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21 de jan. de 2013

Há 220 anos, Luis XVI era executado

É uma tristeza o quanto as pessoas não se importam com a pesquisa historiográfica. Basta conferir os comentários desta grande descoberta publicada em vários sites para verificar aonde chega a ignorância e o descaso com a História. 

Mas qual é a importância em se comprovar que o sangue encontrado num lenço guardado dentro de um cofre por 220 anos é o sangue do rei Luis XVI decapitado pelos revolucionários franceses? É um grande indício que o "cidadão Luis Capeto" não era um tirano odiado pelo povo como querem que acreditemos. 

Pessoas do povo não embebedam seus lenços no sangue de criminosos, mas de mártires. Foi como um mártir que o povo francês católico mais humilde viu seu rei ser executado por uma aliança de burgueses, maçons e protestantes. Nisso consiste a importância da descoberta relatada na notícia. Como nossa sociedade é fruto da Revolução Francesa, é preciso justificá-la apresentando Luis XVI como o tirano odiado pelo povo. 

30 de jun. de 2012

São Pedro e São Paulo

A Boa Notícia de Jesus Cristo:


“E Eu te declaro: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja.” (Mt. 16, 18)


Hoje, comemoramos os martírios de São Pedro e São Paulo. Os dois apóstolos foram mortos na cidade de Roma durante a perseguição de Nero. São Paulo, como cidadão romano, morreu decapitado na Via Ostiense; e São Pedro foi crucificado. A seu pedido, pregaram-no na cruz de cabeça para baixo, pois não se achou digno de morrer da mesma forma que seu Senhor. Apresentado ao Senhor por André, seu irmão, o pescador Simão foi chamado por Jesus no início de Seu ministério. Assim que Jesus o conheceu, mudou-lhe o nome para Cefas, a pedra, Pedro. Deus sempre muda o nome de seus escolhidos conforme suas missões, especialmente dos príncipes de Seu povo. Foi assim com Abrão que se tornou Abraão e Jacó que foi chamado Israel. Aquele que viria a ser o príncipe dos apóstolos e chefe da Igreja de Cristo também recebe de Deus outro nome que o identifica com sua missão.

Estando Jesus com seus apóstolos em Cesareia de Filipe lhes pergunta o que ouvem comentar sobre Ele. Os apóstolos lhe contam que o povo não sabe quem Ele é e cogitam se não vem a ser um dos profetas que ressuscitaram. Jesus, então, quer saber de seus apóstolos quem pensam que Ele seja. Pedro toma a frente e responde que Ele “é o cristo, o Filho de Deus vivo”. Jesus lhe afirma que o que respondeu foi inspirado por Deus, pois sem ser revelado, tal conhecimento seria impossível de se alcançar racionalmente. Neste momento, Jesus se dirige a São Pedro e lhe declara: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão sobre ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”. Sobre a fé de Pedro é fundada a Igreja de Jesus. São Pedro e os apóstolos são os fundamentos da Igreja de Cristo.

Pedro torna o chefe visível do Povo de Deus. Mais tarde, após a ressurreição, às margens do mar da Galileia, lá onde as histórias dos dois se cruzaram pela primeira vez, Jesus exigirá de Pedro a tríplice profissão de amor e por três vezes lhe confiará Suas ovelhas. A missão de Jesus torna-se a missão de Pedro. Pedro se torna o pastor universal das ovelhas do Sumo Pastor Jesus Cristo. Pedro, como já foi dito, morreu em Roma. Morreu com ele esta missão confiada por Cristo? De forma alguma. A missão de pastor universal de todos os cristãos continuou através da sucessão apostólica. O bispo de Roma carrega a missão de Pedro ao longo da História. Somente os que estão em comunhão com o Sucessor de Pedro, ou seja, o Papa pode afirmar que fazem parte de forma plena da única Igreja de Jesus Cristo. Em um mundo cada vez mais relativista e individualista, onde cada um constrói sua própria moral e sua própria fé, olhemos para aquele que foi constituído cabeça visível da Igreja, o Vigário de Cristo e rocha inabalável, onde a verdade cristã repousa. 


2 de mar. de 2012

Perseguição aos católicos na Europa


Conclusão

Concluímos, portanto, que o século XX foi o palco da destruição e expropriações de bens da Igreja Católica, da intolerância, tortura e do massacre de milhares, senão milhões, de católicos pelo simples e único fato de serem católicos, caracterizando, assim, um verdadeiro genocídio. As ideologias que sustentaram governos, partidos e instituições, tendo como herança e ponto de partida a Revolução Francesa, pretenderam eliminar a Igreja Católica do solo europeu. Maçons, liberais, positivistas, marxistas e nazistas consideravam a Igreja o grande obstáculo para o progresso dos diversos povos da Europa e, consequentemente, do progresso humano. O número de vítimas, os roubos e as destruições de igrejas e monumentos católicos na URSS e demais países comunistas, na Espanha e na Alemanha com todos os seus domínios demonstra que não houve um simples confronto de ideias contra oposicionistas ou limitações de pretensas regalias. O que houve foi uma tentativa de exterminar sistematicamente qualquer sinal da Igreja Católica em seus territórios, nem que para isso fossem assassinados milhares de seres humanos inocentes. Declarada culpada pelas atrocidades ocorridas na História ocidental, opressora e retrógrada, a Igreja Católica foi condenada à extinção e considerada um inimigo a ser abatido por todos os meios. Dessa forma, bispos, padres, freiras, religiosos e leigos foram caçados, presos, torturados e assassinados. Em pleno século XX, dois papas foram vitimas da intolerância: Pio XII livrou-se de um plano de sequestro dos nazistas e João Paulo II sobreviveu a um atentado a tiros (ROYAL, 2001, p. 16).

A impossibilidade de se chegar próximo a uma cifra das vítimas dos diferentes regimes que perseguiram os fiéis da Igreja Católica acaba por não transparecer a tragédia e a violência deste genocídio. Os números disponíveis se referem aos membros da hierarquia. Sendo alvos preferenciais, pois a destruição da hierarquia é a destruição da Igreja, se tornaram mais fáceis de ser rastreados. A perseguição aos católicos ocorrida na Europa na primeira metade do século XX, principalmente nas décadas de 1920 a 1940, não causa o mesmo interesse aos estudiosos como as práticas genocidas contra outros grupos étnicos ou religiosos, como o que sofreram os judeus, para citar como exemplo o genocídio mais emblemático. Royal (2001, p. 16) afirma que o genocídio dos católicos é relativamente pouco documentado e que a maioria dos relatos sobre os fatos foi produzida sob uma perspectiva puramente política. Para citar um exemplo, a obra O Livro Negro do Comunismo mal menciona a perseguição aos católicos. A literatura sobre o assunto é, sobretudo, produzida por autores que mantém relações com a Igreja e que não pretendem que tais massacres caiam no esquecimento e que estes não voltem a acontecer.

Mattera, apud. Socci (2003, p. 25) diz que, devido as perseguições, os católicos “contam suas vítimas aos milhares, seus fiéis sofrem torturas e humilhações de todo o tipo. Mas a opinião pública ocidental, precisamente a ‘cultura cristã’, não concede nenhuma atenção a esse drama, exceto em ambientes restritos”. O pouco interesse dos historiadores, organizações internacionais e demais agentes da mídia no assassinato de milhares de católicos ocorrido neste período que o artigo abrange e de todo o século XX se deve ao fato de a grande maioria compartilhar as ideologias que promoveram esse massacre. Exceto o nazismo que hoje é considerado crime na maioria dos países, todas as outras ideologias que serviram de motivação aos governos perseguidores têm seus adeptos nestes ambientes. Quando retratam os massacres, dificilmente a fazem com neutralidade e acabam apresentando os fatos do mesmo ponto de vista dos perseguidores: os católicos durante séculos perseguiram e mataram movidos pela intolerância, mas os jacobinos, bolcheviques e demais revolucionários mataram e destruíram em prol da justiça, retirando o obstáculo, a pedra do meio do caminho para o progresso e bem de todos (ORTÍ, 1990, pp. 393-394).

O que é visto, em regra geral, na historiografia e nos veículos da mídia são as repetições das mesmas acusações feitas à Igreja desde o Iluminismo. A força dos argumentos é tamanha que muitos membros da Igreja Católica, incluindo bispos e padres, em vez de conduzir um contra-argumento sério aos que acusam a Igreja, acabam aderindo às críticas e, muitas vezes, realizando uma autocrítica tão ou mais ferrenha, no que Messori chama de masoquismo dos católicos (MESSORI, 2004, p. 11). A divulgação do genocídio sofrido pelos católicos pode causar a comoção da opinião pública e esta passar a vê-los como vítimas, contrariando interesses político-ideológicos que tradicionalmente os apresentam como vilões.

De certa forma, a maneira como a Igreja Católica enxerga os mártires, ou seja, aqueles que são mortos in odium fidei ou in odium eclessae, pode colaborar para amenizar os relatos trágicos da perseguição. Para a Igreja, o martírio é a glória suprema, o sublime testemunho que um católico pode dar de sua fé e a imitação perfeita de seu fundador, Jesus Cristo. Enquanto os massacres vividos pelos judeus são denominados de Shoah, ou seja, destruição, desgraça, para a Igreja, a perseguição e o martírio, representam um momento de purificação, de prova de amor a Deus e aos irmãos e a cooperação com a redenção de Cristo (Lumen Gentium, 42).

Os regimes totalitários do século XX viram na Igreja Católica uma inimiga lógica e resolveram eliminá-la. Certamente, foi durante estes regimes que os católicos mais sofreram. Porém, a perseguição aos católicos continuou durante todo o século XX, em diversos países e das mais variadas formas. No entanto, não foram aprovadas leis que amparassem ou protegessem especificamente os católicos, proibindo ou criminalizando qualquer ideologia, publicação ou manifestação anticatólicas. Não há museus que preservam a memória das vítimas deste genocídio, a não ser igrejas dedicadas àquelas vítimas que foram oficialmente declarados mártires pela Igreja Católica. Entramos no século XXI sem nenhuma perspectiva no aumento da tolerância para com a Igreja Católica. Grande parte da perseguição ocorre, hoje, nos países de maioria muçulmana, mas os casos de intolerância, discriminação e violência voltam a crescer na Europa, através de sutis publicações, atos isolados de vandalismo e leis laicistas que limitam a liberdade e a consciência dos católicos. Ao conhecer o massacre pelo qual passaram os católicos europeus no século XX, estes fatos não deixam de ser preocupantes.



Referências Bibliográficas:

BLESSMANN, Joaquim. O Holocausto, Pio XII e os Aliados. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.

BLET, Pierre. Pío XII y la Segunda Guerra Mundial. Madrid: Cristiandad, 2004.

CORÇÃO, Gustavo. O Século do Nada. Rio de Janeiro: Record, 1972.

DELUMEAU, Jean. Á Espera da Aurora: Um Cristianismo para o Amanhã. São Paulo: Loyola, 2007.

GRAY, John N. Voltaire: Voltaire e o Iluminismo. Coleção Grandes Filósofos. São Paulo: UNESP, 1999.

MESSORI, Vittorio. Leyendas Negras de la Iglesia. 11. ed. Barcelona: Planeta, 2004.

ORTÍ, Vicente Cárcel. La Persecución Religiosa en España durante la Segunda República (1931-1939). 2. ed. Madrid: Rialp, 1990.

________. Mártires Españoles del Siglo XX. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1995.

RAUSCHNING, Hermann. The Voice of Destruction: Conversations with Hitler. New York: G.P. Putnam's Sons, 1940

REDONDO, Gonzalo. Historia de la Iglesia en España 1931-1939: Tomo II – La Guerra Civil (1936-1939). Madrid: Rialp, 1993.

ROPS, Henri Daniel. A Igreja das Revoluções (I). v. 8. Coleção História da Igreja. São Paulo: Quadrante, 2003.

________. A Igreja das Revoluções (II). v. 9. Coleção História da Igreja. São Paulo: Quadrante, 2006.

ROYAL, Robert. Os Mártires Católicos do Século XX: uma História do Tamanho do Mundo. Cascais: Principia, 2001.

SOCCI, Antonio. Los Nuevos Perseguidos: Investigación sobre la Intolerancia Anticristiana en el Nuevo Siglo del Martirio. Madrid: Encuentro, 2003.

THOMAS, Hugh. A Guerra Civil Espanhola. v. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.



9 de fev. de 2012

Perseguição aos católicos na Alemanha e territórios ocupados pelos nazistas

Esta é a quarta parte do meu artigo sobre a perseguição aos católicos na Europa durante a primeira metade do século XX. 

Primeira parte: Resumo e Introdução

Segunda parte: URSS e países do Leste europeu

Terceira parte: Espanha (1931-1939)

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Em 1933, após um contínuo período de conturbações sociais e políticas agravadas pela crise econômica que se abateu sobre a Alemanha, o líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, Adolf Hitler, chega ao poder, tendo em seu currículo a liderança de um frustrado golpe de estado na Bavária, em 1923, que lhe custou seis meses de prisão e um livro, o Mein Kampf, que continha a essência da doutrina nazista: a superioridade racial, o nacionalismo, o pangermanismo e o totalitarismo. O nazismo irá levar o mundo à guerra e seis milhões de judeus à morte nos campos de concentração.

Desde sua origem, o nazismo entra em contradição em vários pontos com a doutrina católica. Além da estatolatria, condenada pela Igreja Católica, os doutrinadores do nacional-socialismo, em sua maioria, eram adeptos do humanismo ateu e da ideia de super-homem de Nietzsche. Não havia na doutrina nazista uma linha bem definida referente à religião; uns defendiam um “cristianismo real”, sem dogmas ou instituições, muito diferente do “catolicismo judaizado”. Outros misturavam o panteísmo oriental com as teorias de Schopenhauer acerca do cosmos ou ressuscitavam velhos deuses teutônicos, adaptando-os à época. Além de todos estes pontos, a superioridade da raça ariana era o ponto que mais se distanciava da doutrina católica com seu universalismo e sua crença da igual dignidade dos filhos de Deus (ROPS, 2006, pp. 423-424).

O “cristianismo real” de Hitler era aquilo a que os nacional-socialistas se referiam como “cristianismo positivo”, em contraste com o “cristianismo negativo” das igrejas históricas. Segundo esta perspectiva, o cristianismo teria sido destorcido ao longo de toda a sua história por um “político judeu”, São Paulo, tornando-se uma religião de submissão, humildade, piedade, ascetismo e escravatura. O próprio Jesus, que, no labiríntico raciocínio nazista, não era de ascendência judaica, não tinha ensinado a religião que Paulo enxertara mais tarde nas igrejas cristãs. Pelo contrário, Jesus teria ensinado a libertação e, segundo Alfred Rosenberg, o ideólogo religioso do movimento, a livre afirmação da alma ariana racialmente pura (ROYAL, 2001, p. 187).

Todas estas teorias religiosas de Rosenberg contidas em seu livro, O Mito do Século XX, colocava automaticamente a Igreja Católica como inimiga do projeto nazista. Durante a guerra, os dirigentes nazistas acusavam a Igreja de ser aliada da Inglaterra e da URSS, mesmo tendo a Santa Sé declarado sua neutralidade. Quando a Igreja Católica protestava diante de leis e atos imorais do governo nazista, como a esterilização ou a eutanásia, por exemplo, era prontamente acusada de atuar fora de sua competência, interferindo diretamente em assuntos políticos (ROYAL, 2001, p. 188).

Diante destas acusações, a Concordata assinada em 1933 entre a Santa Sé e o Estado alemão era frequentemente desrespeitada com a alegação de que a Igreja teria a desrespeitado primeiro ao intrometer-se em assuntos políticos. O Reich procurava submeter a Igreja e limitar a liberdade religiosa. Escolas e órgãos da imprensa católica foram fechados sob a alegação de contrariarem a ideologia nazista. No final de 1937, foi decretado o fechamento de 82 instituições de ensino ligadas à Igreja, deixando 15 mil alunos sem poder receber instrução católica. Junto com o encerramento dos colégios católicos, foi dado início a uma campanha contra o ensino da religião nas escolas públicas. Como os nazistas, antes de tudo, travavam uma guerra ideológica, a liberdade de ensino era sua grande inimiga. Ao anexar a Áustria, em 1938, a primeira medida do regime nazista foi fechar as faculdades católicas e expulsar os religiosos que se dedicavam ao ensino (BLET, 2004, pp. 78-79).

Diferentemente da perseguição ocorrida em outros países, a perseguição nazista aos católicos aconteceu de maneira habilmente sutil. Segundo Royal (2001, p. 169), a estratégia era levar o povo, através de maciça propaganda, ao descrédito e ao desinteresse pela Igreja enquanto fazia acreditar que a Alemanha mantinha relações amistosas com todas as igrejas no país. Portanto, Hitler não pretendia atacar abertamente os católicos, mas afirmava:

Isto não vai me impedir de arrancar os ramos e as raízes do cristianismo e de aniquilá-lo da Alemanha. [...] Porém, é decisivo para nosso povo reconhecer uma fé judaico-cristã com a sua moral efeminada ou uma fé heroica e forte no deus da natureza, no deus do próprio povo, no deus do nosso destino, no nosso sangue. [...] Uma igreja alemã, um cristianismo alemão, é um erro. Ou se é alemão, ou se é cristão. Não se pode ser ambos (RAUSCHNING, 1940, p. 49).

Outro ponto importante na estratégia de perseguição nazista era o do não “fabricar” mártires. O comandante da SS, Heinrich Himmler afirmou, certa vez, que faria os mártires caírem no esquecimento (SOCCI, 2003, p. 17). Hitler sabia que o assassinato de católicos, ao invés de abater os ânimos, poderia surtir exatamente o efeito contrário, incentivando os fiéis ao heroísmo demonstrado pelo martírio. Apesar de afirmar que iria “esmagar a Igreja Católica como um sapo”, Hitler tinha uma estratégia bem definida de como fazer isso sem causar grande comoção popular: apresentar os católicos, principalmente os padres, como criminosos comuns diante do povo, privando-os da aura do martírio (RAUSCHNING, 1940, p. 53).

A perseguição começou a mostrar toda a sua força em 1937 após a publicação da encíclica Mit Brennender Sorge, onde o Papa Pio XI denunciava todos os abusos totalitários e antirreligiosos do nazismo. A partir de então, muitos religiosos passaram a ser presos sob a acusação comum de “linguagem perigosa” porque se pronunciavam contra a ideologia nazista. Através de malabarismos jurídicos, as autoridades nazistas denunciavam instituições e ordens religiosas por fraudes fiscais e aplicavam altas multas que as arruinavam, levando ao penhor de bens ou de imóveis. Os padres eram acusados de viver uma vida dissoluta e de cometerem abusos sexuais contra crianças e adolescentes (ROYAL, 2001, pp. 193-194).

Os nazistas apresentavam várias justificações para prenderem os membros do clero: agitação de massas, espionagem, auxílio a prisioneiros, suspeita de traição, comportamento inamistoso para com a Alemanha, apoio aos judeus, insultos ao Führer ou ao nacional-socialismo ou, por vezes, nenhuma razão. Um foi condenado por dizer às crianças na escola: “Amai os vossos inimigos”. Doze foram capturados depois de terem lido no púlpito o Leão de Münster, a obra do bispo Clemens August von Galen que condenava a eutanásia. O padre Neururer chegou a Dachau por ter “impedido um casamento ariano”. [...] De acordo com alguns companheiros de prisão, esteve crucificado de cabeça para baixo durante 36 horas (ROYAL, 2001, p. 171).

De acordo com Royal (2001, p. 174), o “crime” de todas estas pessoas era o fato de serem católicas e, por isso, colocavam-se em oposição à fé do Reich. Um agente da Gestapo chegou a afirmar durante um interrogatório que os padres eram inimigos piores que os judeus e os comunistas. Dos vinte e um mil padres católicos existentes na Alemanha durante o regime nazista, cerca de oito mil entraram em conflito direto com o Reich. Centenas acabaram presos ou mortos (ROYAL, 2001, p. 169).

Dachau foi o campo de concentração que recebeu a maioria dos presos por motivos religiosos. Padres e leigos católicos eram colocados no “pelotão de castigo”. Neste “pelotão”, comandado por um ateu sádico, os prisioneiros tinham que realizar os trabalhos mais duros e extenuantes do campo (ROYAL, 2001, p. 176).

Um sacerdote tcheco, Beduich Hoffmann, que passou, entre 1940 e 1945, por dois campos de concentração, Buchenwald e Dachau, relatou que apenas neste estiveram presos 2670 sacerdotes de, pelos menos, vinte nacionalidades diferentes, trazidos de países ocupados pela Alemanha, sendo a maioria, cerca de 1780, de poloneses. De todos os sacerdotes presos, quase 600 morreram no campo e 325 morreram durante o “transporte de inválidos”, nome dado ao comboio que partia com prisioneiros que eram assassinados em outras localidades. Dois bispos, um polonês e um francês, também morreram durante este período em Dachau (ROYAL, 2001, p. 170).

No campo de concentração de Neue Bremm, na Alemanha, os guardas escarneciam da Paixão, submetendo os padres às mesmas torturas que sofreu Jesus Cristo. Eram enjaulados junto a cães ferozes para o divertimento dos guardas (ROYAL, 2001, p. 183).

Em 1942, o comissário do Reich para a Holanda determinou que alunos judeus e católicos descendentes de judeus somente teriam aula com professores judeus. A Igreja na Holanda protestou sem nenhum efeito. Diante disso, o episcopado holandês emitiu uma carta pastoral que foi lida em todas as igrejas, protestando formalmente contra a medida. A consequência veio no mês de agosto: centenas de católicos não-arianos, entre eles todos os religiosos de origem judaica (cerca de 300) foram presos e deportados para os campos de concentração na Alemanha e Polônia. As instituições católicas de caridade foram extintas e os bens da Igreja foram confiscados na Holanda e Bélgica (BLESSMANN, 2003, p. 45). Na França, em fevereiro de 1944, 162 padres franceses foram presos pela Gestapo, dos quais 123 foram fuzilados ou guilhotinados (BLESSMANN, 2003, p. 31). Mas nada se compara à perseguição que devastou a Igreja Católica na Polônia. Delumeau (2007) retrata a perseguição assim que a Polônia foi invadida:

Ao longo do memorável mês de setembro de 1939, aproximadamente 300 mil civis morreram na Polônia. Somente em Varsóvia, onde 120 mil imóveis foram destruídos e dez mil outros fortemente atingidos, sessenta mil civis sucumbiram; o número de feridos chegou a mais de cem mil. [...] Ao mesmo tempo os santuários eram atacados, as cruzes eram quebradas, destruíam-se as imagens e as estátuas de santos, profanava-se o Santo Sacramento, os tanques derrubavam as pequenas capelas que estavam na beira das estradas. Com uma obstinação especial, destruíam-se os belos monumentos do Sagrado Coração e as estátuas de Nossa Senhora nas praças públicas. A polícia disfarçada com roupas litúrgicas organizava publicamente orgias sacrílegas, durante as quais se dançava, violentavam-se jovens, matavam-se judeus, atirava-se em estátuas de santos, quebravam-se imagens do Salvador. [...] E então. [...] a liquidação inexorável da Igreja Católica começou [...] (DELUMEAU, 2007, p. 38).

Somente no famoso campo de concentração de Auschwitz, morreram 20% do total de padres poloneses e milhares de religiosos e religiosas, sendo impossível determinar, ainda que aproximado, o número de leigos mortos no campo. Os padres eram o segundo grupo mais odiado do campo e oficiais afirmavam que fariam o possível para que eles não vivessem mais do que um mês em Auschwitz (ROYAL, 2001, p. 241). Ainda de acordo com Royal (2001, p. 261), apenas a diocese de Wlocnawek perdeu 220 padres, ou seja, 52% do clero diocesano. Frades e freiras eram abatidos a tiro por recusarem a abandonar igrejas e conventos.

Outros foram torturados, submetidos a experiências médicas, gaseados, enforcados, estrangulados, mortos na guilhotina ou por outros meios, simplesmente por se recusarem a cometer blasfêmias ou a renunciar às suas vocações religiosas (ROYAL, 2001, p. 262).

Segundo Blet, apud. Blessmann (2003, p. 31), durante a ocupação nazista foram assassinados pelo fato de serem católicos, quatro bispos, 1996 padres, 238 religiosos, 113 seminaristas e cerca de 300 religiosas.

É impossível determinar o número exato de vítimas da perseguição religiosa dos nazistas. Fora os números de membros do clero ou religiosos assassinados, talvez jamais se saiba com certeza quantos leigos foram mortos por causa de sua fé, principalmente quando estamos diante de um regime que elimina tudo o que lhe faz oposição. Mais hábil que as outras perseguições estatais, o Reich tentou eliminar a Igreja Católica acusando-a de ser inimiga do povo alemão, desobediente ao Estado e subserviente às potências estrangeiras, como o Vaticano ou a Inglaterra, tentando enquadrar suas vítimas em motivos puramente políticos. Nos territórios ocupados, as tropas nazistas puderam agir com maior violência sobre os católicos, já que estes eram simplesmente taxados como inimigos de guerra, ainda que fosse apenas um grupo de freiras, como as onze irmãs da Sagrada Família de Nazaré, assassinadas na fronteira da Belarus com a Polônia (ROYAL, 2001, p. 263).


19 de jan. de 2012

Perseguição aos católicos: URSS e países do Leste europeu

Esta é a segunda parte do meu artigo sobre a perseguição aos católicos na Europa durante a primeira metade do século XX. Leia a primeira parte que contém o Resumo e a Introdução

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A Revolução Francesa instaurou na Europa o modelo republicano como forma de governo. Em seu bojo, trazia o anticlericalismo clássico e o laicismo radical gestados, sobretudo, nas lojas maçônicas espalhadas por todo o continente. Mesmo em regimes democráticos e republicanos, como na França, a Igreja se viu privada de seus bens. Por exemplo, desde as leis anticlericais de 1905, a Igreja na França tem a custódia, mas não a propriedade de seus templos. Em Portugal, com o advento da república em 1910, leis anticlericais e anticatólicas foram postas em prática com o confisco das escolas confessionais, a expulsão de ordens religiosas e a proibição do uso de trajes clericais em público. Porém, os multiformes ideários maçônicos seriam apenas uma pequena amostra do que poderia ser feito à Igreja se uma verdadeira doutrina com sua forma antirreligiosa de ser e agir bem definida chegasse a ser posta em prática. E este momento chegou em 1917 com a Revolução Russa e a implantação do marxismo naquela que viria a ser conhecida como a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

A oposição à religião faz parte da essência filosófica de Karl Marx. Conforme o filósofo alemão, para que o homem – medida de tudo – se liberte, é necessário, entre outras coisas, que não se prenda em dogmas e instituições eclesiásticas. Como parte da corrente do humanismo ateu, considera Deus um entrave para o livre desenvolvimento humano. Para isso, importa que desapareça a religião, a Igreja e mesmo a idéia de Deus. No conceito teleológico marxista, a religião naturalmente desapareceria com o regime capitalista, posto que é uma superestrutura deste. O movimento dialético da História se incumbiria de eliminá-la. Porém, como ainda se encontra em fase de transição para esta sociedade comunista onde o capitalismo e suas superestruturas desapareceriam, faz-se necessário uma guerra ininterrupta contra a religião e a Igreja Católica é eleita como o principal inimigo a se abater. Serão usadas as tradicionais armas do laicismo, mas se superará em métodos mais sofisticados e violentos (ROPS, 2006, pp. 39-40). É o que verificamos no primeiro país onde o marxismo se saiu vitorioso.

Apesar de a grande maioria dos cidadãos da URSS pertencer à Igreja Ortodoxa Russa, havia uma parcela não pouco significativa de católicos latinos e greco-católicos nos territórios da Rússia, Lituânia e Ucrânia. Desde o tempo dos czares, os católicos nunca tiveram plena liberdade de culto na Rússia e em diversas ocasiões foram pressionados a incorporarem-se ao patriarcado de Moscou. A violência do período stalinista levou o grande público a imaginar que as perseguições e expurgos na URSS fossem obras exclusivas de Josef Stálin. Mas, desde os primórdios do regime comunista na URSS, as perseguições aos crentes de diversas religiões se fizeram presentes, sendo mais duras contra os católicos acusados simplesmente de servirem a uma “força” estrangeira: o Vaticano.

Lênin inventou os métodos de perseguição religiosa usados por todos os regimes totalitários do século XX. Declarava Lênin, apud. Royal (2001, p. 64) sobre a religião:

A religião é o ópio do povo. Esta afirmação de Marx é a pedra de toque de toda a visão marxista do mundo no que toca ao problema da religião, todas as religiões contemporâneas, todas as igrejas e todos os tipos de organizações religiosas serão sempre vistos pelo marxismo como órgãos da reação burguesa que servem para defender a exploração e a neutralização da classe trabalhadora [...] É preciso saber como lutar contra a religião [...] Essa batalha tem que ser entendida em ligação com a práxis concreta de um movimento de classes dirigido para a eliminação das raízes sociais da religião.

Logo após a Revolução, no início de 1918, os fundos das igrejas e mosteiros foram confiscados. Templos e seminários foram nacionalizados e entregues aos sovietes locais e a Igreja passou a ser proibida de manter alguma propriedade. Publicações e bibliotecas católicas seriam dirigidas por comissários do povo. Escolas católicas passaram ao Estado ou foram fechadas. Só em São Petersburgo, 20 mil crianças católicas das 11 escolas primárias ligadas à Igreja ficaram privadas de receber educação religiosa. Um grave ataque contra a liberdade de consciência (ROYAL, 2001, p. 67).

Na grande fome de 1921-1922 que vitimou milhões de soviéticos, Lênin aproveitou a ocasião para levar a cabo o confisco dos bens da Igreja. A Santa Sé não poupou recursos humanos e financeiros, chegando a alimentar meio milhão de pessoas diariamente na URSS. Se o argumento do confisco era o de alimentar a população, o Vaticano propôs comprar os vasos sagrados e demais utensílios religiosos confiscados. Tudo em vão. A fome era somente mais um pretexto para dar continuidade à limpeza religiosa. Lênin expulsou os religiosos que alimentavam a população e ordenou a execução de membros do clero que protestasse contra o confisco, solicitando relatórios diários sobre o número de sacerdotes executados (ROYAL, 2001, p. 65).

No final de 1922, todas as igrejas de Petrogrado foram fechadas pelo exército e todo o clero, incluindo o bispo, foram presos e enviados para Moscou. Por toda a URSS, bispos e sacerdotes, acusados de agir em favor da Polônia ou do Vaticano, foram presos e enviados aos campos de trabalho forçado. Outros, brutalmente assassinados. Católicos de origem polonesa e rutenos da Ucrânia foram massacrados, outros enterrados vivos. Na costa do mar Negro, uma população católica descendente de alemães composta por 200 mil pessoas, foi deportada para a Sibéria e Cazaquistão. Mesmo com a precária situação econômica, teve início uma maciça propaganda ateísta que consumia grandes somas de dinheiro para desacreditar a Igreja com piadas grosseiras e falsas acusações contra o clero com o intuito de apresentar a Igreja como a responsável pelos males e que, portanto, deveria ser odiada. Acusados de conspiração ou atos de terrorismo (o que correspondia a ensinar o catecismo, por exemplo) as condenações iam da prisão perpétua à pena de morte. Igrejas, hóstias e objetos religiosos foram profanados. Na Ucrânia, das 68 igrejas, 52 tiveram seus objetos e fundos roubados pelo Estado (ROYAL, 2001, pp. 68-72).

Já em 1923, o número de padres católicos na Rússia caiu de 245 para setenta. Entre 1917 e 1925, duzentos mil católicos desapareceram sem deixar rastro. Em Moscou e São Petersburgo, centenas de leigos, religiosos e sacerdotes, incluindo toda a comunidade de freiras dominicanas foram presos e até hoje não se conhece seu destino final. Em 1924, não havia sequer um único bispo católico em liberdade na URSS (ROYAL, 2001, p. 73). Dez anos mais tarde, das 3300 igrejas e duas mil capelas católicas existentes na Rússia pré-revolucionária, ficaram abertas apenas duas que eram usadas pelo governo para demonstrar á comunidade internacional a liberdade religiosa existente na URSS.

Durante o regime de Stálin, o ditador levou a diante a limpeza religiosa no país. Cooptou a grande maioria da Igreja Ortodoxa Russa, principalmente após seu ato nacionalista contra os nazistas em 1943 e pressionava os católicos a abandonar Roma e aderir à Moscou. A mão de Stálin pesou principalmente sobre a Igreja Católica Grega, na Ucrânia. Em 1929, foi deflagrada uma perseguição aos padres católicos da Ucrânia. No ano seguinte, centenas de leigos e 35 padres foram presos e enviados para as ilhas Solovetski, no mar Branco, um campo de concentração para onde a maioria dos religiosos era enviada para trabalhos forçados.

Os soviéticos queriam que os prisioneiros construíssem um canal entre o mar Branco e o Báltico. Frequentemente, o trabalho consistia em ordens do dia extenuantes, que determinavam o transporte de blocos de gelo ou de neve ou o corte de madeira. A alimentação era tudo menos adequada ao tipo de trabalho e aos rigores do clima. Os barracões onde dormiam estavam de tal maneira sobrelotados que se tornava difícil respirar lá dentro. O sistema tinha sido pensado por forma a vergar lentamente os prisioneiros, com exceção dos mais fortes, extorquindo-lhes a maior quantidade possível de trabalho manual durante 16 horas por dia, sete dias por semana. Em conclusão, tratava-se de uma verdadeira escravatura (ROYAL, 2001, p. 83).

Sacerdotes e freiras eram retratados como grupos fanáticos que planejavam atos terroristas, atentados contra Stálin e o regresso ao capitalismo. Homens e mulheres da Igreja eram presos e torturados com choques elétricos e banhos frios em pleno inverno russo para que delatassem pretensos planos conspiratórios contra o regime. Sacerdotes greco-católicos tinham seus filhos ameaçados de morte. Muitos morreram nestas sessões ou acabaram seus dias num manicômio.

Em 1929, os cultos religiosos foram proibidos até mesmo nos campos de concentração. Os religiosos presos foram proibidos de usar o hábito e fornecer qualquer auxílio espiritual aos outros presos. Mas o pior ainda estava por vir. Em 1937, Stálin determinou que os ministros religiosos fossem presos “para que sejam imediatamente executados os elementos mais perniciosos através de medidas administrativas adotadas nas sessões das troikas” (WENGER apud. ROYAL, 2001, p. 63) e a medida também foi estendida aos que já estavam presos. Nicolai Yezhov, ministro de assuntos internos, se encarregou de aplicar tal determinação contra homens e mulheres da Igreja em prisões, campos de trabalho forçado, colônias e que já tivessem sido julgados por crimes ou se encontrassem em liberdade depois de cumpridas as penas. Foram rejulgados e a maioria condenada à morte (ROYAL, 2001, pp.63 e 78).

Se a perseguição à Igreja na Ucrânia já era uma realidade desde 1929, onde todos os seminários foram encerrados, os periódicos católicos proibidos de circular e as escolas católicas suprimidas, após a Segunda Guerra a situação se tornou insustentável. Acusados de colaboracionismo com os nazistas – de fato, no princípio, os nazistas foram vistos pelos ucranianos como libertadores do jugo soviético – e de serem agentes da Polônia e do Vaticano, os greco-católicos passaram a ser reprimidos sistematicamente pelo regime soviético, sobretudo na Ucrânia Ocidental, onde o número de católicos era maior.

Em 14 de março de 1945, Georgii Korpov, presidente do Conselho para os Assuntos da Igreja Ortodoxa Russa, apresentou a Stálin a Instrução 58 que propunha liquidar a Igreja Católica Grega na Ucrânia. Utilizando-se de católicos simpatizantes do regime, pressionaria os greco-católicos a unirem-se ao patriarcado de Moscou. A estratégia incluía uma série de propagandas anticatólicas acusando a Igreja Católica de colaborar com os nazistas durante a guerra e com o “império americano” no pós-guerra e, portanto, inimiga do povo ucraniano e promotora de seus males (ROYAL, 2001, pp. 102-103). No mês seguinte, os bispos se recusaram a aderir à Igreja Ortodoxa e foram presos. Somente um bispo ficou em liberdade, Teodor Romzha, que foi assassinado num hospital por uma agente da KGB disfarçada de enfermeira. A prisão era um claro sinal do destino que aguardava clérigos e leigos que recusassem a assimilação. Conforme afirma Royal (2001, p. 104), estes bispos foram condenados a longos anos de prisão. Uns morreram durante sessões de tortura, outros acabaram suas vidas nos campos de concentração.

No ano seguinte, veio o golpe final: a Igreja Católica na Ucrânia era composta por quatro dioceses, oito bispos, 2772 paróquias, 4119 igrejas e capelas, 142 mosteiros e conventos, 2628 padres diocesanos, 164 monges e 773 freiras, 229 seminaristas e mais de quatro milhões de fiéis. Foi simplesmente abolida, posta na ilegalidade. Bispos, padres e leigos que resistiram acabaram em campos de trabalho forçado, mortos pelo cansaço, executados ou exilados (ROYAL, 2001, p. 94).

Como a maioria dos registros das ações contra os católicos na URSS continuam indisponíveis aos pesquisadores é difícil afirmar quantas foram as vítimas da repressão soviética.

O que podemos, contudo, afirmar com segurança, à luz de documentos já disponibilizados, é que 344 clérigos, nos quais se incluem basicamente bispos, padres diocesanos e membros de ordens religiosas, constam dos registros oficiais como “reprimidos”. Só na Ucrânia, mais meio milhão de leigos foi preso ou mandado para o exílio interno, parte dos quais, sem dúvida, exclusivamente por motivos religiosos (ROYAL, 2001, p. 109).

Nos países comunistas do Leste europeu, os católicos eram proibidos de ascender profissionalmente. A vida daqueles que faziam parte da Igreja era obstaculizada nas universidades. As crianças eram desencorajadas a aprender religião desde o ensino primário, posto que a continuação dos estudos universitários podia ser barrada por este motivo. Os católicos formavam uma casta inferior nos países comunistas ocupando os postos de trabalho mais humildes e mal remunerados. Um verdadeiro apartheid.

Após a Segunda Guerra Mundial, o Leste europeu caiu sob o domínio do comunismo e entrou na órbita da URSS. Na Polônia, entre 1945 e 1947, mesmo anterior a perseguição aberta, cerca de duzentos padres mais influentes simplesmente desapareceram (ROYAL, 2001, p. 270). Após as eleições de 1947, o regime comunista passou a tratar a Igreja como era típico, confiscando seus bens, expropriando hospitais e escolas religiosas e proibindo publicações católicas. A propaganda governamental, assim como na Ucrânia, acusava a Igreja de colaborar com os nazistas e o clero, de imoralidades. No ano seguinte, quatrocentos padres estavam encarcerados e um entre eles já havia sido condenado à morte (ROYAL, 2001, p. 270).

Na Hungria, a Igreja Católica sempre esteve próxima ao governo e este relacionamento manteve-se com o regime comunista. Contra este improvável casamento, levantou-se o cardeal primaz da Hungria, Joszef Mindszenty, que acabou preso com outros seiscentos padres. Torturados por quarenta dias ininterruptos e ameaçados de deportação para trabalhos forçados na Sibéria, capitularam. Sendo assim, a Igreja perdeu sua força na Hungria tendo como resultado o confisco de todas as escolas religiosas e o banimento de todas as ordens religiosas húngaras fazendo com que dois mil religiosos tentassem fugir do país. Muitos foram presos e mortos (ROYAL, 2001, p. 273).

Em 1950, o governo da Tchecoslováquia eliminou as ordens religiosas transformando os mosteiros e conventos em campos de concentração onde os próprios religiosos eram mantidos presos e condenados a trabalhos forçados. Setenta e cinco por cento dos quinze mil religiosos, metade dos sete mil padres e milhares de leigos foi condenada a trabalhos forçados em regime de escravidão e enviados às minas e pedreiras do país (ROYAL, 2001, p. 277).

Na Albânia, o regime comunista aplicou os métodos de perseguição tradicional: fechou jornais católicos, confiscou bens da Igreja, nacionalizou escolas, creches e hospitais. Padres e leigos que protestavam eram presos e expulsos do país se fossem estrangeiros. A Ação Católica foi desmantelada. O governo tentou criar uma igreja nacional pressionando o clero a abandonar a comunhão com Roma. A hierarquia católica recusou com veemência. As conseqüências da recusa não demoraram a vir: padres e religiosos estrangeiros foram expulsos; em 1945, a Companhia de Jesus foi considerada ilegal; em 1947, foi a vez dos franciscanos serem banidos do país. Membros do clero foram presos, torturados e condenados à morte. Certa vez, vinte clérigos foram fuzilados de uma só vez. As execuções eram transmitidas pela rádio. Quem escapasse da morte era condenado a trabalhos forçados (ROYAL, 2001, p. 293). Em 1948, havia somente um bispo vivo e livre na Albânia. Mas não era apenas o clero que sofria todas estas atrocidades. Milhares de leigos que não se declararam publicamente contra o clero foram presos e torturados. Não se sabe o número exato de leigos executados, mas as penas variavam entre o fuzilamento e a fogueira. Em 1949, o confisco das propriedades da Igreja foi levado a cabo. Templos eram convertidos em prédios públicos. A catedral de Shkodra tornou-se um ginásio de basquete. Freiras foram expulsas dos conventos e proibidas de usarem o hábito. O governo exigiu que as instituições religiosas apresentassem suas constituições para que fossem oficializadas. Todas foram aprovadas, menos as dos católicos (ROYAL, 2001, p. 295).

Tal como todos os outros países comunistas, a Albânia declarou que a família era “reacionária” e tentou fazer com que as crianças informassem as entidades oficiais quando os pais lhes dessem instrução religiosa em casa. Os pais foram proibidos de dar aos filhos nomes “religiosos”. Uma família que rezasse o terço em casa podia apanhar cinco anos de prisão; ensinar o sinal da cruz a uma criança podia implicar um castigo semelhante. A mera posse de literatura religiosa podia levar à pena de morte. [...] Dos 156 padres existentes antes do início da perseguição, 65 foram martirizados e 64 morreram durante ou após o encarceramento (ROYAL, 2001, p. 298).

A Lituânia sempre foi conhecida pelo fervor religioso de sua população. A grande maioria do povo lituano era formada por católicos quando começaram as perseguições na década de 1940. O sentimento católico era um obstáculo ao domínio da URSS. Mais de um milhão de lituanos foram enviados aos campos de concentração soviéticos. A perseguição na Lituânia seguiu o conhecido roteiro: confisco de escolas e instituições católicas e fechamento das publicações da Igreja; o casamento religioso foi considerado ilegal e os feriados religiosos abolidos. Durante apenas um ano, “todos os padres do país experimentaram a detenção, a prisão ou os interrogatórios” (ROYAL, 2001, p. 307). Cerca de 150 dentre eles foram torturados para que abandonassem a Igreja. Vários morreram. Após a Segunda Guerra, a Igreja na Lituânia viveu um curto período de paz. Porém, a perseguição retomou sua força. Sacerdotes eram proibidos de dar assistência religiosa a prisioneiros e enfermos. Os professores eram obrigados a ensinar o ateísmo. Os seminários foram encerrados. O governo proibiu as celebrações religiosas e impôs impostos abusivos sobre os edifícios da Igreja. Todos os bispos, os superiores de ordens religiosas e grande número de padres foram presos (ROYAL, 2001, p. 309). Em setembro de 1947, os lituanos escreveram clandestinamente uma carta ao papa Pio XII denunciando as atrocidades contra o povo.

Entre os abusos especificamente religiosos, a carta refere à pressão para criar uma igreja nacional separada de Roma, a prisão sumária e o desaparecimento de padres que se recusaram a tornarem-se informantes do regime, a vigilância generalizada das atividades religiosas, a supressão de associações católicas, bem como da imprensa, das escolas, dos seminários, dos hospitais e de obras de caridade, entre muitas outras coisas. Os detidos eram submetidos a torturas e muitos deles enlouqueceram, a comida eram-lhes tirada e o sono interrompido; a sentença mais “simpática” correspondia a dez anos na Sibéria. Aqueles que sobreviviam à viagem de um mês praticamente sem água nem alimentos não duravam, regra geral, mais de cinco anos. Por meio destes meios diretos e indiretos, mas sempre cuidadosamente ocultados, os soviéticos conseguiram ver-se livres de muitos clérigos e leigos sem darem origem a célebres mártires (ROYAL, 2001, p. 309).

Em 1948, o Partido Comunista da Romênia assume o poder e impõe o regime marxista à nação. Havia um milhão e meio de católicos no país. No final do regime, restarão apenas 500 mil. A Igreja Católica na Romênia era formada por católicos de rito latino e de rito grego. O governo cooptou a Igreja Ortodoxa Romena e esta, sob pressão, convocou um sínodo para declarar que os católicos gregos estavam integrados à ela. Assim, “em 1948, a Igreja Católica Grega foi liquidada, as milhares de igrejas que detinham foram confiscadas e convertidas para o uso dos ortodoxos” (ROYAL, 2001, p. 316). Havia seis bispos greco-católicos na Romênia e todos foram presos acusados de traírem à nação por estarem a serviço de uma força estrangeira, o Vaticano. Sofriam pressão para aderirem à Igreja Ortodoxa. Todos rejeitaram e morreram na prisão. Seiscentos padres foram presos; metade deles morreu na prisão. Nos presídios, eram torturados para que se “convertessem” à ortodoxia. A inventividade das torturas era enorme: ia dos tradicionais choques elétricos e queimaduras a estadias em esgotos infestados por ratazanas. Um quarto dos sacerdotes cedeu, passando à Igreja Ortodoxa.

Não foi apenas a Igreja Católica Grega que sofreu. A Igreja Católica de rito latino era vista como “o único obstáculo à democracia na Romênia”, como afirmou o secretário-geral do Partido Comunista, Gheorghiu-Dej, “e que o governo não permitiria que os cidadãos católicos obedecessem às ordens de líderes estrangeiros, como o Papa, que agia a serviço dos Estados Unidos” (ROYAL, 2001, p. 321). Vários sacerdotes desapareceram e foram assassinados. Segundo Royal (2001, p. 322), “em junho de 1949, não havia nenhum bispo católico romano em atividade na Romênia, quase todas as igrejas estavam fechadas, os católicos romanos tinham uma marca especial no bilhete de identidade”. Dezenas de paróquias estavam ocupadas por milícias.

Apesar da violência que em nada deixa a desejar quando comparada a que sofreram outros grupos religiosos ou raciais, o número de vítimas nas perseguições aos católicos na URSS e nos países comunistas do Leste europeu ainda são desconhecidos. A historiografia pouco se ocupa em pesquisar e relatar o sofrimento imposto aos católicos nos países onde os regimes marxistas triunfaram. A memória dos inúmeros roubos, expropriações, abusos, torturas e assassinatos é mantida, sobretudo, por historiadores que tenham alguma ligação com a Igreja Católica.