imagem da união de Cristo e Sua Igreja. Todavia, em nossos dias, como tudo que vem de Deus sofre ataques implacáveis, a família não passa incólume dos inimigos de tudo que é sagrado. Ao contrário, se tornou uns dos alvos prediletos, juntamente com a Igreja, corpo de Cristo, e a pessoa humana, imagem de Deus. Os ataques são contra a manutenção do casamento, a fidelidade, a geração de filhos e sua educação.

As “profecias científicas” sobre catástrofes ambientais causando escassez de alimento e água para as futuras gerações acabam incutindo – e não seria esta a intenção? – nas pessoas um verdadeiro pânico em ter filhos, afinal, ninguém gostaria de colocar filhos num mundo tão difícil de se viver. Assim, acabam justificando a imoralidade do controle de natalidade através de métodos anticoncepcionais desde as pílulas até o aborto. Outra forma de criar repulsa à geração de filhos vem do culto ao corpo, da beleza estética. Alardeiam que mulheres que engravidam, perdem a beleza do corpo, suas formas. Ficam menos atrativas sexualmente. E para indivíduos inseridos numa sociedade baseada no hedonismo e na vaidade, estes argumentos são mais do que suficientes para evitar filhos. Aliás, hoje em dia, entre o nascituro e um câncer no útero não há muitas diferenças para muitos. Os dois trazem transtornos à vida da mulher que se auto-proclama senhora de seu corpo. No egoísmo que assola nossa sociedade moderna, os filhos atrapalham as carreiras profissionais, dão gastos excessivos, educá-los despendem tempo e “tempo é dinheiro”. Ao mesmo tempo, temos aqueles que fazem de tudo até mesmo ultrapassando os limites morais para conseguir gerar um filho. Partem para as técnicas de fertilização in vitro e artificial, sêmen ou óvulos doados por anônimos, métodos que são ótimos quando empregados no melhoramento genético de gado, mas nunca no trato com a pessoa humana ainda mais quando revela a satisfação de uma vontade egoísta. Por que não tomemos uma atitude solidária e que revela em nós o amor gratuito de Deus e adotamos crianças que esperam ansiosas por uma família? Será que a carga genética tem tanta importância assim para deixarmo-nos manipular como animais?

A Igreja defende a paternidade responsável, um planejamento familiar, mas muito diferente do conceito de planejamento que vemos por aí. A Igreja quer que cada família tenha um número de filhos compatível com suas possibilidades e o que vemos são casais que poderiam ter uma prole numerosa, mas, ao invés disso, possuem apenas um ou dois filhos. E é sempre a mesma desculpa esfarrapada da condição financeira, porém, na verdade, não querem perder certas regalias como viagens anuais, a troca do automóvel ou da casa. Sem dizer nos casais que preferem tratar animais de estimação como filhos, inclusive chegando a gastar mais com eles, com a vantagem de terem menos trabalho para cuidar. Mais uma vez o individualismo, o egoísmo. E em busca desta condição elevada de bem-estar, pais e mães acabam priorizando suas carreiras profissionais, trabalhando excessivamente e “terceirizando” a educação de seus filhos o que é sua obrigação específica. A desvalorização do trabalho da mulher como mãe e dona-de-casa que a denotaria como submissa, dependente, colabora muito para este fenômeno. Por outro lado, vemos este mesmo aspecto em famílias que passam por necessidades materiais onde o marido e a mulher são levados a trabalhar para sustentar sua casa, prejudicando a formação dos filhos. Mas nada justifica a ausência na educação dos filhos. Que cada tempo livre seja utilizado para este fim. Outrora, em especial no campo, as mulheres trabalhavam e criavam seus filhos com uma educação esmerada. Era no colo das mães que aprendiam conceitos de solidariedade, justiça, amor. Que recebiam a primeira catequese. Hoje, graças a um conceito equivocado sobre o papel do Estado, relegam a educação às escolas. Não ensinam mais sobre Deus e Sua Igreja. E isto reflete no aumento de índices de violência, pois uma formação moral impede ou, ao menos, minimiza as chances de uma pessoa se tornar uma criminosa muito mais que melhores condições socioeconômicas. As famílias que eram verdadeiramente igrejas domésticas, lugar de oração e evangelização, passaram a ser um conjunto de pessoas que mal se relacionam. E tudo isto é influência do laicismo de nossa sociedade ocidental que empurra a religião a uma prática meramente individual. Não é raro escutar: “Não batizarei meu filho. Quando ele crescer, escolherá a religião que quer seguir”. Há pais que se dizem católicos, e muitos até mesmo são praticantes, dando aos filhos a mesma educação sexual mundana. Querem ser modernos. Seguem correntes da psicologia (hoje, até mesmo ultrapassadas, mas o estrago já foi feito) que proíbem qualquer cerceamento da “liberdade” dos filhos, sob o risco de lhes causar traumas. Permitem que os filhos façam sexo dentro da própria casa. É melhor aqui do que na rua, dizem eles. Fazem questão de darem preservativos a eles. O que importa é que não contraiam uma doença ainda que suas almas sejam lançadas no inferno. Neste falso conceito de liberdade, proliferam as mães e pais solteiros, os filhos órfãos de pais vivos.

O que motiva o casamento é o amor. Mas não este amor subjetivo e açucarado que o mundo nos apresenta, mas o amor sacrifical. Não é por acaso que São Paulo, na carta aos efésios (Cf. 5, 21-33), compara o amor matrimonial ao sacrifício de Cristo na cruz e Sua união à Igreja. Porém, nesta sociedade que prima pelo hedonismo e pelo consumismo, qualquer sacrifício neste sentido é loucura. Seus argumentos são a felicidade e o prazer como finalidade do casamento. Nem por amor aos filhos os casais querem se sacrificar. Puro egoísmo. O divórcio é um mal que se espalha e a sociedade, amortecida, é indiferente a ele. Deformam a imagem da família: pai, mãe, filhos. São inúmeros parceiros e parceiras ao longo da vida, vários meio-irmãos e enteado, e tudo isto vivido com uma naturalidade assustadora. Não é de se admirar que acompanhemos pelo noticiário, vários crimes praticados dentro de famílias desestruturadas. Não há uma estatística que comprove a maior incidência de crimes no interior de famílias desestruturas do que nas de famílias “tradicionais”, mas esta afirmação parece poder ser claramente observada. É difundido, principalmente pela mídia, que o sucesso do casamento depende quase que exclusivamente do sexo. Disto surgem teorias que incentivam o sexo antes do casamento como um “teste drive”, quando sabemos que o namoro é o período de o casal se conhecer, de amadurecer o amor para que receba o sacramento do matrimônio. E nesta ânsia de manter o casamento através do sexo – mais uma vez o hedonismo –, é introduzido no relacionamento do casal hábitos imorais como a pornografia ou, ainda pior, mantém-se um relacionamento aberto onde os dois se submetem à práticas animalescas em prol de manter “a chama acesa”. E muitos têm o cinismo de chamar tudo isto de amor; apregoam que pelo amor vale tudo. Só não vale carregar a cruz de Cristo; só não vale renunciar a si mesmo. Mas aí é exigir demais! Imoralidades dentro do matrimônio não é novidade de nossos tempos (Cf. Cor. 5, 1), aliás, “não há nada de novo debaixo do sol” (Ecl. 1,9), mas o assustador é o indiferentismo da sociedade perante todos estes acontecimentos. O individualismo que leva as pessoas a não se preocuparem com os outros desde que não sejam tocadas.

E quando o casamento vai mal recorrem à terapia de casal. Paga-se uma fortuna a psicólogos que, em muitas vezes, não darão uma orientação cristã. Onde está o diretor espiritual do casal? Onde está o momento de oração em família? É claro que a ajuda profissional não é descartada, porém Deus já deu as graças de estado para que o casal cumpra seu dever na família. O que falta é crer.

O divórcio se tornou algo comum. Tão comum que, em Portugal, casais podem se divorciar pela internet. Qualquer motivo é causa do divórcio. Basta o cônjuge não agradar em algum aspecto da vida conjugal para que se divorciem. Mais uma vez vemos a falta de sacrifício, de renunciar-se em prol de um bem maior, a família. E numa sociedade relativista que molda um deus a sua imagem, se divorciam e recasam sem o mínimo de peso de consciência diante da indissolubilidade do matrimônio e sem levar em conta que o casamento é a imagem das núpcias eternas do Cordeiro com Sua Esposa Imaculada, afinal, o que Deus quer é que sejamos felizes. As relações matrimoniais acabaram tomando aspectos consumistas onde o cônjuge é a mercadoria. Quando esta perde o vigor físico, a beleza, troca-se por outra. O importante é ser feliz. Nem que seja apenas nesta vida. Se é que há alguma concepção verdadeira da vida eterna, já que, para alguns ela não existe, morreu acabou e para outros, concebem um Deus que é amor e misericordioso e no final das contas todos se salvam.

Muitos casais nem mesmo se preocupam em casar. Alegam que o amor basta, entretanto, que amor é este que não culmina na maior prova de amor que é demonstrada no sacramento do matrimônio? Alguns chegam a afirmar a estupidez que o sacramento dá azar para o relacionamento, porque conhecem casais que viveram amasiados por vários anos e quando se casaram, o relacionamento não perdurou. Não perdurou porque viviam em pecado e depois de casados diante de Deus as tentações aumentaram. O diabo não quer perder suas presas. E usando o amor, este amor puramente humano – onde nem se pode ser chamado amor, já que exclui o Amor, Deus – como argumento, tenta-se legitimar as uniões homossexuais dando-lhes as mesmas prerrogativas da família, inclusive promovendo adoções de crianças, fadando-as a uma educação nem um pouco sadia, tanto psicológica como moral. Não podemos aceitar as uniões civis de homossexuais porque o Estado não pode modificar ou definir o que é ou como é formada a família, pois esta o precede.

Enfim, os ataques contra a família se intensificam e já podemos notar os males causados por estes ataques. A família é a célula da sociedade e se esta célula sofre agressões, fica doente, toda a sociedade sofre. A ligação entre o enfraquecimento das famílias e o aumento da violência é evidente. Mas as famílias cristãs, como sal da terra e luz do mundo, devem testemunhar uma vida de amor e solidariedade entre seus membros, fé em Deus. É natural que o entusiasmo do início tenda a diminuir e neste momento devem ser exemplos de perseverança no amor diante de tantas dificuldades que encontramos dentro do matrimônio, colocando Deus em primeiro lugar. Que estas famílias, igrejas domésticas, sejam fonte de evangelização e catequese e voltem a ser escolas de justiça, amor, solidariedade.

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