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28 de out. de 2015

O exercício da misericórdia é a missão da Igreja

A Igreja é como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todas as qualidades. No julgamento, os bons serão guardados e os maus, lançados fora. A Igreja é como a festa de núpcias onde todos são convidados, mas aquele que não traz o traje nupcial será posto para fora pelo Senhor. A tentação de formar uma Igreja de puros sempre existiu, desde os priscilianos e os donatistas passando pelos cátaros e jansenistas, e toda tentativa neste sentido, como se pode observar, terminou numa heresia. 

Nossa mãe, a Igreja, é santa, mas traz em seu seio, enquanto milita na terra, nós, seus filhos, sempre necessitados de conversão e de purificação porque somos pecadores. Ela nos oferece nos sacramentos os meios dispensados por Cristo para nossa santificação. Só os "puros" podem escandalizar -se com a presença de pecadores na Igreja. Os discípulos dAquele que comia e bebia com os pecadores não deveriam se assustar. É junto à Igreja, o Cristo estendido na História, que nós, pecadores, encontramos e seguimos o caminho da salvação, segurando firme naquela mão misericordiosa que Deus nos oferece, que é o próprio Senhor Jesus. Quanto mais avançamos no caminho da perfeição, quanto mais nos aproximamos da luz de Cristo, melhor vemos nossos defeitos, melhor vislumbramos as manchas do pecado nos recônditos da alma, mais nos sentimos indignos e necessitados da graça e mais podemos nos compadecer daqueles irmãos mais afastados de Deus. É reconhecendo as nossas misérias que podemos usar a misericórdia para medir o próximo, tão necessitado de Deus salvador quanto nós. Do contrário, acabamos tomando a atitude do fariseu diante do publicano ou a do filho mais velho, irmão do pródigo. 

A Igreja, sempre santa e imaculada, não teme tocar os impuros, como Nosso Senhor não temeu tocar o leproso. Este toque purifica. Este toque consiste no apelo à conversão, no anúncio do Evangelho, no despertar das consciências relativistas amortecidas pela amoralidade, no iluminar a vida para que, tocados pela graça, reconheçamos nossos pecados e os deixemos na pia batismal ou no confessionário. A misericórdia e o amor não permitem falsear ou mitigar o mal. Se Jesus, o médico dos médicos, veio para os doentes e não para os sãos, é preciso mostrar, como Ele mostrou sempre com caridade, a gravidade da doença e os tratamentos adequados, ainda que sejam extremamente dolorosos. Não é verdadeiramente misericordioso quem ataca os sintomas usando um bálsamo para aliviar a dor - para usar uma expressão de Santa Catarina de Sena - e não vai a fundo no mal para extirpá-lo. Quem age assim não leva a salvação, ao contrário, condena o pecador faltando-lhe com a verdade. 

Portanto, a missão da Igreja é sair ao encontro de todos e receber de portas abertas a todos, anunciando a Boa Nova de Nosso Senhor Jesus Cristo, caminho, verdade e vida, sem isolar-se deste mundo corrompido, mas sendo fermento na massa, luz do mundo e sal da terra.



27 de abr. de 2014

Oscar Schmidt adorou o Papa Francisco ao ajoelhar-se diante dele? A Bíblia responde.

É coisa antiga, mas só vi agora. Quando o Santo Padre esteve no Brasil por ocasião da JMJ, Oscar Schmidt encontrou-se com ele e - como deve ser - ajoelhou-se diante do Papa. Isto eu vi. O que eu não tinha visto era a acusação (velhíssima, por sinal) de que o ex-jogador de basquete tinha "adorado" o Papa. Acusação feita por aqueles que julgam - e gabam-se de - conhecer a Bíblia de trás pra frente. Será que ajoelhar-se, prostrar-se diante de alguém é adorá-lo? 

Só vou dar um exemplo porque a hora já vai adiantada e eu estou com sono. Em diversas passagens da Bíblia, aparecem pessoas prostrando-se diante de outras pessoas em sinal, por diversos motivos, de reverência e respeito. Vamos a um trecho que relata o reencontro de Jacó com seu irmão Esaú:

"E ele, passando adiante, prostrou-se até a terra sete vezes antes de se aproximar do seu irmão." (Gênesis 33,3) 

Na Septuaginta (versão grega) temos: 

αὐτὸς δὲ προῆλθεν ἔμπροσθεν αὐτῶν καὶ προσεκύνησεν ἐπὶ τὴν γῆν ἑπτάκις ἕως τοῦ ἐγγίσαι τοῦ ἀδελφοῦ αὐτοῦ

O verbo "prostrar" é traduzido a partir do verbo grego προσκυνέω (pronuncia-se proskynós) que significa reverenciar, adorar. Não me parece que Jacó adorou seu irmão como se adora a Deus. Na mesma cena, as mulheres de Jacó, seus filhos e servas também "adoram" Esaú. 

A tradução latina (Vulgata) é ainda mais descarada: 

Et ipse prægrediens adoravit pronus in terram septies donec adpropinquaret frater ejus.

Mas alguém poderia objetar: "Ah, mas o Antigo Testamento foi escrito em hebraico, não em grego, muito menos em latim!". Pois temos o hebraico também: 

והוא עבר לפניהם וישתחו ארצה שבע פעמים עד גשתו עד אחיו

(וישתחו = adorou) 

Com efeito, o verbo προσκυνέω também é usado quando se trata da adoração exclusiva a Deus, como nesta passagem: 

"Samuel voltou, pois, com o rei, e este adorou o Senhor." (I Samuel 15, 31)

Na Septuaginta: 

καὶ ἀνέστρεψεν Σαμουηλ ὀπίσω Σαουλ καὶ προσεκύνησεν τῷ κυρίῳ

Na Vulgata:

Reversus ergo Samuhel secutus est Saulem et adoravit Saul Dominum

No hebraico:

וישב שמואל אחרי שאול וישתחו שאול ליהוה

(וישתחו = adorou)

Portanto, a Bíblia (em sua língua original e nas mais antigas versões grega e latina) não tem palavras distintas para o ato de adorar a Deus e para o de reverenciar alguém. Se a própria Bíblia - e não podemos negligenciá-la - traz o mesmo termo sem que haja nenhuma dúvida ou confusão relativas à diferença entre a adoração devida somente a Deus e a reverência profunda expressa pelo corpo no ato de prostrar-se, por que acusar o nosso querido Oscar - e a tantos católicos - de idolatria quando se reverencia através da expressão corporal (prostrando-se ou ajoelhando-se) a quem merece tal reverência, seja ele um sucessor dos apóstolos ou um santo? Quem acusa um católico por isso está acusando a própria Bíblia.


12 de fev. de 2014

O trabalho pró-vida de Elba Ramalho, as crianças indesejadas de Marília Gabriela e a cultura do descarte

Estava vendo a entrevista que a Elba Ramalho concedeu à Marília Gabriela No domingo retrasado. Me impressionou o belo trabalho que a cantora faz em prol da vida, convencendo meninas a não matarem seus filhos no ventre. E me impressionou também o argumento da Gabi em defesa do aborto: o fato de a criança ser indesejada justificaria o aborto. Se todos os argumentos em defesa do aborto são inconcebíveis, este é um absurdo. 

Para se ter uma ideia disso, basta abranger a "classe dos indesejados". Já houve quem tenha sido considerado indesejado pela cor da pele, pela etnia ou pela religião. Está lá nos livros de História e na memória de tantas pessoas os horrores do nazismo e do comunismo que não me deixam mentir. Também poderíamos pensar que, para muitos, os pobres seriam indesejados. Moradores de rua e mendigos são indesejados para alguns e aqueles que os queimam vivos estariam em seu pleno direito. Pais podem se tornar indesejados e as "Suzanas von Richthoffen" não fariam mais do que tirar uma pedra do sapato. Os idosos podem ser indesejados, um verdadeiro peso morto para a família e para a sociedade. Os doentes podem ser indesejados. Não é por acaso que a eutanásia ronda as legislações de tantos países. 

Enfim, o que não faltariam ao mundo são classes de pessoas indesejadas. Como bem diz o Papa Francisco, vivemos em plena cultura do descarte. As pessoas são descartadas conforme não servem ou não são mais desejáveis. O critério do desejo não pode servir para abalizar decisões individuais, coletivas ou governamentais. A Elba Ramalho, diante do argumento da entrevistadora, citou o nazismo. Marília Gabriela replicou que uma coisa era diferente da outra. Mas a cantora tem razão, com a diferença de que o nazismo era menos democrático quando definia seus indesejados.


7 de nov. de 2013

A Síria e o milagre do Papa Francisco

No dia 21 de agosto, um ataque com armas químicas matou mais de 1400 pessoas nos arredores de Damasco. Apesar de as evidências levarem ao governo sírio, não ficou comprovado que este tenha sido o autor do cruel ataque. Os países se movimentam. Fala-se de intervenção na guerra civil síria. Os EUA encabeçam as ameaças, seguidos pela França, Inglaterra e pela OTAN. Até mesmo a Liga Árabe se posiciona favorável a uma intervenção militar no país. China, Rússia e Irã dizem que defenderão sua aliada. O cheiro de guerra em proporções mundiais paira no ar. Nada parece deter um ataque iminente. Exercícios militares se iniciam no Mar Vermelho e no Mediterrâneo. Os efetivos militares norte-americanos estacionados na região são mobilizados. Uma intervenção semelhante a ocorrida na Líbia parece se desenhar. O presidente Bashar al-Assad recusa qualquer negociação e diz que está pronto para defender a Síria. O mundo espera o momento que o primeiro tomahawk lance aos ares uma instalação militar ou governamental damascena. 

Então, levanta-se em Roma o Homem de Branco. Ele não tem efetivos militares a não ser uma centena de mercenários suíços que o protegem. Ele não toma partido. Ele convoca o mundo para um dia de jejum e oração pela paz no mundo, especialmente pela Síria. Convoca todos: católicos e não-católicos e até não-crentes. Pede que todos participe de alguma forma. Obedientes ao seu apelo, no dia 7 de Setembro, mais de 100 mil pessoas se reúnem na Praça de São Pedro e, com milhares pelo mundo, juntos com o Papa, ajoelham-se - inclusive muçulmanos - diante do Santíssimo Sacramento pedindo paz no mundo e que Deus toque as consciências dos que o governam. 

Aos materialistas e descrentes, tudo aquilo é uma perda de tempo e prova da ineficácia da religião. Mas algo surpreendente acontece. Contra toda a expectativa, constrói-se um acordo. Não se procura mais culpados pelo ataque (até porque não foi possível identificá-los), nem pretende-se piorar a situação na região. A Rússia e os EUA propõem que a Síria permita que inspetores da Opaq investigue o ataque e o seu arsenal químico. Al-Assad permite. O segundo passo é que a Síria elimine suas armas químicas. Mais uma vez, o presidente sírio cede. Os inspetores da Opaq terminam a operação no final de outubro. A Síria não tem mais armas químicas. A Opaq é laureada com o Prêmio Nobel da Paz. 

Deus é o Senhor da História. Para quem crê, a conexão entre o dia de oração e jejum convocado pelo Papa e o desfecho imprevisível para o incidente químico na Síria é evidente. Deus não necessita fazer milagres estrondosos, mas apenas tocar suavemente, até de forma humanamente imperceptível os corações. Foi pelas causas segundas, iluminando os homens da diplomacia - inclusive a do Vaticano. Lembremos que o Papa Francisco enviou uma carta ao presidente russo Vladimir Putin por ocasião do encontro do G20, pedindo que propusesse aos líderes mundiais uma solução pacífica para o conflito - que encontrou-se uma solução. A guerra civil na Síria e os conflitos em tantas partes do mundo ainda permanecem. Continuemos unidos ao Papa Francisco, o homem da paz, implorando ao Príncipe da Paz para que todos eles cessem.

29 de set. de 2013

A relação da mídia com o Papa Francisco: uma interpretação errônea

Conhecendo um pouquinho de História da Igreja, vejo a relação da mídia e de alguns grupos católicos com o Papa Francisco semelhante a que tiveram com Pio IX e Leão XIII. 

Com sua eleição, Pio IX foi louvado pelos liberais como um dos seus. A mídia e os oradores liberais louvavam o Papa que tinha dado abrigo ao revolucionário Luis Napoleão quando bispo e que modernizava os Estados Pontifícios com a iluminação a gás e ferrovias. Em poucos anos (só dois, para ser exato) viram que estavam enganados, Pio IX era extremamente ortodoxo (basta lembrar da Quanta Cura e do Syllabus lançados mais tarde) e os gritos de "hosana" passaram a ser de "crucifica-o". 

Com Leão XIII ocorreu a mesma coisa. Sua encíclica Rerum Novarum que sistematizou a Doutrina Social da Igreja foi acusada por uns de ser socialista e por outros de ser liberal. Seu reconhecimento dos regimes republicanos e democráticos, vistos até então como inconciliáveis com a fé católica, e, por este motivo, sua reaproximação com a França republicana fez com que piedosas senhoras de Paris organizassem novenas pedindo para, digamos, que Deus chamasse para junto de si o Santo Padre.



15 de set. de 2013

A Igreja Católica e a dignidade das crianças: a pedofilia avança quando a sociedade se afasta do cristianismo

O tema da pedofilia voltou à cena, nos últimos dias, em dois fatos que correram o planeta: a morte de uma menina de oito anos no Iêmen, vítima de uma hemorragia provocada durante o sexo com seu marido de quarenta anos e a declaração do biólogo e ateu militante Richard Dawkins, afirmando que uma “leve pedofilia” não faz mal a ninguém.

No primeiro caso, Rawan foi vendida pelos seus pais ao marido e morreu de hemorragia durante a “noite da penetração”. Segundo a agência Zenit, “um relatório da Human Rights Watch de dezembro de 2011 diz que na terra da rainha de Sabá, 14% das meninas são dadas em casamento antes dos 15 anos, enquanto que o 52% antes dos 18”. Ainda que os costumes variem de região para região, o casamento de crianças com homens mais velhos é algo bastante comum no mundo islâmico e a legislação de vários países, como a do Iêmen, protege tais costumes. Estes costumes estão arraigados no islamismo, ou antes, na cultura árabe pré-islâmica. O fundador do Islã, Maomé, casou-se com Aisha quando esta tinha seis anos de idade e o casamento foi consumado aos nove. Portanto, se era um costume pré-islâmico, a religião maometana nada fez para eliminá-lo. Na trilogia escrita por Jean P. Sasson, que tomou o depoimento anônimo de uma princesa da família Al-Saud que governa a Arábia Saudita, é relatado como muitos árabes ricos compram meninas de famílias pobres para transar com elas e descartá-las depois.  

Mas não é só no mundo islâmico que o casamento de crianças é comum. Na Índia, apesar de proibido pela constituição do país, a prática tradicional continua bastante frequente. Famílias obrigam meninas que ainda não atingiram a puberdade a se casarem com homens muito mais velhos. Em muitas regiões da África subsaariana, a situação também pouco mudou. Crianças meninas são entregues a homens adultos. 

No segundo caso, o renomado ateu militante Richard Dawkins declarou em entrevista para à revista Times, ao contar um caso ocorrido em sua infância, quando um professor colocou-o no colo e enfiou a mão por dentro de seu short: “Estou muito consciente de que não se pode condenar as pessoas de uma época passada pelos padrões da nossa. Assim como nós não podemos olhar para os séculos 18 e 19 e condenar as pessoas por racismo, da mesma forma como condenar uma pessoa por racismo nos dias de hoje. Eu olho para as décadas da minha infância e vejo o que aconteceu como leve pedofilia, e não posso condená-lo pelos mesmos padrões que eu, ou qualquer um, teria hoje". Este é o terrível efeito do relativismo moral levado ao extremo pelo ateísmo militante para poder se opor à moralidade de cunho religioso, sobretudo cristã. A ideia de que a moral muda conforme as culturas e a época leva a aceitação de atos abjetos como a pedofilia ou qualquer tipo de parafilia e práticas sexuais. 

Neste ano, a Justiça da Holanda reconheceu o Partido da Caridade, da Liberdade e da Diversidade, que defende publicamente a pedofilia, alegando que, desde que consensual, não há problema algum na prática sexual de “menores” com adultos. A sociedade atual tende à aceitação da pedofilia. O pedófilo é um revolucionário desde o Marquês de Sade. Durante todo o século passado, com o advento da psicanálise freudiana e a revolução sexual, há defensores do direito do prazer sexual das crianças. Lembremos que o pai da sexologia, o norte-americano Alfred Kinsey, realizou inúmeras “experiências” das mais variadas práticas sexuais, inclusive com crianças, apesar de ele alegar que não as praticou, mas colheu informações durante o depoimento de um pedófilo. 

Tudo isto é fruto do processo de descristianização do Ocidente. Foi na Civilização Ocidental, construída pela Igreja Católica, que a prática da pedofilia foi condenada. Já nos tempos bárbaros, a Igreja proibiu o casamento de crianças. Foi a Igreja que promoveu a proteção das crianças – assim como das mulheres – proclamando sua inviolável dignidade. Como é perceptível, a pedofilia é um costume em algumas civilizações, um aspecto cultural, que não choca. Há vozes dissidentes nestes países, como na Índia e em países muçulmanos, mas é inegável que consideram a pedofilia chocante porque foram influenciados pelo senso moral do Ocidente. Com o afã de opor toda e qualquer prática sexual à moral católica relativa ao sexo, admiti-se qualquer perversão. Porém, pergunta-se, se a Igreja Católica foi quem baniu a pedofilia, como se explica os casos de padres pedófilos? Pois bem. A pedofilia praticada por um padre é um dos piores crimes e pecados que se possa cometer. É pior do que a pedofilia praticada por qualquer outra pessoa que não tenha recebido as ordens sacras. É pelos sacerdotes que Cristo age na Igreja. É na pessoa de Cristo que os sacerdotes administram os sacramentos. Portanto, o padre deve encarnar o Cristo, e quando praticam monstruosidades como estas, além de um pecado sexual, praticam um sacrilégio. Devem ser punidos com rigor. Mas, os padres são homens de seu tempo. Sempre foi assim. Os pedófilos entraram na Igreja num período de grandes mudanças de comportamento. Além de distúrbios que possam ter, estes homens foram influenciados por uma sociedade moralmente libertina e, inclusive, por certas doutrinas morais que contaminaram o próprio ensino nos seminários, que pregavam uma visão liberal da sexualidade. A esmagadora maioria destes padres foi ordenada nas décadas de 1960 e 1970. O período é sintomático. Todavia, graças a Deus, os casos são relativamente poucos se comparados à totalidade dos sacerdotes. 

É injusto, portanto, querer por na conta da Igreja Católica os casos ou causas da pedofilia, como se sua moral, disciplina e o celibato favorecessem o aparecimento do pedófilo. Pelo contrário. É a Igreja Católica que condenou a prática sexual com crianças. Foi a Igreja Católica que baniu a pedofilia – mesmo a legal através do casamento – do Ocidente. Se os casos de pedofilia são cada vez mais alarmantes em nossa sociedade é porque esta se afasta a passos largos dos ensinamentos da Igreja. 



23 de ago. de 2013

JMJ Rio 2013: lições para toda a vida

Na celebração da Acolhida do Papa em Copacabana, Francisco citou em sua homilia a passagem da transfiguração de Jesus. Realmente, foi bastante oportuna a escolha deste relato evangélico. Creio que era exatamente como no Tabor que a grande maioria dos peregrinos se sentia na JMJ.

Portanto, é a partir da reflexão deste trecho dos evangelhos que começo a descrever minhas impressões sobre a Jornada Mundial da Juventude ocorrida no Rio de Janeiro neste ano de 2013. A minha primeira forte experiência foi a notória catolicidade da Igreja. Estavam reunidos no Rio, católicos de 178 países diferentes, praticamente de todo o planeta. A variedade de nações era visível através das bandeiras, algumas, para mim, desconhecidas. É uma alegria ver que o evangelho de Cristo se estende, com menor ou maior intensidade, por toda a terra. O mandato de Cristo, aliás, o lema desta JMJ, “Ide e fazei discípulos meus entre todas as nações” era perceptível pela diversidade de rostos, de cores de pele e de línguas. 

Outra impressão foi a unicidade e unidade da Igreja. Como já foi dito, tínhamos no Rio peregrinos de todos os cantos do mundo. Todos recebemos um só batismo e professamos uma só fé. Todos formamos uma grande família, filhos de um mesmo Pai e todos possuímos um só Senhor, Jesus Cristo. Apesar das diferenças, todos fazemos parte do Corpo Místico de Cristo, a Igreja. E esta unicidade e unidade ficam evidentes com a presença da Cabeça visível da Igreja, o Papa. É o Papa o sinal visível da unidade católica. 

Foi uma semana em que pude tocar a Providência Divina. Não apenas aquela Providência distante que conduz toda a História, mas o cuidado que Deus tem com cada um de nós em particular. Apesar de ter ido sozinho para o Rio, sem conhecer exatamente a cidade, Deus sempre colocou as pessoas certas no lugar certo que puderam me ajudar. Foi assim, por exemplo, no trem ao encontrar-me com Bruno, um morador de Santa Cruz (bairro onde eu estava alojado). Sem saber ao certo como ir da estação de trem até a casa aonde eu estava alojado, Bruno se dispôs a me ajudar, pois a Kombi que ele pegava todo dia para voltar para a casa passava exatamente na rua que eu estava alojado. Aliás, os cariocas são bastante solícitos. A todos que pedi informação – pessoas na rua, cobradores de ônibus, guardas e policiais – foram atenciosos e educados. Houve até um caso em que eu estava consultando o mapa e um senhor ofereceu ajuda sem que eu pedisse. Foram pequenos gestos de solidariedade que eu não esquecerei e que me serviu de lição para o trato com o próximo. 

Foram dias em que senti a solidariedade cristã, principalmente dos mais pobres. Como costuma ser, os pobres são mais generosos. Foram eles, na maioria dos casos, que abriram as casas para alojar os peregrinos. E aqui, aproveito para agradecer a dona Fátima e sua família que me acolheram em sua casa. Não foram dias de conforto. Em muitos alojamentos faltou água quente. Dormir no chão, apenas com o saco de dormir e, na Vigília, a céu aberto numa noite fria, serviu para percebermos que há aqueles que não podem escolher dormir de outra forma, ou ainda, dormem todos os dias em situação ainda pior, sem um saco de dormir para manter a temperatura, sem um teto, sem segurança. Há aqueles que não podem tomar um banho, nem mesmo frio. Esta experiência não pode ser considerada apenas uma aventura e sim, após sentirmos na pele estas pequenas privações, levar-nos a refletir que há irmãos e irmãs nossos que não podem optar nem como nem onde dormem e passam dias sem tomar um banho digno ou fazer qualquer tipo de higiene. 

Foram dias de paz. Eram milhões de pessoas e em nenhum momento foi presenciado uma só agressão física ou verbal. Nenhum tumulto, mesmo quando o transporte público testava a virtude da paciência. Nenhum ato de vandalismo – destruição de lixeiras, de telefones públicos, carros amassados ou com a lataria riscada, etc – que os moradores de Copacabana dizem ser comum em eventos ocorridos no bairro. Havia respeito mútuo (um morador de Copacabana observou, do alto de seu apartamento, que não presenciou ninguém furando fila nos banheiros químicos ou nos restaurantes). Até mesmo a quantidade de lixo recolhido nas ruas foi menor do que em outros eventos. Interessante notar que os números da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro demonstram que o crime mais registrado foi o de furto, ainda assim menor que em outros eventos, mas nada de agressões, nada de bebedeiras, nada de drogas. Nenhum peregrino ferido. A violência ficou a cargo daqueles e daquelas manifestantes que consideram a religião um mal a ser extirpado. Nada disso deve soar estranho ou um fato em que devamos nos vangloriar. Foram pequenos testemunhos dados por nós, católicos, como servos inúteis que somos. Não fizemos nada além do que deveríamos ter feito. Porém, que toda esta experiência de convivência fraterna nos sirva de aprendizado. Uma jornalista, de uma mídia laica, citando alguns destes dados e presenciando a convivência pacífica de tantas pessoas, arrematou: “Não podia ser sempre assim?”

Foram dias maravilhosos e inesquecíveis. Dias de encontro com Deus em todas as ocasiões (porque Deus se revela a todo o momento. Basta estarmos atentos). Para mim, foi uma verdadeira peregrinação, um retiro espiritual. Pela manhã, a catequese, seguida pela Santa Missa celebrada pelo bispo catequista; depois, as visitas às igrejas; o sacramento da penitência recebido na Quinta da Boa Vista; os momentos de adoração ao Santíssimo; o lucro das indulgências. Uma semana retirado do mundo (apesar de, paradoxalmente, ter andado tanto pelas ruas movimentadas do Rio de Janeiro e em meio de milhares de pessoas), sem TV, sem internet, sem jornais, sem as distrações do mundo, despreocupado com as necessidades materiais, quase alienado, eu diria. Senhor, é bom estarmos aqui... 

Aqui retomo o relato da transfiguração. Os evangelhos nos contam que Jesus levou três de seus apóstolos – Pedro, Tiago e João – para o alto do monte Tabor e lá, diante deles, se transfigurou, revelando-lhes toda a sua glória. Pedro, tomando a palavra, afirmou que era bom estarem ali e queria preparar tendas para lá permanecerem. Após ouvirem a voz do Pai que declarava que Jesus era seu Filho eleito e ordenava que lhe escutassem, tudo voltou à normalidade. Enquanto tudo isso acontecia no alto do monte, na planície os outros apóstolos tentavam, em vão, libertar um menino de possessão demoníaca. Quando Jesus e os três apóstolos retornaram, o pai do menino explicou-lhes o que estava acontecendo. Após repreender a falta de fé de seus discípulos, Jesus expulsou o demônio. Poucas vezes se faz a ligação entre a transfiguração e a luta contra o demônio ocorridas ao mesmo tempo. Recordo-me que há uma obra de Rafael Sanzio que faz a conexão entre as sequências do evangelho que comumente aparecem separadas na liturgia. No quadro aparece Jesus transfigurado no monte enquanto lá embaixo os apóstolos tentam libertar o menino possesso. 

Pois é, a JMJ terminou e foi preciso voltar para a “planície”. Mas voltamos com a fé renovada como daqueles apóstolos que testemunharam antecipadamente a glória do Senhor. Se no Tabor os apóstolos tiveram um prelúdio da ressurreição, hoje sabemos que Ele está vivo e estará conosco até o fim dos tempos. Fortalecidos e confirmados na fé pelo Sucessor de Pedro, amparados por nossos irmãos e irmãs, tanto da Igreja militante, quanto – e, sobretudo – da Igreja triunfante e sob a proteção da Virgem Santíssima enfrentemos com toda a coragem a “planície”, onde ocorrem as batalhas cotidianas contra as forças do Mal, com a certeza que elas não podem nos submergir, pois Cristo está conosco, fazemos parte de Sua Igreja e o poder do mal não pode prevalecer sobre ela. Ouvimos a ordem do Senhor: “Ide e fazei discípulos meus entre todas as nações”. Não podemos ficar parados, olhando para cima, como os apóstolos na ocasião da Ascensão do Senhor. Temos que obedecer. Temos que ir, anunciando a todos a Boa Nova de Jesus Cristo, alargando as fronteiras do Reino de Deus que aonde chega expulsa todo mal. 




31 de jul. de 2013

Os gastos com a JMJ Rio 2013 e o valor de uma alma

Qual o valor de uma alma? Em meio ao materialismo e tecnicismo, uma parcela da sociedade só conseguiu enxergar a Jornada Mundial da Juventude através dos gastos. Falou-se do emprego de verbas públicas (nem sempre com verdade) e dos desperdícios e prejuízos com a transferência dos eventos de Guaratiba para Copacabana. 

Dom Fernando Rifan contou-nos um testemunho ocorrido na pré-jornada: numa das noites, um grupo saiu da igreja de Santana, no centro do Rio, em procissão até a Catedral onde ocorreria uma vigília. Passando pela Lapa, uma prostituta aproximou-se e perguntou o que era aquilo. Uma das moças lhe disse: "venha com a gente". E ela foi. Entrou com a procissão na Catedral e participou da vigília. Terminando, a prostituta aproximou-se chorando e disse aos organizadores que ia mudar de vida. 

Somente por este único caso, a conversão desta moça, todo o gasto com a JMJ, todos os prejuízos, todos os percalços são infinitamente desprezíveis diante da salvação de uma alma. Só por esta conversão, toda a JMJ já terá valido a pena. A sociedade materialista não consegue ver além da obtenção do lucro. Não se consegue ver a alegria no céu por um único pecador que se converte; não consegue estimar o valor de uma alma. Mas nós sabemos quanto vale. Vale a morte na cruz de um Deus feito homem. Vale todo o sofrimento até a última gota de sangue derramado por aquela prostituta da Lapa.




21 de jul. de 2013

De São Pedro ao Papa Francisco: a invencibilidade da Igreja

Às vésperas da chegada do Papa ao Brasil, refletimos sobre as palavras de Jesus dirigidas ao primeiro Papa, São Pedro: “E as portas do inferno não prevalecerão sobre ela [a Igreja]”. A promessa de Jesus é verificável na História. De fato, a Igreja é invencível. Nenhuma instituição puramente humana sobreviveria a 2000 anos, atravessaria todos os períodos em que classicamente dividimos a História, venceria o Império Romano perseguidor, resistiria à invasão dos bárbaros que colocou a Europa de cabeça para baixo, às heresias e cismas que dilaceraram o Corpo Místico de Cristo, às pressões dos governos, às revoluções liberais e comunistas que banharam o mundo com sangue católico e, por fim, aos pecados, traições, escândalos e contra-testemunho dos seus filhos. 

“Dentro de setenta anos não haverá mais Igreja”, quem disse esta frase está morto há 235 anos: Voltaire. 

“Morreu o último papa”, escreveu o carcereiro no relatório oficial enviado a Napoleão por ocasião da morte de Pio VI, mantido preso pelas tropas francesas na fortaleza de Valence. Era o ano de 1799. Os revolucionários afirmavam que era o fim do Papado e consequentemente da Igreja. De Pio VI a Francisco já tivemos dezesseis Papas. 

“Quantas divisões militares tem o Papa?”, perguntou Stálin debochando da condenação ao comunismo proferida por Pio XI. Perguntamos: onde está a União Soviética? 

A Rocha sobre a qual a Igreja está edificada não é abalada, muito menos derrotada. Pelo Sólio Pontifício já passaram homens de todas as espécies: pescadores, mártires, sábios e ignorantes, ex-escravos, pastores de rebanhos, filhos de empregada doméstica, órfãos abandonados, nobres, príncipes, cientistas, filósofos, médicos, adolescentes, corruptos, políticos, assassinos, devassos e, sobretudo, santos, aliás, muitos santos. Porém, todos foram legitimamente Papas. Todos foram escolhidos pelo Espírito Santo, independentemente se o conclave foi limpo ou repleto de pressões externas ou de compra de votos como já ocorreu na História. Todos serviram a Igreja, ou melhor, foram servidos por Deus como instrumentos, muitas vezes indignos, para governar Sua Igreja. A água limpa da graça não se contamina mesmo percorrendo canos enferrujados. Todos tiveram suma importância no tempo em que governaram a Igreja, demonstrando que, em última instância, é sempre o Sumo e Eterno Pontífice, Jesus Cristo quem governa a Igreja através das vicissitudes da História. 

Estudando a história da Igreja, encontra-se uma das provas de que realmente foi instituída por Cristo e é acompanhada pelo Espírito Santo. É em sua história que reconhecemos que é Santa, pois se não a fosse, os pecados de seus filhos a teriam destruído. Porém, fixamo-nos neste ponto de unidade da Igreja, em sua Cabeça visível, no Vigário de Cristo, o Papa, aquele que foi incumbido de pastorear as ovelhas do Sumo Pastor e confirmar os irmãos na fé. De São Pedro a Francisco vemos a perenidade da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, atacada de todos os lados, mas jamais vencida. 

Viva o Papa Francisco!




8 de mai. de 2013

Uma Bíblia na mão e uma ideia na cabeça


O Papa Francisco, num discurso aos membros da Pontifícia Comissão Bíblica, afirmou que a Igreja Católica é a única intérprete das Sagradas Escrituras. Aliás, esta parte do discurso ganhou destaque na mídia (desiludida ou iludida) que viu no Papa o mesmo sectário que seus predecessores. Bom, e o que dizer? O Papa não disse nenhuma novidade. Jesus fundou Sua Igreja para que conservasse a pureza do depósito da fé. É ao Magistério desta Igreja que cabe a verdadeira interpretação da Revelação escrita. A todos que queiram e sejam capazes disso, é possível trabalhar para melhor entender as Sagradas Escrituras, porém todos são obrigados a se submeterem à Tradição e ao Magistério da Igreja. Mal comparando, a Bíblia está para a Igreja, como a Constituição Federal está para o STF. É à mais alta corte da justiça brasileira que cabe defender e interpretar nossa Carta Magna. Imaginem se as decisões do STF referentes à constitucionalidade das leis começassem a ser contestadas e cada estado decidisse criar seus próprios tribunais para interpretarem a CF. 


Pois é o que vem ocorrendo com a Bíblia desde que o livre exame das Sagradas Escrituras foi criado por Martinho Lutero. O ex-monge agostiniano afirmava que "até a serva do moleiro é capaz de interpretar a Bíblia". Pois bem, já na época de Lutero, foi possível observar a confusão causada por esta tese. No século XVI, entre os próprios luteranos, já haviam deduzido da Bíblia até a poligamia. Um dos líderes laicos do luteranismo casou-se com duas mulheres. Sem um Magistério devidamente constituído, a proliferação de interpretações diversas que ocasionava o surgimento de inúmeras seitas - o que Lutero não imaginou e nem desejou - foi inevitável. 

Martinho Lutero
Outro pilar da doutrina de Lutero é a Sola Scriptura, ou seja, somente nas Escrituras Sagradas é possível encontrar a Revelação divina. Lutero imaginava que era possível interpretar a Bíblia através da própria Bíblia, desprezando a Tradição e as decisões magisteriais, sendo elas conciliares ou papais. O surgimento dos anabatistas, zwinglianos e calvinistas foi a prova de que Lutero estava errado. Todos tinham exatamente a mesma Bíblia como regra de fé, mas as interpretações variavam consideravelmente. Lutero morreu angustiado com o resultado de sua obra. E o coitado nem imaginava que o pior ainda estava por vir. Para se ter uma ideia do tamanho da confusão, no mesmo ano que Lutero morreu, foram encontradas mais de 200 interpretações apenas para um versículo da Bíblia: "Isto é o meu corpo". 

Com a impossibilidade de uma igreja unificada vinda da Reforma - não faltaram tentativas, todas fracassadas -, o protestantismo seguiu sua dinâmica própria de esfacelamento. Surgiram os batistas, pois a Bíblia diria que só os adultos devem ser batizados; surgiram os unitaristas, pois a Bíblia afirmaria que Deus é uno e único e a Trindade é uma aberração politeísta; surgiram os que encontram na Bíblia que a alma morre com o corpo ou que "dorme" até a ressurreição, enquanto outros afirmam que a mesma Bíblia diz que a alma vai para junto de Deus. E agora surgem até igrejas que afirmam categoricamente, baseadas nas mais "avançadas pesquisas" bíblicas, que esta não proíbe as relações homossexuais, pelo contrário, até as aprovariam. Os pastores da IURD, por exemplo, já encontram na Bíblia argumentos pró-aborto. E sobre a Teologia da Prosperidade não é preciso nem falar.

Desta forma, a Bíblia cai em descrédito. O protestantismo, com o afã de destruir o Magistério da Igreja, recusou-lhe qualquer autoridade. Como consequência, dois séculos e meio após a revolta protestante, era a própria Bíblia que caía em descrédito sob os ataques dos racionalistas e, por fim, a existência de Deus foi posta em xeque. Afinal, onde encontrar a Verdade se há tantas igrejas, todas afirmando que obedecem o mesmo livro sagrado, mas com doutrinas tão discrepantes? Santo Agostinho afirmava: "Eu não acreditaria no Evangelho, se a isso não me levasse a autoridade da Igreja Católica". Lutero, como monge agostiniano que era, deveria ter considerado a frase daquele que deu uma Regra a sua Ordem.