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6 de dez. de 2014

As imbecilidades de Jean Wyllys nas redes sociais e seu papel de vítima

Vi, outro dia, uma postagem do deputado Jean Wyllys onde ele dizia que está sendo ofendido nas redes sociais, sendo xingado e caluniado e que ia tomar as devidas providências. Interessante posicionamento para quem atira para todos os lados nas mesmas redes sociais. Para quem acompanha um pouco do que o deputado posta na rede, fora as imbecilidades a la Marco Feliciano, percebe que o ex-BBB parlamentar é extremamente desrespeitoso com todos aqueles que discordam de sua visão de mundo: ofende, xinga, calunia. Esquece-se até mesmo do decoro que seu cargo exige. Suas postagens sobre o Papa Bento XVI, por exemplo, eram totalmente caluniosas (e sobre os evangélicos também). Chamava-o de nazista, genocida em potencial (o que, em tese, todos somos), etc. 

A esquerda reserva para si o direito de agredir. O vitimismo faz parte do pensamento de esquerda desde quando esta surgiu, na Revolução Francesa. Em nome da revolução, do progresso, vale tudo. Os revolucionários, especialmente sobre a liderança de Robespierre, guilhotinaram 32 pessoas diariamente, durante um ano e meio. Todavia, tal brutalidade era em nome do progresso. O comunismo causou a morte de 100 milhões de pessoas, porém tudo foi justificado por um pretenso bem do povo. O historiador marxista Hobsbawm disse que a morte destas 100 milhões de pessoas tinha valido a pena. Ou seja, os extermínios em massa, os laogai's, os gulag's, os deslocamentos forçados de imensa massa populacional, as fomes artificiais, os paredões de fuzilamento, tudo isto vale a pena para melhorar a vida das pessoas, o que, de resto, nem isto aconteceu. O deputado, em menor escala, age assim. Se agride, se ofende, é devido a necessidade de remover obstáculos que impedem o progresso e que devem ser retirados a qualquer custo. É um revolucionário. Se é ofendido, é vítima daqueles reacionários que querem manter o status quo. É violência. Muito típico.



22 de abr. de 2014

Disse Ziraldo: "As ideologias da esquerda não são naturais". Eis uma verdade!

"O socialismo, o comunismo é um fracasso porque não é natural. A esquerda não é natural, é uma tentativa de racionalização, mas não é natural. Os valores defendidos pela direita, estes sim, são naturais." Disse Ziraldo, ontem, no É Notícia da RedeTV!. É verdade. É exatamente isso que afirmaram os Papas desde Pio IX. Nada que seja natural precisa ser imposto por revoluções. O que é natural se impõe por si próprio porque é a verdade. 

Dois exemplos de causas defendidas pelas esquerdas ilustram bem isso: casamento gay e aborto. Veja a dificuldade em convencer que ambos são "direitos", são coisas normais. Elaboram-se verdadeiros tratados para defender o indefensável. "O excesso de argumento prejudica a causa", já dizia Hegel. E por que este excesso? Simplesmente porque é óbvio (justamente porque é natural) convencer-se que um casamento faz-se entre um homem e uma mulher e que o direito à vida é inalienável desde a concepção. Mas há quem sofra da Síndrome do Kiko e continue a afirmar com todas as forças que existe bola quadrada.




28 de mar. de 2014

50 anos do Golpe civil-militar de 1964: pequenas verdades

Muita coisa tem sido dita do Golpe civil-militar de 1964. Não vou escrever um texto sobre isso, tanto porque muita gente infinitamente mais competente do que eu, tem escrito. Só vou colocar alguns pontos:

- Havia, sim, naquela época, um verdadeiro perigo comunista. Não era propaganda dos militares para tomar o poder.

- O Brasil já tinha passado por uma tentativa de golpe, em 1935, que ficou conhecida como Intentona Comunista e só fracassou pela incompetência de seu organizador, Luis Carlos Prestes. Lembrando que vivia-se em plena Guerra Fria e que revoluções comunistas aconteciam em vários países (China, 1949; Cuba, 1959). Nenhuma delas era democrática.

- Havia, sim, a tentativa de organizar a luta armada no Brasil antes de 1964. Leonel Brizola, cunhado de João Goulart, era o principal articulador.

- João Goulart, sem apoio do Congresso, resolveu governar "com as massas". Propôs as reformas de base que dependeriam de mudanças constitucionais. Foram rejeitadas pelo Congresso, mas Goulart insistiu, insuflando a população.

- "Já temos o poder, basta-nos apenas tomar o governo", disse Luis Carlos Prestes, secretário-geral do PCB e aliado do presidente.

- O Brasil estava afundado na insegurança, destruído economicamente e altamente dividido, à beira de uma guerra civil.

- Entre todos os setores da sociedade civil, apenas os sindicatos apoiavam João Goulart.

- Os militares intervieram em 31 de março de 1964 com amplo apoio da população civil. Com isso, não cometeram nenhuma ilegalidade, como costuma-se afirmar. A Carta Magna de 1946 legava às Forças Armadas a defesa da Constituição, que de fato, estava em perigo pelas propostas de reforma constitucional feitas por Jango.

- João Goulart foi cassado pelo Congresso, não pelos militares. A grande maioria dos políticos (por exemplo: Ulysses Guimarães, Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek) aderiram imediatamente - ou logo em seguida - ao novo regime. 

- É mentira quando se afirma que as diversas correntes da esquerda brasileira, desde os moderados até os que ingressaram na luta armada, lutavam pelo retorno da democracia. De fato pretendiam implantar uma ditadura comunista no Brasil, nos moldes de Cuba, China ou URSS. Considerando que algumas destas ditaduras perduram até hoje, podemos considerar que o golpe de 1964 salvou a democracia.

- Uma coisa é o golpe civil-militar de 1964. Outra é a ditadura vinda em seguida. Uma coisa são os usos. Outra, os abusos.




12 de fev. de 2014

O trabalho pró-vida de Elba Ramalho, as crianças indesejadas de Marília Gabriela e a cultura do descarte

Estava vendo a entrevista que a Elba Ramalho concedeu à Marília Gabriela No domingo retrasado. Me impressionou o belo trabalho que a cantora faz em prol da vida, convencendo meninas a não matarem seus filhos no ventre. E me impressionou também o argumento da Gabi em defesa do aborto: o fato de a criança ser indesejada justificaria o aborto. Se todos os argumentos em defesa do aborto são inconcebíveis, este é um absurdo. 

Para se ter uma ideia disso, basta abranger a "classe dos indesejados". Já houve quem tenha sido considerado indesejado pela cor da pele, pela etnia ou pela religião. Está lá nos livros de História e na memória de tantas pessoas os horrores do nazismo e do comunismo que não me deixam mentir. Também poderíamos pensar que, para muitos, os pobres seriam indesejados. Moradores de rua e mendigos são indesejados para alguns e aqueles que os queimam vivos estariam em seu pleno direito. Pais podem se tornar indesejados e as "Suzanas von Richthoffen" não fariam mais do que tirar uma pedra do sapato. Os idosos podem ser indesejados, um verdadeiro peso morto para a família e para a sociedade. Os doentes podem ser indesejados. Não é por acaso que a eutanásia ronda as legislações de tantos países. 

Enfim, o que não faltariam ao mundo são classes de pessoas indesejadas. Como bem diz o Papa Francisco, vivemos em plena cultura do descarte. As pessoas são descartadas conforme não servem ou não são mais desejáveis. O critério do desejo não pode servir para abalizar decisões individuais, coletivas ou governamentais. A Elba Ramalho, diante do argumento da entrevistadora, citou o nazismo. Marília Gabriela replicou que uma coisa era diferente da outra. Mas a cantora tem razão, com a diferença de que o nazismo era menos democrático quando definia seus indesejados.


20 de jun. de 2013

MPL não me representa

Não adianta. Apesar de tantos louvores midiáticos e de comentaristas de internet, estas manifestações não me conquistaram. Explico o porquê. 

Primeiro: Tudo começa neste Movimento Passe Livre. Não gosto de suas propostas nem de seu modus operandi. Para quem não conhece, basta entrar no site da entidade. Lembremos que no primeiro dia de protesto, com umas mil pessoas, eles devastaram a av. Paulista. Será que já tinha os "infiltrados" desde aquela hora? Na quinta-feira, diante da bandalheira generalizada, a polícia desceu o sarrafo. Manifestantes e o governo de SP perceberam que o confronto era ruim para todos os lados. Segunda-feira se reuniram e entraram em acordo sobre como o movimento e a polícia se comportariam. A partir deste momento - e só deste - o MPL tomou ares de boa moça. 

Segundo: As manifestações são irracionais. Protesta-se sem apresentar propostas. Querem que o valor da passagem de ônibus não suba, mas, a despeito dos argumentos apresentados para o aumento, não indicam como manter os preços diante da alta da inflação e do aumento dos combustíveis neste ano. Sem contra-argumentos, não há negociação. Os protestos serão ad eternum. 

Terceiro: Graças a Deus, vivemos numa democracia. Não é ideal, mas é uma democracia. Numa democracia, há leis e elas devem ser obedecidas. Se políticos ou a polícia não obedecem a lei, isto não justifica a desobediência. Protestos populares fazem parte da democracia. Destruição de patrimônio público ou privado, não. Tentativa de linchamento de policiais, também não. Houve manifestantes que justificaram os atos de vandalismo demagogicamente, alegando que o número de homicídio, a precariedade dos hospitais e afins é que eram atos de vandalismo. Como diria Sócrates (o filósofo, não o jogador), um erro não justifica outro. Isto tudo aconteceu antes do MPL se tornar a donzela de hoje. 

Quarto: Com o afã de mostrar força, o MPL fez convocação geral. Isto atraiu descontentes e baderneiros de todos os matizes. Resultado: perdeu o controle. Há muita gente boa que aderiu ao movimento pacificamente. Porém, junto, vieram os arruaceiros. Nenhum ato de violência é justificável. Depredar patrimônio público, invadir sedes de governo, atacar a polícia e a imprensa, saquear lojas e incendiar carros são coisa de bandido. 

Quinto: Toda esta gente protesta contra tudo e contra nada. Não há foco. Não há objetivo, pelo contrário, há bastante subjetivismo. É um monte de descontentes, mas descontentes com o quê? Quem são os culpados? Um protesta contra a violência. Tem alguém a favor? Outro, contra a corrupção, mas não se sabe se é contra o ato ou contra a impunidade. É uma mistura de otimismo e ingenuidade que, no fim das contas, leva a nada. 

Sexto: Vocês que leem o que eu posto - se é que leem... - já devem ter percebido o quanto repudio o PT e a década que está no governo. E não só. Repudio tudo que cheire esquerdismo, o que me parece óbvio devido às tragédias que o marxismo/ comunismo/socialismo provocaram no século passado. O MPL aparenta ser apartidário, mas não ideologicamente neutro. Palavras de ordem do tipo: "Fora, Dilma" ou "Fora, Alckmin", não cabem no regime democrático. Governantes são destituídos nas urnas. Mesmo achando que o governo Dilma, assim como o Lula, é uma merda, não há nenhum motivo para apoiar um impeachment. Isso não é democracia, é golpismo.


12 de abr. de 2013

Marco Feliciano, Yoani Sánchez, democracia e as tropas de assalto da esquerda moderna


A democracia no Brasil está sendo sorrateiramente minada nesta última década. O que está acontecendo no caso do deputado pastor Marco Feliciano é mais uma amostra disso. Impressiona como os incautos de plantão são levados a acreditar que o caso trata-se da relação entre o Estado e a religião ou que as asneiras ditas pelo deputado demonstram racismo ou homofobia. Mas é compreensível. A geração Twitter não lê nada que contenha mais do que 140 caracteres. Por isso, fica impossível ter uma visão global do que acontece, posto que é mais fácil ficar preso à frases de efeito e manchetes. Além do que se vê, tem muito mais por trás (sem trocadilhos) do movimento gay.

Se o deputado em questão é ignorante e incompetente – e já deu mostras de ser – é outra história, mas o fato é que ele foi eleito democraticamente. Foi escolhido como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados conforme as regras da Casa. Ninguém é obrigado a concordar com os seus posicionamentos, mas é preciso respeitar o jogo democrático. Não se faz oposição inviabilizando o debate na base da gritaria, causando tumulto  e impossibilitando que o deputado faça seu trabalho. Aliás, na Sexta-Feira Santa, o deputado foi perturbado durante um culto religioso, ou seja, fora das suas funções de parlamentar. Mas algo é preciso notar. Os que protestam de forma violenta contra Marco Feliciano (militantes do PT, do PSOL e do PC do B) são os mesmos que atacaram truculentamente a cubana Yoani Sanchéz, acusando-a de trair um governo ditatorial, porque denuncia a miséria e a opressão mantidas pela família Castro em Cuba. Naquela ocasião, de maneira vergonhosa, impediram que ela se pronunciasse em público. Nada mais antidemocrático. Agem como a S.A., a famosa tropa de assalto nazista que saía à caça de opositores da ideologia. O ex-BBB deputado Jean Wyllys (PSOL - RJ), que durante seu mandato já disse tantas asneiras quanto Feliciano, é partidário destes métodos. Nestes três anos como deputado, preferiu a bravata do que apresentar projetos de lei que possam ser discutidos seriamente pelo parlamento.

Será somente coincidência que os partidos de esquerda abraçaram a causa gay? Vejamos. Nos países comunistas, o homossexualismo era crime. Para os marxistas, o homossexualismo era uma das provas cabal da degradação moral da sociedade capitalista. Gays foram perseguidos, presos e mortos na URSS, na China e em Cuba. Mas o que mudou na mentalidade da esquerda? Seria uma guinada em direção à compaixão? Não. O motivo é a luta de classes, ou seja, continua tão marxista quanto antes. Tal concepção surgiu na esquerda norte-americana, tendo como teórico o filósofo Herbert Marcuse. A luta de classes penetrou pouco no operariado norte-americano e este pouco foi habilmente anulado pelo governo nas primeiras décadas do pós-guerra. Não podendo contar com os protagonistas da revolução, a nova esquerda norte-americana precisou criar outras “classes”, reforçando ou produzindo antagonismos dentro da sociedade. A luta pelos direitos civis da população negra era uma causa justa. Assim, os movimentos negros foram abraçados pelos marxistas norte-americanos. Surgiram os movimentos hippies, feministas e homossexuais. Era preciso lançar negros contra brancos, mulheres contra homens, gays contra héteros, ou seja, a eterna luta entre oprimidos e opressores que move a História e levaria inexoravelmente a uma nova sociedade: a comunista. Neste contexto é que surge o “politicamente correto”, uma forma eficaz de patrulhamento ideológico que inviabiliza o debate e o contraditório, elementos típicos da democracia, através da ameaça e da censura.

Portanto, vemos como que por detrás de toda uma pretensa luta de direitos esconde-se ideologias revolucionárias perniciosas que pretende o fim do regime democrático, implantando o totalitarismo. Os homossexuais são utilizados como massa de manobra. Para esses partidos políticos, cuja ideologia sempre repugnou o homossexualismo, os interesses dos gays não são tão importantes. O que importa, de fato, é o êxito da revolução. Os casos de violência contra homossexuais são raros no Brasil e inflacionados artificialmente e não há dúvida que tais ideólogos inescrupulosos adorariam ver realmente aumentados. E muita gente de boa vontade acaba embarcando nessa, dando apoio ao que não conhece exatamente, engrossando o rebanho. Consola saber que estes esforços estão apenas no princípio. Os homossexuais não apoiam em massa os métodos truculentos. Basta considerar que na Parada Gay de São Paulo aparece um milhão de pessoas e para protestar contra Feliciano, uma dúzia. Mas é preciso conhecer os fatos e os verdadeiros objetivos que tais protestos escondem.  




15 de ago. de 2012

URSS: Quando o sonho se revela um pesadelo


O ano de 2012 marca duas décadas do fim da União Soviética. Mais do que o final melancólico de um império, a derrocada da URSS veio comprovar a ineficácia do marxismo, doutrina filosófica que prometia a liberdade da classe trabalhadora, o fim das classes sociais e de toda a opressão conseguidas através de uma revolução socioeconômica que aprofundaria radicalmente a democracia. Porém, como foi visto, o socialismo funcionava maravilhosamente bem no campo das ideias, mas, quando posto em prática, causou as maiores desgraças humanitárias que a História já testemunhou. No século XIX, o filósofo alemão Karl Marx previa que a revolução do proletariado se daria em algum país altamente industrializado. Mais cedo ou mais tarde iria acontecer nos EUA, na Alemanha ou na Inglaterra. Para surpresa de todos – menos para Marx que já estava morto – a primeira revolução socialista bem sucedida deu-se no Império Russo, país que ainda vivia sob o regime monárquico e feudal. Era o ano de 1917. Enfim, Lênin, o grande líder da revolução bolchevique proclamava a liberdade dos trabalhadores russos, o fim da injustiça e a participação de todos nas decisões do Estado.

Após quatro anos de guerra civil, finalmente é fundada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, reunindo a Rússia com mais quinze países que já compunham o antigo império czarista. Depois da Segunda Grande Guerra, os países do Leste europeu vizinhos à URSS adotaram o socialismo, formando a chamada Cortina de Ferro. Foram criados os sovietes, pequenos grupos de trabalhadores que tomavam decisões autônomas em âmbito local ou opinavam sobre assuntos nacionais. Logo, o povo soviético percebeu que a tão sonhada liberdade com a promessa de trabalhar quando e como quisesse, sem patrões e exploração estava cada vez mais distante. Instalou-se no governo uma ditadura de partido único; as decisões políticas passaram a ser tomadas por um grupo restrito de burocratas do Partido Comunista; as leis tornaram-se rígidas como o chumbo. Perverteu-se a ideia original: as instituições do Estado que serviam para a promoção da libertação da classe trabalhadora, agora era usada para manter o regime a qualquer custo.

A manutenção do regime socialista tornou-se um fim em si mesmo. O Estado passa a perseguir àqueles a quem foi prometida a liberdade. Instaura-se um regime totalitário que coloca a população em estado de terror constante. O governo desconfia de tudo e de todos. Qualquer movimentação é vista como suspeita e uma provável rebelião. As leis são inúmeras e insuportáveis. É a perversão do Direito que existe exatamente para proteger os mais fracos e não para que seus dispositivos sejam usados para amedrontar ou ameaçar. A classe trabalhadora, até então protagonista da revolução, é vitimada. Se já não há mais patrões, os trabalhadores passam a ser verdadeiros escravos do Estado e a receberem ordens de meia dúzia de dirigentes do PC, que ditam o que, quanto e como devem ser produzidos os produtos agrícolas e industrializados. A liberdade desaparece sob um amontoado de regras e decretos que sufoca a classe trabalhadora. O país se torna uma prisão levando muitos a fugir. Os alimentos eram racionados e os salários congelados. Trabalha-se muito e ganha-se pouco. As pessoas não possuem plena liberdade em explorar todo seu potencial. Sufocadas, fogem para outros países levando consigo todo conhecimento adquirido. A URSS começa a perder seus talentos o que a torna ineficiente em vários setores.

O totalitarismo invariavelmente leva à clandestinidade. O povo pratica atos ilegais com maior freqüência (em meio ao excesso de leis, torna-se impossível cumpri-las). Para se ter ideia do que é considerado um ato ilegal na URSS, basta exemplificar que, tomar uma coca-cola é um ato ilegal. É um círculo vicioso: o aumento da rigidez, leva à clandestinidade, que leva a uma rigidez ainda maior. A população é posta sob total vigilância, pois é preciso proteger o regime contra qualquer ameaça. Todos desconfiam de todos. O vizinho ou o colega de trabalho pode ser um espião, principalmente porque a forma do regime favorece o aparecimento de pessoas que passam a se beneficiar do esquema e tirar vantagens do governo delatando pequenos focos de resistência ou de oposição ao regime que podia, assim, se antecipar a pretensos movimentos de greve ou de contestação, punindo-os exemplarmente. Mais tarde, nem mesmo esses grupos de puxa-sacos e dedos-duros escaparão à fúria do regime. E as punições são muitas e severas: campos de concentração (chamados gentilmente de campos de reeducação, onde os “reeducandos” recebiam treinamento de como servir melhor ao regime), trabalhos forçados, castigos físicos, psicológicos e morais, o exílio, a pena de morte.

A promessa de bem-estar social para os trabalhadores foi total e violentamente esquecida. As pessoas foram esquecidas. Relegadas ao segundo plano, ficaram à mercê de um regime que as usava para se auto-sustentar, onde trabalhavam para produzir para o Estado, combater pelo Estado e quando adoeciam ou se tornavam incapazes ou quando simplesmente o regime decidia, eram imediatamente substituídas ou eliminadas como peças de uma máquina, sem levar em consideração qualquer aspecto de suas vidas. O socialismo que era visto como a vitória do humanismo e da liberdade do homem provou-se ser o oposto, ou seja, um agente de escravização e desumanização.

Dessa forma, a sociedade socialista que deveria ser o ápice da evolução de toda a humanidade durou apenas 75 anos. Entrou em colapso quando o povo que vivia sob as bandeiras vermelhas cansaram da opressão e tenderam – como tendem todas as pessoas – ao direito natural à liberdade. Se os trabalhadores foram os protagonistas da implantação do socialismo, também o foram do seu fim. Manifestações na Tchecoslováquia e na Hungria agitaram o bloco socialista. Os trabalhadores do sindicado Solidariedade, na Polônia, organizaram corajosamente as primeiras greves. O Muro de Berlim é derrubado. Foi o início do fim. Quando o regime se viu seriamente contestado, algo tinha que mudar. E mudou. O líder do governo soviético Mikhail Gorbachev promoveu algumas reformas a fim de salvar o comunismo. Mas não havia mais o que fazer. Era o fim da URSS.

Como todos os fatos históricos, a experiência vivida na URSS e em todo o bloco socialista deixou-nos uma lição. As leis servem às pessoas para que haja ordem e liberdade e para permitir que as pessoas deem o melhor de si e não o contrário. Não apenas nos países socialistas ou em regimes totalitários, mas também em qualquer esfera de poder, na família, nas empresas que mantêm um sistema que prioriza a si próprio ou os resultados ou o lucro em detrimento da pessoa humana estão fadados ao fracasso.

24 de jun. de 2012

Rio+20 e a nova ordem mundial proposta pela ONU


A Rio+20 foi um dos assuntos que dominaram o noticiário nos últimos dias. A Conferência da ONU sobre o meio ambiente, cujo tema era o desenvolvimento sustentável, reuniu chefes de Estados e representantes de governos de todos os países. Sem a participação dos chefes de Estado ou de governo dos países desenvolvidos, não passou nem perto do que foi a Eco-92. Forte foi a presença de ONG's, representantes da sociedade civil – que, na verdade, são grupos de esquerda que defendem suas próprias ideologias que passam longe da vontade do restante da sociedade – e os mais diversos grupos e tipos de pessoas, transformando o evento numa mistura de Woodstock com a assembleia da UNE. Mas o que realmente se esconde atrás do crescente movimento ecologista? O movimento não apresenta uma ideologia hegemônica, atravessando as mais variadas correntes filosóficas, apresentando desde grupos bem intencionados até movimentos político-ideológicos radicais.

Após a queda da URSS no início da década de 1990 termina a divisão do mundo entre as ideologias capitalistas e socialistas. É o fim da Guerra Fria que dividiu o planeta entre zonas de influência dos EUA e da URSS. O socialismo perdeu sua força com a experiência fracassada da URSS. Entramos num período sem ideologias a defender. Então, sem o apoio de uma superpotência como a União Soviética e sem nenhum bom exemplo que levasse a população mundial a optar livremente pelo comunismo, a esquerda mundial precisava empunhar uma nova bandeira que envolvesse toda a humanidade e, assim, voltou-se para a causa ecológica. Revestidos de aparentes boas intenções na defesa dos recursos naturais do planeta, dominaram as ONG's ambientalistas. Os movimentos sociais de esquerda passaram a defender entusiasticamente a causa ambiental. O vermelho se foi: o verde tornou-se a nova cor do comunismo. São os chamados “melancias”: verdes por fora e vermelhos por dentro. O discurso é simples: o meio ambiente está sendo destruído; o causador desta destruição é o modo de vida da sociedade, sobretudo ocidental, baseada no capitalismo. Deste modo, conclui-se facilmente que o capitalismo é a causa da destruição do planeta e seus promotores e defensores, os Estados nacionais, devem ser substituídos por uma nova ordem mundial sob o argumento de uma iminente catástrofe que levará ao fim da humanidade.

Como já foi lembrado, sem o apoio de uma grande potência, a ONU tornou-se o caminho para a propagação e implantação desta nova ordem. Não podemos afirmar que a ONU é marxista, mas que os marxistas a utilizam. Na verdade, a ONU tem o talento de unir o individualismo liberal com a massificação marxista. Defende-se uma governança mundial, o fim da autodeterminação e independência das nações, que ditaria a cada país o que deve e o que não deve ser feito em defesa dos “direitos humanos”, do bem comum e da preservação do planeta. Com isso, a ONU se tornaria um parlamento supranacional, suas agências controlariam a economia, a justiça, a cultura, a religião e a população mundiais. A primeira experiência para este internacionalismo foi dado com a criação de blocos regionais, como a União Europeia. Teorias da conspiração encontradas pela internet e planos para conquistar o domínio mundial podem soar como um novo livro de Dan Brown, mas os documentos da ONU e a pressão que esta já exerce sobre as nações signatárias de suas convenções para que aprovem seus intentos são provas de que a intenção de um governo global realmente existe. E o medo da população mundial de uma catástrofe ambiental levaria ao apoio incondicional de tal governo. Afinal, quem não apoiaria uma instituição que seria a única capaz de salvar nossas vidas, nem que para isso sacrificássemos parte de nossa liberdade individual ou independência nacional?

No passado, os esquerdistas defendiam o fim do capitalismo como solução para os problemas sócio-econômicos. Passado o capitalismo, o comunismo se instalaria trazendo o paraíso na Terra. Agora, o capitalismo é considerado o grande vilão da questão ambiental. Interessante frisar que a URSS era entre as nações, a segunda maior poluidora; que destruiu suas florestas; que causou um desastre ambiental irreversível no Mar de Aral e que o maior acidente nuclear da História aconteceu em Chernobyl. Vale lembrar também que Cuba transformou suas áreas de vegetação natural em plantações de cana-de-açúcar; e que os assentamentos do MST praticam desmatamentos desregrados no Brasil. Ou seja, o socialismo jamais conseguiu este admirável desenvolvimento sustentável tão defendido pelos movimentos de esquerda. Mas o ecologismo da ONU tornou-se patente após a publicação da Carta da Terra no ano 2000. A ONU traiu sua constituição, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A pessoa humana deixou de ser a referência quando se trata do seu desenvolvimento e bem-estar integrais e da salvaguarda de sua dignidade. A Terra passou a ser o ente que deve ser defendido e preservado custe o que custar, inclusive se custar vidas humanas. O planeta passou a ser considerado uma entidade viva e o ser humano uma praga a ser combatida.

Apostando no catastrofismo apocalíptico, a ONU com a colaboração de ONG’s ambientalistas, partidos políticos, intelectuais e centros de pesquisa passou a divulgar dados assustadores sobre as mudanças climáticas que levariam ao fim da vida como se conhece na Terra. Deturpando dados científicos – como ficou provado no roubo dos e-mails do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – e desacreditando aos milhares de cientistas que apresentam teorias que comprovam a impossibilidade de haver mudanças climáticas provocadas pela ação humana (nenhum deles foram convidados para participarem da Rio+20) a ONU induz a população mundial ao medo e coage todos a apoiar suas políticas. Vislumbrar um futuro de seca, fome, cidades litorâneas submergidas e guerras leva a qualquer um a apoiar quem possa impedi-lo. E é por isso que a ONU tenta em suas diversas conferências sobre o meio ambiente aprovar um documento que obrigue a todos os países a seguirem suas diretrizes que orientam todos os aspectos da vida humana no sentido de preservar o meio ambiente. Sem a presença dos países desenvolvidos (Angela Merkel, por exemplo, preferiu torcer para a seleção alemã na Eurocopa) e sem conseguir impor sua vontade, o documento final da Rio+20 provou que a conferência foi um fracasso. Graças a Deus. 



2 de mar. de 2012

Perseguição aos católicos na Europa


Conclusão

Concluímos, portanto, que o século XX foi o palco da destruição e expropriações de bens da Igreja Católica, da intolerância, tortura e do massacre de milhares, senão milhões, de católicos pelo simples e único fato de serem católicos, caracterizando, assim, um verdadeiro genocídio. As ideologias que sustentaram governos, partidos e instituições, tendo como herança e ponto de partida a Revolução Francesa, pretenderam eliminar a Igreja Católica do solo europeu. Maçons, liberais, positivistas, marxistas e nazistas consideravam a Igreja o grande obstáculo para o progresso dos diversos povos da Europa e, consequentemente, do progresso humano. O número de vítimas, os roubos e as destruições de igrejas e monumentos católicos na URSS e demais países comunistas, na Espanha e na Alemanha com todos os seus domínios demonstra que não houve um simples confronto de ideias contra oposicionistas ou limitações de pretensas regalias. O que houve foi uma tentativa de exterminar sistematicamente qualquer sinal da Igreja Católica em seus territórios, nem que para isso fossem assassinados milhares de seres humanos inocentes. Declarada culpada pelas atrocidades ocorridas na História ocidental, opressora e retrógrada, a Igreja Católica foi condenada à extinção e considerada um inimigo a ser abatido por todos os meios. Dessa forma, bispos, padres, freiras, religiosos e leigos foram caçados, presos, torturados e assassinados. Em pleno século XX, dois papas foram vitimas da intolerância: Pio XII livrou-se de um plano de sequestro dos nazistas e João Paulo II sobreviveu a um atentado a tiros (ROYAL, 2001, p. 16).

A impossibilidade de se chegar próximo a uma cifra das vítimas dos diferentes regimes que perseguiram os fiéis da Igreja Católica acaba por não transparecer a tragédia e a violência deste genocídio. Os números disponíveis se referem aos membros da hierarquia. Sendo alvos preferenciais, pois a destruição da hierarquia é a destruição da Igreja, se tornaram mais fáceis de ser rastreados. A perseguição aos católicos ocorrida na Europa na primeira metade do século XX, principalmente nas décadas de 1920 a 1940, não causa o mesmo interesse aos estudiosos como as práticas genocidas contra outros grupos étnicos ou religiosos, como o que sofreram os judeus, para citar como exemplo o genocídio mais emblemático. Royal (2001, p. 16) afirma que o genocídio dos católicos é relativamente pouco documentado e que a maioria dos relatos sobre os fatos foi produzida sob uma perspectiva puramente política. Para citar um exemplo, a obra O Livro Negro do Comunismo mal menciona a perseguição aos católicos. A literatura sobre o assunto é, sobretudo, produzida por autores que mantém relações com a Igreja e que não pretendem que tais massacres caiam no esquecimento e que estes não voltem a acontecer.

Mattera, apud. Socci (2003, p. 25) diz que, devido as perseguições, os católicos “contam suas vítimas aos milhares, seus fiéis sofrem torturas e humilhações de todo o tipo. Mas a opinião pública ocidental, precisamente a ‘cultura cristã’, não concede nenhuma atenção a esse drama, exceto em ambientes restritos”. O pouco interesse dos historiadores, organizações internacionais e demais agentes da mídia no assassinato de milhares de católicos ocorrido neste período que o artigo abrange e de todo o século XX se deve ao fato de a grande maioria compartilhar as ideologias que promoveram esse massacre. Exceto o nazismo que hoje é considerado crime na maioria dos países, todas as outras ideologias que serviram de motivação aos governos perseguidores têm seus adeptos nestes ambientes. Quando retratam os massacres, dificilmente a fazem com neutralidade e acabam apresentando os fatos do mesmo ponto de vista dos perseguidores: os católicos durante séculos perseguiram e mataram movidos pela intolerância, mas os jacobinos, bolcheviques e demais revolucionários mataram e destruíram em prol da justiça, retirando o obstáculo, a pedra do meio do caminho para o progresso e bem de todos (ORTÍ, 1990, pp. 393-394).

O que é visto, em regra geral, na historiografia e nos veículos da mídia são as repetições das mesmas acusações feitas à Igreja desde o Iluminismo. A força dos argumentos é tamanha que muitos membros da Igreja Católica, incluindo bispos e padres, em vez de conduzir um contra-argumento sério aos que acusam a Igreja, acabam aderindo às críticas e, muitas vezes, realizando uma autocrítica tão ou mais ferrenha, no que Messori chama de masoquismo dos católicos (MESSORI, 2004, p. 11). A divulgação do genocídio sofrido pelos católicos pode causar a comoção da opinião pública e esta passar a vê-los como vítimas, contrariando interesses político-ideológicos que tradicionalmente os apresentam como vilões.

De certa forma, a maneira como a Igreja Católica enxerga os mártires, ou seja, aqueles que são mortos in odium fidei ou in odium eclessae, pode colaborar para amenizar os relatos trágicos da perseguição. Para a Igreja, o martírio é a glória suprema, o sublime testemunho que um católico pode dar de sua fé e a imitação perfeita de seu fundador, Jesus Cristo. Enquanto os massacres vividos pelos judeus são denominados de Shoah, ou seja, destruição, desgraça, para a Igreja, a perseguição e o martírio, representam um momento de purificação, de prova de amor a Deus e aos irmãos e a cooperação com a redenção de Cristo (Lumen Gentium, 42).

Os regimes totalitários do século XX viram na Igreja Católica uma inimiga lógica e resolveram eliminá-la. Certamente, foi durante estes regimes que os católicos mais sofreram. Porém, a perseguição aos católicos continuou durante todo o século XX, em diversos países e das mais variadas formas. No entanto, não foram aprovadas leis que amparassem ou protegessem especificamente os católicos, proibindo ou criminalizando qualquer ideologia, publicação ou manifestação anticatólicas. Não há museus que preservam a memória das vítimas deste genocídio, a não ser igrejas dedicadas àquelas vítimas que foram oficialmente declarados mártires pela Igreja Católica. Entramos no século XXI sem nenhuma perspectiva no aumento da tolerância para com a Igreja Católica. Grande parte da perseguição ocorre, hoje, nos países de maioria muçulmana, mas os casos de intolerância, discriminação e violência voltam a crescer na Europa, através de sutis publicações, atos isolados de vandalismo e leis laicistas que limitam a liberdade e a consciência dos católicos. Ao conhecer o massacre pelo qual passaram os católicos europeus no século XX, estes fatos não deixam de ser preocupantes.



Referências Bibliográficas:

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BLET, Pierre. Pío XII y la Segunda Guerra Mundial. Madrid: Cristiandad, 2004.

CORÇÃO, Gustavo. O Século do Nada. Rio de Janeiro: Record, 1972.

DELUMEAU, Jean. Á Espera da Aurora: Um Cristianismo para o Amanhã. São Paulo: Loyola, 2007.

GRAY, John N. Voltaire: Voltaire e o Iluminismo. Coleção Grandes Filósofos. São Paulo: UNESP, 1999.

MESSORI, Vittorio. Leyendas Negras de la Iglesia. 11. ed. Barcelona: Planeta, 2004.

ORTÍ, Vicente Cárcel. La Persecución Religiosa en España durante la Segunda República (1931-1939). 2. ed. Madrid: Rialp, 1990.

________. Mártires Españoles del Siglo XX. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1995.

RAUSCHNING, Hermann. The Voice of Destruction: Conversations with Hitler. New York: G.P. Putnam's Sons, 1940

REDONDO, Gonzalo. Historia de la Iglesia en España 1931-1939: Tomo II – La Guerra Civil (1936-1939). Madrid: Rialp, 1993.

ROPS, Henri Daniel. A Igreja das Revoluções (I). v. 8. Coleção História da Igreja. São Paulo: Quadrante, 2003.

________. A Igreja das Revoluções (II). v. 9. Coleção História da Igreja. São Paulo: Quadrante, 2006.

ROYAL, Robert. Os Mártires Católicos do Século XX: uma História do Tamanho do Mundo. Cascais: Principia, 2001.

SOCCI, Antonio. Los Nuevos Perseguidos: Investigación sobre la Intolerancia Anticristiana en el Nuevo Siglo del Martirio. Madrid: Encuentro, 2003.

THOMAS, Hugh. A Guerra Civil Espanhola. v. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.



25 de jan. de 2012

Perseguição aos católicos na Espanha (1931-1939)

Esta é a terceira parte do meu artigo sobre a perseguição aos católicos na Europa durante a primeira metade do século XX.

Primeira parte: Resumo e a Introdução


Segunda parte: URSS e países do Leste europeu

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A Espanha entrou no século XX seguindo sua tradição centenária de ser um dos países mais católicos da Europa. Não é possível conceber uma nação espanhola sem o catolicismo. Desde os visigodos, a Igreja marcou sua forte presença quando seus sínodos equivaliam à assembleias políticas e seus decretos tinham força de lei para todo o reino. A unidade espanhola foi construída durante a Reconquista quando os católicos retomaram das mãos dos muçulmanos a Península Ibérica. A unificação espanhola veio em 1492, com o casamento de Fernando de Aragão e Isabel de Castela, que receberam o título de “reis católicos”. Era impossível saber se o orgulho do povo provinha de ser católico ou ser espanhol. A relação entre a Igreja Católica e o Estado espanhol sempre foi tão profunda que muitas vezes se misturaram, ocasionando ora prejuízos, ora vantagens para ambos.

A Espanha entra no século XX mantendo sua longa tradição católica e em franca decadência política e econômica, em nada se parecendo com a sede de um império que abrangeu todos os continentes. Era certo que o país precisava modernizar-se política e economicamente e houve a tentativa de instaurar-se uma república no início do século, trazendo consigo a herança republicana da França, com todos os preconceitos intelectuais onde pregavam que qualquer avanço político-social só poderia ser levado adiante se a Igreja fosse eliminada. Conforme Royal (2001, p. 147), os “republicanos” espanhóis eram, em sua maioria, frutos das lojas maçônicas e compunham uma amálgama de ideologias, contendo poucos democratas e muitos radicais socialistas, comunistas e anarquistas, em geral, bastante violentos e ateus anticlericais.

Após o governo estabilizador do ditador Miguel Primo de Rivera (1923-1930) e os breves mandatos de Dámaso Berenguer e Juan Bautista Aznar-Cabañas marcados por distúrbios populares e levantes, as eleições regionais em abril de 1931 demonstraram o baixo apoio popular à monarquia e, para evitar um eminente derramamento de sangue, o rei Afonso XIII abdicou e exilou-se na Inglaterra. Tinha início, assim, a Segunda República e com ela a perseguição aos católicos da Espanha, onde “em tempo algum no curso da história da Europa, talvez mesmo de todo o mundo, viu-se um ódio tão apaixonado à religião e suas obras” (THOMAS, 1964, p. 271).

Foi durante o regime monárquico que um feroz anticlericalismo começou a ganhar formas, mas seus excessos foram contidos pela ditadura. Para os republicanos, derrubada a monarquia, era o momento de extirpar a Igreja do território espanhol. A propaganda anticatólica foi disseminada por todo o país através da publicação de jornais, revistas, apresentação de peças de teatro e discursos transmitidos pelo rádio. A prática seguia o itinerário já conhecido: apresentavam a Igreja como intolerante e opositora de qualquer mudança socioeconômica na sociedade espanhola, favorecida pelo governo com diversos privilégios, proprietária de enorme riqueza enquanto mantinha o povo na pobreza através de um controle insuportável exercido sobre o comportamento das pessoas e acusada de invariavelmente se colocar ao lado dos poderosos, ricos e opressores (ORTÍ, 1995, pp. 46-49). Em resumo, a Igreja Católica era tida como a principal causa de todos os males da Espanha, inimiga da República e do povo. Esta era a imagem que os laicistas forneceram da Igreja e que penetraram na consciência das massas populares. Contudo, afirma Ortí (1995):

Às acusações lançadas pelos anticlericais e inclusive pelos políticos moderados e de direita contra a Igreja na Espanha, deve-se responder que eram, em 1931, em parte exageradas e em parte gratuitas. Uma campanha propagandística cujo ensinamento e grosseria possam parecer hoje incríveis, mas que resultaram de provada eficácia. Cunhada a imagem de uma Igreja rica, poderosa e corrompida, inimiga da República e do povo, precisamente quando a Igreja estava realizando todo o possível para encaminhar os fiéis pela via pacífica da legalidade. A riqueza da Igreja estava nos tesouros artísticos de seus templos e em seu patrimônio documental conservado em arquivos diocesanos e paroquiais, em monastérios e em conventos. Mas o clero vivia na miséria e, pese a frequentes reclamações durante a ditadura, não se conseguiu elevar justamente a dotação econômica do mesmo. No entanto, a reiterada insistência do anticlericalismo conseguiu fazer o povo crer exatamente o contrário (ORTÍ, 1995, p. 48).

A data do início da perseguição à Igreja Católica é colocada frequentemente pelos historiadores após o Alzamiento, o levante militar comandado por Francisco Franco contra o governo e que foi o estopim da guerra civil, quando a Igreja foi vista como aliada do general. Porém, mesmo sem jamais ter havido um edito de perseguição, os fatos demonstram que esta teve início já em maio de 1931, posto que “as omissões e a tolerância à violência e certa colaboração oculta ou indireta provam que o governo estava pouco preocupado com a situação dos católicos” (ORTÍ, 1990, p. 18).

Em maio de 1931, um mês após o fim da monarquia, antes do martírio dos católicos, teve início o “martírio das coisas” (CORÇÃO, 1972, p. 214). Os discursos anticlericais e anticatólicos surtiram efeito sobre as massas populares. Milícias armadas pelo governo, conhecidas como “incontroláveis” (ROYAL, 2001, p. 143) avançaram sobre as igrejas, mosteiros e conventos que foram saqueados e incendiados sem que as forças de segurança do governo ou a Guarda Civil interviessem. Quase uma centena de edifícios eclesiais foi destruída por toda a Espanha sem que ninguém fosse punido ou, ao menos, fosse processado por estes atos (ORTÍ, 1995, pp. 54-55). Até 1936, seriam 411 igrejas destruídas. A declaração do ministro da guerra, Manuel Azaña, demonstra a posição do governo diante do vandalismo generalizado: “Todos os conventos da Espanha não valem a vida de um único republicano” (ROYAL, 2001, p. 143).

As destruições e assaltos só vieram a comprovar a pobreza em que viviam os clérigos e religiosas. Enquanto se esperava encontrar grandes tesouros em ouro e dinheiro nos conventos e casas paroquiais, os despojos mostraram-se insignificantes. A riqueza da Igreja Católica consistia em seu patrimônio cultural, nas bibliotecas, nas obras de arte, na beleza arquitetônica. Justamente o que foi destruído pelos vândalos (ORTÍ, 1995, p. 19). Mas o ano de 1931 não ficou apenas marcado pelo “martírio das coisas”. De acordo com Royal (2001, p. 140), sete freiras visitandinas que tiveram seu convento incendiado em Madrid foram sequestradas e executadas por anarquistas.

Em outubro, a Assembleia Constituinte começou a debater a nova carta magna da nação. Durante os debates, a questão religiosa foi o principal, senão o único assunto. Foram propostos vários artigos anticatólicos, como o fim das escolas confessionais, a retirada de símbolos religiosos em lugares públicos, a proibição do culto público e a supressão das ordens religiosas (ORTÍ, 1990, p. 142). Os católicos republicanos se sentiram traídos, mas a despeito de todos os protestos, a Constituição da República foi aprovada em dezembro de 1931 e, no dia seguinte, Niceto Alcalá Zamora foi eleito presidente.

A legislação abertamente antirreligiosa não se fez esperar. Em 19 de janeiro de 1932, os professores nacionais receberam uma carta circular do diretor geral do Ensino Primário que lhes obrigava a retirar das escolas todo símbolo religioso, porque a escola deveria ser laica, e, em aplicação do artigo 43 da Constituição, foram suprimidos os crucifixos. Esta medida, ainda que legal, provocou grande irritação entre as numerosas famílias cristãs, que sentiram sua fé profanada e a educação de seus filhos ameaçada. Em 24 de janeiro foi dissolvida a Companhia de Jesus, já que o artigo 26 da Constituição declarou a supressão das ordens religiosas que, além dos três votos canônicos, impusessem a seus membros outro especial de obediência a uma autoridade distinta da autoridade legítima do Estado (ORTÍ, 1995, p. 60).

Continua Ortí (1995, p. 61):

Em dois de fevereiro foi aprovada a lei do divórcio e no dia seis foram secularizados todos os cemitérios. A partir de 11 de março foi suprimida a disciplina de “Religião” em todos os centros docentes. Mas a disposição legislativa mais polêmica do primeiro biênio republicano foi a Ley de Confesiones y Congregaciones religiosas, aprovada pelas Cortes em 17 de maio de 1933, com grande satisfação dos partidos de esquerda e publicada na Gaceta, em três de junho, que chegou a ser qualificada como obra mestra da República. O presidente Alcalá Zamora se negou a assiná-la até o último momento por considerá-la persecutória e apurou o tempo legal para sua promulgação até dois de junho. [...] Esta iníqua lei limitou o exercício do culto católico e o submeteu, na prática, ao controle das autoridades civis, com ampla margem para o arbítrio pessoal dos poderes municipais.

Além das disposições constitucionais, diversas leis anticatólicas regionais e municipais surgiram pela Espanha, regulando e restringindo o exercício da Igreja Católica. A Espanha vivia uma crise de governo e de ordem. Na tentativa de restaurar a governabilidade, o presidente demitiu o chefe de governo e a formação do novo contava com grande número de católicos e ministros de direita, já que a Confederación Española de Derechas Autônomas (CEDA), tinha a maioria dos deputados nas Cortes. Era o que bastava aos revolucionários de esquerda em todo o país. Acusando a direita de ser golpista, em outubro de 1934, explode a revolução socialista na Catalunha e nas Astúrias. O governo bombardeia Barcelona e em dez horas a revolução catalã é vencida. Nas Astúrias a situação se agravou. Em diversas localidades, os comitês constituídos por violentos comunistas proibiram toda manifestação religiosa e queimaram templos.

Os sacerdotes e religiosos foram considerados inimigos do povo e foi dado ordem para que fossem todos detidos. Aqueles que não puderam fugir ou esconder-se foram presos em cárceres improvisados e submetidos à múltiplas humilhações e atropelos. Não se levou em conta nem a idade, nem qualquer outra consideração. Apesar das ordens recebidas, em vários lugares foram fuzilados sem piedade, algumas vezes em meio ao ódio desatado de turbas enaltecidas ou em ocasiões em que era feita a simulação de um julgamento popular onde os comitês erigiram-se em tribunais e os juízes foram os mesmos carrascos que executaram as sentenças (ORTÍ, 1995, p. 69).

A revolução socialista nas Astúrias durou quinze dias e foi derrotada pelo governo, deixando um saldo de 34 sacerdotes e religiosos mortos. Os corpos dos religiosos eram cortados em pedaços e pendurados em frente aos açougues com os dizeres: “carne de porco” (CORÇÃO, 1972, p. 245). Porém, o pior estava por vir. Em meio à turbulência política, em janeiro de 1936, o presidente dissolveu as Cortes. Dias depois, o líder da esquerda espanhola, Largo Caballero, afirmou que a implantação do marxismo era solução para a Espanha. No mês seguinte, as eleições mostraram que a direita espanhola e a Frente Popular – uma coligação de esquerda que reunia comunistas, socialistas e anarquistas – estavam praticamente empatadas revelando a profunda divisão que se encontrava a sociedade espanhola. A Frente Popular assumiu o governo sem a devida prudência que evitaria aprofundar o racha entre os espanhóis. Em março, alguns generais se reuniram em Madrid e avisaram que interviriam se o governo não contivesse as desordens, se ameaçasse implantar o marxismo e se Largo Caballero, conhecido como o “Lênin espanhol”, fosse nomeado primeiro-ministro.

Naquele mesmo dia, cinco igrejas, um convento, um seminário e uma escola católica foram incendiados em Cádis. Outras tantas igrejas e casas paroquiais foram saqueadas. Aconteceram vários atentados contra a vida dos sacerdotes. Outros foram ameaçados, presos e expulsos de suas casas. Imóveis eclesiásticos foram desapropriados por autoridades locais e em muitas localidades houve limitações ao culto, proibição de procissões e outras manifestações religiosas. Cemitérios e sepulturas foram violados. Igrejas eram invadidas e tinham seus objetos e as hóstias profanadas. Para fomentar o ódio, acusações infundadas eram levantadas contra a Igreja, como a que, em 14 de maio, correu por Madrid: as religiosas salesianas estavam distribuindo caramelos envenenados às crianças. Incitada pelos radicais de esquerda e maçons, a turba enfurecida ateou fogo ao colégio e feriu gravemente as religiosas (ORTÍ, 1995, pp. 72-73).

Em 13 de junho de 1936, o líder da direita, Calvo Sotelo foi assassinado. Dia 18 de junho, os generais decidiram organizar um golpe de Estado e, sob o comando do general Francisco Franco, os militares e nacionalistas puseram-se em marcha (ROYAL, 2001, p. 149). Com o Alzamiento, tinha início a guerra civil espanhola e com ela um massacre de católicos jamais visto na história da Europa. À medida que Franco e seus comandados ganhavam terreno, a Espanha se dividia entre duas zonas: nacionalista e republicana. A repressão política se deu nas duas zonas e em ambas houve abusos e crueldades. Todavia, apenas na zona republicana explodiu a perseguição religiosa, já esboçada desde a fundação da República, em toda a sua fúria. A Igreja Católica foi logo acusada de fomentar e apoiar os nacionalistas, ainda que jamais tivesse se pronunciado contra a forma republicana de governo e a declaração da hierarquia católica em apoio ao general Franco ocorreu somente um ano após o início da guerra, não sem motivos óbvios, posto que a Igreja Católica, após anos de limitações, afrontas e assassinatos de seus membros, na zona nacionalista era respeitada e protegida. De acordo com Redondo (1993, p. 19), assim que chegou a Madrid a notícia do Alzamiento, igrejas e conventos foram incendiados e alguns jovens da Ação Católica foram assassinados enquanto tentavam salvar os templos.

Os assassinatos em massa de católicos não teve outro motivo senão o simples fato de pertencerem à Igreja Católica. Os republicanos negaram que havia perseguição religiosa na zona que governavam alegando que os milhares de assassinatos de padres, religiosos, religiosas e leigos foram “acidentais” ou porque eram “fascistas”. Apenas na segunda quinzena do mês de julho, foram mortos 124 padres, 12 freiras e 24 leigos em Madrid, 197 padres e três carmelitas em Barcelona, 14 seminaristas em Lérida e o bispo de Sigüenza (ROYAL, 2001, pp. 152-153).

Os atos de vandalismo, comuns desde o início da República, varreram templos e casas religiosas. Quando detidos, mesmo em flagrante, eram inocentados pelos tribunais. Ortí (1990, pp. 240-241) relata que em todas as dioceses espanholas, igrejas foram parcial ou totalmente destruídas, profanadas e saqueadas, tendo seus objetos litúrgicos roubados ou destruídos. Os lideres republicanos incitavam os milicianos a destruírem as igrejas mesmo que se encontrassem diante de obras arquitetônicas e monumentos históricos.

Neste contexto se explica os fatos violentos e sacrílegos tão graves como a profanação direta da sagrada Eucaristia, realizada de mil formas: esvaziando os sacrários, destruindo os objetos consagrados, alvejando o Santíssimo Sacramento, comendo sacrilegamente o que tinha nos vasos sagrados e bebendo utilizando-se dos cálices, jogando e pisoteando pelas ruas as sagradas hóstias, convertendo as igrejas em quadras e os altares em cocheiras para animais (ORTÍ, 1995, p. 84).

Mas, apesar de as destruições de igrejas e objetos sagrados serem chocantes, nada foi mais trágico do que o assassinato de milhares de católicos. Tendo a perseguição religiosa durante a República atingindo toda a sua ferocidade após o início da guerra, nos esclarece Ortí (1995) que:

Em toda a zona republicana, o culto público esteve proibido durante quase três anos. Nenhum templo permaneceu aberto e nenhuma cerimônia religiosa pode ser celebrada. Somente ao final da guerra, em Barcelona, existiu uma relativa tolerância para os atos religiosos privados e se permitiu a celebração pelas ruas de um funeral, com sacerdotes e cruz alçada, que serviu para que a propaganda republicana difundisse fotografias fazendo crer a existência de uma liberdade religiosa que, na realidade, nunca houve. A Igreja não existiu oficialmente no território republicano a partir de 18 de julho de 1936 até o final da guerra, mas se organizou clandestinamente. Os eclesiásticos foram assassinados simplesmente pelo que eram: os bispos de Almería, Guadix e Teruel, porque eram pastores da Igreja; as carmelitas de Guadalajara e as Irmãs da Doutrina Cristã de Mislata (Valência), porque eram freiras; e os passionistas, os claretianos, os Irmãos de São João de Deus, de La Salle, os escolápios, os marianistas e os Operários Diocesanos, porque eram sacerdotes e frades. O mesmo deve ser dito do engenheiro Vicente Vilar, de Manises (Valência), assassinado porque era um católico militante e um fervoroso filho da Igreja. Nenhum destes esteve jamais implicado em lutas políticas nem intervieram nelas (ORTÍ, 1995, p. 29).

Milicianos patrulhavam as ruas e pessoas eram detidas simplesmente porque carregavam alguma medalha religiosa ou crucifixo no pescoço. Clérigos e leigos fugiam da zona republicana atravessando a fronteira com a França ou refugiavam-se em embaixadas (ROYAL, 2001, p. 146).

Os católicos eram submetidos a todos os tipos de torturas psicológicas e físicas, mutilações e insultos. Numa reedição dos espetáculos romanos, padres e religiosos eram jogados nas arenas para serem mortos por animais, os assassinos cortavam as orelhas dos sacerdotes e as exibiam como troféus, muitos eram obrigados a engolir terços e crucifixos ou eram-lhes introduzidos nos ouvidos até que o tímpano fosse perfurado. Cemitérios foram profanados e os corpos de padres e freiras eram expostos nas ruas com escárnio (THOMAS, 1964, p. 272).

Padres, religiosos e religiosas eram arrastados para fora de hospitais, seminários e escolas, sendo que, muitas vezes, professores foram executados com seus alunos. Padres e freiras eram torturados para que renunciassem à fé gritando “Viva o comunismo” em vez de “Viva Cristo Rei”, o lema dos católicos espanhóis, inspirados nos seus irmãos perseguidos do México. Freiras eram estupradas e sacerdotes, castrados. Todas as formas de tortura e de matar foram empregadas no trato com católicos, fossem leigos ou clérigos. Nem a crucificação foi descartada (ROYAL, 2001, pp. 154-156). E Messori (2004, p. 45) afirma que a inventividade em matar dos perseguidores era tanta que “chegou-se ao extremo de recuperar barbáries cartaginesas como a de atar uma pessoa viva a um cadáver e deixá-los ao sol até ambos apodrecerem”.

Conforme relata Royal (2001, p. 159), padres, freiras e leigos eram assassinados em retaliação por alguma ação militar dos nacionalistas. Quando a cidade de Irún foi tomada, os republicanos executaram seis claretianos, em Barcelona. Em Madrid, vinte e três adoradoras foram fuziladas porque um miliciano republicano foi morto na rua do apartamento onde estavam refugiadas.

A Guerra Civil Espanhola terminou em primeiro de abril de 1939, com a vitória dos nacionalistas liderados pelo general Francisco Franco, tendo um saldo assustador para a Igreja Católica na Espanha: entre sacerdotes, religiosas e religiosos, o número de mortos chegou em 6832, destes sendo treze bispos, 4184 padres diocesanos, 2365 religiosos, 283 religiosas e vários seminaristas. Para se ter uma ideia da dimensão do genocídio perpetrado na zona republicana, as dioceses de Barbastro, em Aragão, perdeu 123 dos seus 140 padres, ou seja, 88% do total do presbitério; de Barcelona, 279 (22% do total); de Valência, 327 (27% do total) e de Madrid-Alcalá, 1118 (30% do total) (ROYAL, 2001, p. 141).

É impossível calcular o número de leigos assassinados durante a perseguição, pois ainda não existem estatísticas confiáveis. Mas, afirma Ortí (1990, p. 234), que “foram provavelmente vários milhares, haja conta dos dados oferecidos em alguns martirológios diocesanos”. Segundo Redondo (1993, p. 23), na Catalunha, a perseguição atingiu fortemente os leigos e afirma que “da Federação de Jovens Cristãos da Catalunha, que agrupava cerca de quinze mil [membros], foram assassinados mais de trezentos”. Sobre o número de leigos assassinados, assegura Sánchez, apud. Royal (2001, p. 142):

Um número incalculável de leigos foi morto por causa de sua ligação à religião, quer por serem frequentadores assíduos da igreja, quer por fazerem parte de organizações religiosas fraternas ou caritativas, quer por serem pais, mães, irmãos, irmãs ou amigos de membros do clero. Alguns foram mortos por ostentarem um símbolo exterior de fé, como uma medalha ou um escapulário. Outros foram mortos por praticarem atos de caridade, por darem refúgio a clérigos que tentavam escapar à fúria. É impossível determinar o número de leigos chacinados pela sua fé.

A maior perseguição aos católicos no século XX ainda é causa de controvérsias. Os defensores dos republicanos afirmam que as repressões à Igreja foi um mecanismo de defesa da República já que os bispos apoiavam os nacionalistas e influenciavam com esta decisão a maioria dos católicos o que, consequentemente, veio a formar a base de sustentação de uma longa ditadura fascista e sanguinária. Redondo (1993, pp. 25-26) esclarece esta controvérsia:

A pergunta que é inevitável formular, ainda que não seja de modo algum fácil de responder, é a que se deveu esta particularmente brutal perseguição religiosa. Possivelmente cabe aduzir toda uma gama de explicações possíveis: a perseguição se produz dentro de uma revolução social que, segundo o parecer de quem a investigou com mais detalhe, nos primeiros meses teve uma violência maior que a Revolução Russa, que levou os comunistas ao poder em 1917. A revolução tentava alterar radicalmente a estrutura social espanhola e, na situação precisa do país em 1936, muitos puderam pensar que um dos primeiros passos para conseguir a mudança absoluta era a eliminação da Igreja da vida espanhola e, consequentemente, o assassinato massivo de sacerdotes, religiosos e leigos. Porque tal situação chegou a acontecer, pode, de forma indireta, ter alguma culpa o mesmo clero que talvez se mostrou em excesso apegado a uma determinada concepção de vida social, a concepção cultural tradicionalista tão remissa a introduzir alguma mudança por entender que o que existia era o que tinha que existir, e além disso, para sempre. Neste sentido podem seguir aventurando-se em suposições que, em qualquer caso e em última instância, são incapazes de explicar aquele tremendo estouro de ódio e crueldade. Também deve-se levar em conta a propaganda constante e caluniosa que tantos mantinham contra a Igreja e seus ministros há mais de cem anos e em diversos setores: desde as publicações mais vulgares até os ataques sutis. De alguma maneira, como uma confirmação de todo isto, há de se lembrar que o assassinato de tão grande número de pessoas inocentes se juntou as profanações e destruição das igrejas, a destruição sacrílega de imagens, por uma espécie de afã de riscar do mapa até a última lembrança de tudo o que supusesse para o homem uma advertência de que havia algo mais do que o puramente material e tangível. Frente ao ódio antirreligioso, as advertências insistentes de que a Igreja nada teve a ver nem com a preparação, nem com o desenvolvimento do Alzamiento militar não foram já não mais escutadas, mas sequer foram ouvidas.

A despeito de um julgamento sobre o franquismo que não nos cabe neste artigo, sabendo que as perseguições e os inflamados discursos anticatólicos começaram juntamente com a República em 1931, Ortí (1995, p. 83) afirma que a grande maioria das mortes de sacerdotes e religiosos apenas teve motivações antirreligiosas, sem nenhum indício de motivação política e que as execuções em massa de católicos sem distinção de sexo, idade ou classe social demonstram que os assassinatos ocorreram fora de qualquer contexto político.




19 de jan. de 2012

Perseguição aos católicos: URSS e países do Leste europeu

Esta é a segunda parte do meu artigo sobre a perseguição aos católicos na Europa durante a primeira metade do século XX. Leia a primeira parte que contém o Resumo e a Introdução

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A Revolução Francesa instaurou na Europa o modelo republicano como forma de governo. Em seu bojo, trazia o anticlericalismo clássico e o laicismo radical gestados, sobretudo, nas lojas maçônicas espalhadas por todo o continente. Mesmo em regimes democráticos e republicanos, como na França, a Igreja se viu privada de seus bens. Por exemplo, desde as leis anticlericais de 1905, a Igreja na França tem a custódia, mas não a propriedade de seus templos. Em Portugal, com o advento da república em 1910, leis anticlericais e anticatólicas foram postas em prática com o confisco das escolas confessionais, a expulsão de ordens religiosas e a proibição do uso de trajes clericais em público. Porém, os multiformes ideários maçônicos seriam apenas uma pequena amostra do que poderia ser feito à Igreja se uma verdadeira doutrina com sua forma antirreligiosa de ser e agir bem definida chegasse a ser posta em prática. E este momento chegou em 1917 com a Revolução Russa e a implantação do marxismo naquela que viria a ser conhecida como a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

A oposição à religião faz parte da essência filosófica de Karl Marx. Conforme o filósofo alemão, para que o homem – medida de tudo – se liberte, é necessário, entre outras coisas, que não se prenda em dogmas e instituições eclesiásticas. Como parte da corrente do humanismo ateu, considera Deus um entrave para o livre desenvolvimento humano. Para isso, importa que desapareça a religião, a Igreja e mesmo a idéia de Deus. No conceito teleológico marxista, a religião naturalmente desapareceria com o regime capitalista, posto que é uma superestrutura deste. O movimento dialético da História se incumbiria de eliminá-la. Porém, como ainda se encontra em fase de transição para esta sociedade comunista onde o capitalismo e suas superestruturas desapareceriam, faz-se necessário uma guerra ininterrupta contra a religião e a Igreja Católica é eleita como o principal inimigo a se abater. Serão usadas as tradicionais armas do laicismo, mas se superará em métodos mais sofisticados e violentos (ROPS, 2006, pp. 39-40). É o que verificamos no primeiro país onde o marxismo se saiu vitorioso.

Apesar de a grande maioria dos cidadãos da URSS pertencer à Igreja Ortodoxa Russa, havia uma parcela não pouco significativa de católicos latinos e greco-católicos nos territórios da Rússia, Lituânia e Ucrânia. Desde o tempo dos czares, os católicos nunca tiveram plena liberdade de culto na Rússia e em diversas ocasiões foram pressionados a incorporarem-se ao patriarcado de Moscou. A violência do período stalinista levou o grande público a imaginar que as perseguições e expurgos na URSS fossem obras exclusivas de Josef Stálin. Mas, desde os primórdios do regime comunista na URSS, as perseguições aos crentes de diversas religiões se fizeram presentes, sendo mais duras contra os católicos acusados simplesmente de servirem a uma “força” estrangeira: o Vaticano.

Lênin inventou os métodos de perseguição religiosa usados por todos os regimes totalitários do século XX. Declarava Lênin, apud. Royal (2001, p. 64) sobre a religião:

A religião é o ópio do povo. Esta afirmação de Marx é a pedra de toque de toda a visão marxista do mundo no que toca ao problema da religião, todas as religiões contemporâneas, todas as igrejas e todos os tipos de organizações religiosas serão sempre vistos pelo marxismo como órgãos da reação burguesa que servem para defender a exploração e a neutralização da classe trabalhadora [...] É preciso saber como lutar contra a religião [...] Essa batalha tem que ser entendida em ligação com a práxis concreta de um movimento de classes dirigido para a eliminação das raízes sociais da religião.

Logo após a Revolução, no início de 1918, os fundos das igrejas e mosteiros foram confiscados. Templos e seminários foram nacionalizados e entregues aos sovietes locais e a Igreja passou a ser proibida de manter alguma propriedade. Publicações e bibliotecas católicas seriam dirigidas por comissários do povo. Escolas católicas passaram ao Estado ou foram fechadas. Só em São Petersburgo, 20 mil crianças católicas das 11 escolas primárias ligadas à Igreja ficaram privadas de receber educação religiosa. Um grave ataque contra a liberdade de consciência (ROYAL, 2001, p. 67).

Na grande fome de 1921-1922 que vitimou milhões de soviéticos, Lênin aproveitou a ocasião para levar a cabo o confisco dos bens da Igreja. A Santa Sé não poupou recursos humanos e financeiros, chegando a alimentar meio milhão de pessoas diariamente na URSS. Se o argumento do confisco era o de alimentar a população, o Vaticano propôs comprar os vasos sagrados e demais utensílios religiosos confiscados. Tudo em vão. A fome era somente mais um pretexto para dar continuidade à limpeza religiosa. Lênin expulsou os religiosos que alimentavam a população e ordenou a execução de membros do clero que protestasse contra o confisco, solicitando relatórios diários sobre o número de sacerdotes executados (ROYAL, 2001, p. 65).

No final de 1922, todas as igrejas de Petrogrado foram fechadas pelo exército e todo o clero, incluindo o bispo, foram presos e enviados para Moscou. Por toda a URSS, bispos e sacerdotes, acusados de agir em favor da Polônia ou do Vaticano, foram presos e enviados aos campos de trabalho forçado. Outros, brutalmente assassinados. Católicos de origem polonesa e rutenos da Ucrânia foram massacrados, outros enterrados vivos. Na costa do mar Negro, uma população católica descendente de alemães composta por 200 mil pessoas, foi deportada para a Sibéria e Cazaquistão. Mesmo com a precária situação econômica, teve início uma maciça propaganda ateísta que consumia grandes somas de dinheiro para desacreditar a Igreja com piadas grosseiras e falsas acusações contra o clero com o intuito de apresentar a Igreja como a responsável pelos males e que, portanto, deveria ser odiada. Acusados de conspiração ou atos de terrorismo (o que correspondia a ensinar o catecismo, por exemplo) as condenações iam da prisão perpétua à pena de morte. Igrejas, hóstias e objetos religiosos foram profanados. Na Ucrânia, das 68 igrejas, 52 tiveram seus objetos e fundos roubados pelo Estado (ROYAL, 2001, pp. 68-72).

Já em 1923, o número de padres católicos na Rússia caiu de 245 para setenta. Entre 1917 e 1925, duzentos mil católicos desapareceram sem deixar rastro. Em Moscou e São Petersburgo, centenas de leigos, religiosos e sacerdotes, incluindo toda a comunidade de freiras dominicanas foram presos e até hoje não se conhece seu destino final. Em 1924, não havia sequer um único bispo católico em liberdade na URSS (ROYAL, 2001, p. 73). Dez anos mais tarde, das 3300 igrejas e duas mil capelas católicas existentes na Rússia pré-revolucionária, ficaram abertas apenas duas que eram usadas pelo governo para demonstrar á comunidade internacional a liberdade religiosa existente na URSS.

Durante o regime de Stálin, o ditador levou a diante a limpeza religiosa no país. Cooptou a grande maioria da Igreja Ortodoxa Russa, principalmente após seu ato nacionalista contra os nazistas em 1943 e pressionava os católicos a abandonar Roma e aderir à Moscou. A mão de Stálin pesou principalmente sobre a Igreja Católica Grega, na Ucrânia. Em 1929, foi deflagrada uma perseguição aos padres católicos da Ucrânia. No ano seguinte, centenas de leigos e 35 padres foram presos e enviados para as ilhas Solovetski, no mar Branco, um campo de concentração para onde a maioria dos religiosos era enviada para trabalhos forçados.

Os soviéticos queriam que os prisioneiros construíssem um canal entre o mar Branco e o Báltico. Frequentemente, o trabalho consistia em ordens do dia extenuantes, que determinavam o transporte de blocos de gelo ou de neve ou o corte de madeira. A alimentação era tudo menos adequada ao tipo de trabalho e aos rigores do clima. Os barracões onde dormiam estavam de tal maneira sobrelotados que se tornava difícil respirar lá dentro. O sistema tinha sido pensado por forma a vergar lentamente os prisioneiros, com exceção dos mais fortes, extorquindo-lhes a maior quantidade possível de trabalho manual durante 16 horas por dia, sete dias por semana. Em conclusão, tratava-se de uma verdadeira escravatura (ROYAL, 2001, p. 83).

Sacerdotes e freiras eram retratados como grupos fanáticos que planejavam atos terroristas, atentados contra Stálin e o regresso ao capitalismo. Homens e mulheres da Igreja eram presos e torturados com choques elétricos e banhos frios em pleno inverno russo para que delatassem pretensos planos conspiratórios contra o regime. Sacerdotes greco-católicos tinham seus filhos ameaçados de morte. Muitos morreram nestas sessões ou acabaram seus dias num manicômio.

Em 1929, os cultos religiosos foram proibidos até mesmo nos campos de concentração. Os religiosos presos foram proibidos de usar o hábito e fornecer qualquer auxílio espiritual aos outros presos. Mas o pior ainda estava por vir. Em 1937, Stálin determinou que os ministros religiosos fossem presos “para que sejam imediatamente executados os elementos mais perniciosos através de medidas administrativas adotadas nas sessões das troikas” (WENGER apud. ROYAL, 2001, p. 63) e a medida também foi estendida aos que já estavam presos. Nicolai Yezhov, ministro de assuntos internos, se encarregou de aplicar tal determinação contra homens e mulheres da Igreja em prisões, campos de trabalho forçado, colônias e que já tivessem sido julgados por crimes ou se encontrassem em liberdade depois de cumpridas as penas. Foram rejulgados e a maioria condenada à morte (ROYAL, 2001, pp.63 e 78).

Se a perseguição à Igreja na Ucrânia já era uma realidade desde 1929, onde todos os seminários foram encerrados, os periódicos católicos proibidos de circular e as escolas católicas suprimidas, após a Segunda Guerra a situação se tornou insustentável. Acusados de colaboracionismo com os nazistas – de fato, no princípio, os nazistas foram vistos pelos ucranianos como libertadores do jugo soviético – e de serem agentes da Polônia e do Vaticano, os greco-católicos passaram a ser reprimidos sistematicamente pelo regime soviético, sobretudo na Ucrânia Ocidental, onde o número de católicos era maior.

Em 14 de março de 1945, Georgii Korpov, presidente do Conselho para os Assuntos da Igreja Ortodoxa Russa, apresentou a Stálin a Instrução 58 que propunha liquidar a Igreja Católica Grega na Ucrânia. Utilizando-se de católicos simpatizantes do regime, pressionaria os greco-católicos a unirem-se ao patriarcado de Moscou. A estratégia incluía uma série de propagandas anticatólicas acusando a Igreja Católica de colaborar com os nazistas durante a guerra e com o “império americano” no pós-guerra e, portanto, inimiga do povo ucraniano e promotora de seus males (ROYAL, 2001, pp. 102-103). No mês seguinte, os bispos se recusaram a aderir à Igreja Ortodoxa e foram presos. Somente um bispo ficou em liberdade, Teodor Romzha, que foi assassinado num hospital por uma agente da KGB disfarçada de enfermeira. A prisão era um claro sinal do destino que aguardava clérigos e leigos que recusassem a assimilação. Conforme afirma Royal (2001, p. 104), estes bispos foram condenados a longos anos de prisão. Uns morreram durante sessões de tortura, outros acabaram suas vidas nos campos de concentração.

No ano seguinte, veio o golpe final: a Igreja Católica na Ucrânia era composta por quatro dioceses, oito bispos, 2772 paróquias, 4119 igrejas e capelas, 142 mosteiros e conventos, 2628 padres diocesanos, 164 monges e 773 freiras, 229 seminaristas e mais de quatro milhões de fiéis. Foi simplesmente abolida, posta na ilegalidade. Bispos, padres e leigos que resistiram acabaram em campos de trabalho forçado, mortos pelo cansaço, executados ou exilados (ROYAL, 2001, p. 94).

Como a maioria dos registros das ações contra os católicos na URSS continuam indisponíveis aos pesquisadores é difícil afirmar quantas foram as vítimas da repressão soviética.

O que podemos, contudo, afirmar com segurança, à luz de documentos já disponibilizados, é que 344 clérigos, nos quais se incluem basicamente bispos, padres diocesanos e membros de ordens religiosas, constam dos registros oficiais como “reprimidos”. Só na Ucrânia, mais meio milhão de leigos foi preso ou mandado para o exílio interno, parte dos quais, sem dúvida, exclusivamente por motivos religiosos (ROYAL, 2001, p. 109).

Nos países comunistas do Leste europeu, os católicos eram proibidos de ascender profissionalmente. A vida daqueles que faziam parte da Igreja era obstaculizada nas universidades. As crianças eram desencorajadas a aprender religião desde o ensino primário, posto que a continuação dos estudos universitários podia ser barrada por este motivo. Os católicos formavam uma casta inferior nos países comunistas ocupando os postos de trabalho mais humildes e mal remunerados. Um verdadeiro apartheid.

Após a Segunda Guerra Mundial, o Leste europeu caiu sob o domínio do comunismo e entrou na órbita da URSS. Na Polônia, entre 1945 e 1947, mesmo anterior a perseguição aberta, cerca de duzentos padres mais influentes simplesmente desapareceram (ROYAL, 2001, p. 270). Após as eleições de 1947, o regime comunista passou a tratar a Igreja como era típico, confiscando seus bens, expropriando hospitais e escolas religiosas e proibindo publicações católicas. A propaganda governamental, assim como na Ucrânia, acusava a Igreja de colaborar com os nazistas e o clero, de imoralidades. No ano seguinte, quatrocentos padres estavam encarcerados e um entre eles já havia sido condenado à morte (ROYAL, 2001, p. 270).

Na Hungria, a Igreja Católica sempre esteve próxima ao governo e este relacionamento manteve-se com o regime comunista. Contra este improvável casamento, levantou-se o cardeal primaz da Hungria, Joszef Mindszenty, que acabou preso com outros seiscentos padres. Torturados por quarenta dias ininterruptos e ameaçados de deportação para trabalhos forçados na Sibéria, capitularam. Sendo assim, a Igreja perdeu sua força na Hungria tendo como resultado o confisco de todas as escolas religiosas e o banimento de todas as ordens religiosas húngaras fazendo com que dois mil religiosos tentassem fugir do país. Muitos foram presos e mortos (ROYAL, 2001, p. 273).

Em 1950, o governo da Tchecoslováquia eliminou as ordens religiosas transformando os mosteiros e conventos em campos de concentração onde os próprios religiosos eram mantidos presos e condenados a trabalhos forçados. Setenta e cinco por cento dos quinze mil religiosos, metade dos sete mil padres e milhares de leigos foi condenada a trabalhos forçados em regime de escravidão e enviados às minas e pedreiras do país (ROYAL, 2001, p. 277).

Na Albânia, o regime comunista aplicou os métodos de perseguição tradicional: fechou jornais católicos, confiscou bens da Igreja, nacionalizou escolas, creches e hospitais. Padres e leigos que protestavam eram presos e expulsos do país se fossem estrangeiros. A Ação Católica foi desmantelada. O governo tentou criar uma igreja nacional pressionando o clero a abandonar a comunhão com Roma. A hierarquia católica recusou com veemência. As conseqüências da recusa não demoraram a vir: padres e religiosos estrangeiros foram expulsos; em 1945, a Companhia de Jesus foi considerada ilegal; em 1947, foi a vez dos franciscanos serem banidos do país. Membros do clero foram presos, torturados e condenados à morte. Certa vez, vinte clérigos foram fuzilados de uma só vez. As execuções eram transmitidas pela rádio. Quem escapasse da morte era condenado a trabalhos forçados (ROYAL, 2001, p. 293). Em 1948, havia somente um bispo vivo e livre na Albânia. Mas não era apenas o clero que sofria todas estas atrocidades. Milhares de leigos que não se declararam publicamente contra o clero foram presos e torturados. Não se sabe o número exato de leigos executados, mas as penas variavam entre o fuzilamento e a fogueira. Em 1949, o confisco das propriedades da Igreja foi levado a cabo. Templos eram convertidos em prédios públicos. A catedral de Shkodra tornou-se um ginásio de basquete. Freiras foram expulsas dos conventos e proibidas de usarem o hábito. O governo exigiu que as instituições religiosas apresentassem suas constituições para que fossem oficializadas. Todas foram aprovadas, menos as dos católicos (ROYAL, 2001, p. 295).

Tal como todos os outros países comunistas, a Albânia declarou que a família era “reacionária” e tentou fazer com que as crianças informassem as entidades oficiais quando os pais lhes dessem instrução religiosa em casa. Os pais foram proibidos de dar aos filhos nomes “religiosos”. Uma família que rezasse o terço em casa podia apanhar cinco anos de prisão; ensinar o sinal da cruz a uma criança podia implicar um castigo semelhante. A mera posse de literatura religiosa podia levar à pena de morte. [...] Dos 156 padres existentes antes do início da perseguição, 65 foram martirizados e 64 morreram durante ou após o encarceramento (ROYAL, 2001, p. 298).

A Lituânia sempre foi conhecida pelo fervor religioso de sua população. A grande maioria do povo lituano era formada por católicos quando começaram as perseguições na década de 1940. O sentimento católico era um obstáculo ao domínio da URSS. Mais de um milhão de lituanos foram enviados aos campos de concentração soviéticos. A perseguição na Lituânia seguiu o conhecido roteiro: confisco de escolas e instituições católicas e fechamento das publicações da Igreja; o casamento religioso foi considerado ilegal e os feriados religiosos abolidos. Durante apenas um ano, “todos os padres do país experimentaram a detenção, a prisão ou os interrogatórios” (ROYAL, 2001, p. 307). Cerca de 150 dentre eles foram torturados para que abandonassem a Igreja. Vários morreram. Após a Segunda Guerra, a Igreja na Lituânia viveu um curto período de paz. Porém, a perseguição retomou sua força. Sacerdotes eram proibidos de dar assistência religiosa a prisioneiros e enfermos. Os professores eram obrigados a ensinar o ateísmo. Os seminários foram encerrados. O governo proibiu as celebrações religiosas e impôs impostos abusivos sobre os edifícios da Igreja. Todos os bispos, os superiores de ordens religiosas e grande número de padres foram presos (ROYAL, 2001, p. 309). Em setembro de 1947, os lituanos escreveram clandestinamente uma carta ao papa Pio XII denunciando as atrocidades contra o povo.

Entre os abusos especificamente religiosos, a carta refere à pressão para criar uma igreja nacional separada de Roma, a prisão sumária e o desaparecimento de padres que se recusaram a tornarem-se informantes do regime, a vigilância generalizada das atividades religiosas, a supressão de associações católicas, bem como da imprensa, das escolas, dos seminários, dos hospitais e de obras de caridade, entre muitas outras coisas. Os detidos eram submetidos a torturas e muitos deles enlouqueceram, a comida eram-lhes tirada e o sono interrompido; a sentença mais “simpática” correspondia a dez anos na Sibéria. Aqueles que sobreviviam à viagem de um mês praticamente sem água nem alimentos não duravam, regra geral, mais de cinco anos. Por meio destes meios diretos e indiretos, mas sempre cuidadosamente ocultados, os soviéticos conseguiram ver-se livres de muitos clérigos e leigos sem darem origem a célebres mártires (ROYAL, 2001, p. 309).

Em 1948, o Partido Comunista da Romênia assume o poder e impõe o regime marxista à nação. Havia um milhão e meio de católicos no país. No final do regime, restarão apenas 500 mil. A Igreja Católica na Romênia era formada por católicos de rito latino e de rito grego. O governo cooptou a Igreja Ortodoxa Romena e esta, sob pressão, convocou um sínodo para declarar que os católicos gregos estavam integrados à ela. Assim, “em 1948, a Igreja Católica Grega foi liquidada, as milhares de igrejas que detinham foram confiscadas e convertidas para o uso dos ortodoxos” (ROYAL, 2001, p. 316). Havia seis bispos greco-católicos na Romênia e todos foram presos acusados de traírem à nação por estarem a serviço de uma força estrangeira, o Vaticano. Sofriam pressão para aderirem à Igreja Ortodoxa. Todos rejeitaram e morreram na prisão. Seiscentos padres foram presos; metade deles morreu na prisão. Nos presídios, eram torturados para que se “convertessem” à ortodoxia. A inventividade das torturas era enorme: ia dos tradicionais choques elétricos e queimaduras a estadias em esgotos infestados por ratazanas. Um quarto dos sacerdotes cedeu, passando à Igreja Ortodoxa.

Não foi apenas a Igreja Católica Grega que sofreu. A Igreja Católica de rito latino era vista como “o único obstáculo à democracia na Romênia”, como afirmou o secretário-geral do Partido Comunista, Gheorghiu-Dej, “e que o governo não permitiria que os cidadãos católicos obedecessem às ordens de líderes estrangeiros, como o Papa, que agia a serviço dos Estados Unidos” (ROYAL, 2001, p. 321). Vários sacerdotes desapareceram e foram assassinados. Segundo Royal (2001, p. 322), “em junho de 1949, não havia nenhum bispo católico romano em atividade na Romênia, quase todas as igrejas estavam fechadas, os católicos romanos tinham uma marca especial no bilhete de identidade”. Dezenas de paróquias estavam ocupadas por milícias.

Apesar da violência que em nada deixa a desejar quando comparada a que sofreram outros grupos religiosos ou raciais, o número de vítimas nas perseguições aos católicos na URSS e nos países comunistas do Leste europeu ainda são desconhecidos. A historiografia pouco se ocupa em pesquisar e relatar o sofrimento imposto aos católicos nos países onde os regimes marxistas triunfaram. A memória dos inúmeros roubos, expropriações, abusos, torturas e assassinatos é mantida, sobretudo, por historiadores que tenham alguma ligação com a Igreja Católica.




13 de jan. de 2012

Jean Wyllys avisa: O Papa que se cuide!

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL – RJ) ficou indignado após o Papa Bento XVI declarar o que todo o mundo está cansado de saber: as práticas homossexuais são pecados e não se deve promovê-las com a legalização das uniões homoafetivas. Grande novidade! Mas o deputado, pela internet, atacou gravemente o Papa: “O papa suspeito e acusado de ser simpático ao nazismo disse que o casamento civil igualitário é uma ameaça à humanidade. Ameaça ao futuro da humanidade são o fascismo, as guerras religiosas, a pedofilia e os abusos sexuais praticados por membros da Igreja e acobertados por ele mesmo. Espero que os estados laicos do Ocidente não cedam à pressão desse genocida em potencial”.

Se as declarações do Papa não foram nenhuma novidade, as acusações do deputado também não é. Aliás, são as mesmas acusações de sempre. Interessante é notar que os Papas se sucedem e as acusações continuam as mesmas: fascista não era Pio XI? Não era Pio XII, o nazista? Após a acusação do nobre deputado, pergunto eu: ele incomoda Bento XVI? De maneira alguma. A diferença entre os dois, mal comparando, está como do diabo para Deus. Acusado pela própria consciência, Jean Wyllys ataca o Papa. O Sumo Pontífice nem toma conhecimento de quem seja ele. Seu discurso foi corajosamente dirigido ao corpo diplomático do Vaticano. O deputado fala para meia dúzia de “fãs” em um ataque de chilique na internet. Como comparar o professor doutor Joseph Ratzinger, um dos maiores intelectuais e teólogo do século XX, poliglota, autor de dezenas de livros e centenas de artigos, com Jean Wyllys? Vejamos: Jean Wyllys era tido como um intelectual que participou do Big Brother Brasil – se bem que, comparado aos outros participantes, até um chimpanzé bem adestrado passa por intelectual.

Como professor (sem trocadilhos, ok), esperava-se mais de Jean Wyllys. Sua capacidade de argumentação é essa? Só isso para um intelectual? Está certo que Jean Wyllys é graduado em jornalismo, ou seja, segundo o STF, exerce uma profissão, cujo exercício não requer nem mesmo um diploma. Mas, continuemos. Como já foi dito, Jean Wyllys participo do BBB. Que professor fica três meses trancafiado numa casa? E seus alunos, como ficam nisso tudo? Parece que suas aulas não eram tão prescindíveis assim e, após vencer o programa, foi trabalhar com Ana Maria Braga. Mas também fracassou lá. Não me admira. O Louro José me parece mais inteligente. Assim, como ex-BBB, tentou a vida na política (este artigo parece coisa da Desciclopédia, mas não é).

Candidatou-se a deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro. Crendo na sua “grande” popularidade demonstrada nos milhões de votos na final do BBB, Jean Wyllys achou que ia ser moleza. Talvez se esqueceu que o mesmo público que lhe deu um milhão de reais no reality show, deu R$ 1,5 milhão para o “homofóbico” Marcelo Dourado. Resultado: recebeu pífios 13.018 votos. Não recebu os votos de protesto ou de zombaria como recebeu o Tiririca, não foi votado por ser uma pseudo-celebridade. Foi solenemente ignorado. O referido deputado não tem representatividade. Não representa ninguém. Graças à expressiva votação de seu colega de partido, Chico Alencar, foi eleito pelo quociente eleitoral e não pelo povo. Assim, Jean Wyllys quer mostrar serviço. E uma maneira encontrada foi descarregar seu preconceito contra os religiosos. Já sugeriu censurar pastores e padres. Sugeriu cassar a concessão de canais que veiculam programas religiosos que mencionem o homossexualismo. O que incomoda Jean Wyllys não são os pastores, o Papa, a Bíblia, mas sua própria condição.

Entre as falácias do paseudo-intelectual, tenho que concordar com algumas verdades. Realmente o fascismo, as guerras religiosas, a pedofilia e os abusos sexuais são ameaças para a humanidade. Mas também são o comunismo, cujo deputado é adepto, o homossexualismo, a destruição da família, o aborto e todas as formas de atentados contra a vida. A outra acusação soa até como piada: “genocida em potencial”. O que seria isso? Genocidas têm algo em especial? Creio que não. Em potencial podemos ser qualquer coisa, boas ou más. Ou não? Se procurarmos motivações para genocidas podemos analisar alguns casos específicos: há muitos historiadores que afirmam que Alexandre Magno era gay e suas campanhas pela Ásia massacraram um milhão de pessoas; o general romano Júlio Cesar mantinha relações homossexuais e exterminou a população gaulesa; o imperador Adriano, homossexual público, esmagou os judeus e extinguiu a Judeia; alguns estudos sérios apontam o homossexualismo de Adolf Hitler! Pois bem, seria o homossexualismo um desencadeador das práticas genocidas em potência dentro de todos os seres humanos? Pouco provável, não?

Vamos ao paradoxo do ex-BBB, ex-Mais Você, Vossa Excelência, o deputado federal Jean Wyllys: começa pelo nome de seu partido PSOL, Partido Socialismo e Liberdade. Convenhamos que somente numa sigla de partido os dois conceitos podem aparecer juntos. Exemplos temos aos montes e nem precisamos citar a falecida URSS: aí está Cuba, China, Coreia do Norte que não nos deixam mentir. Jean Wyllys é filiado a um partido comunista. Talvez ele se esqueça que o homossexualismo era visto pelos marxistas como a maior prova da degeneração que se encontrava a sociedade capitalista. O homossexualismo era crime previsto na constituição da URSS; em Cuba, homossexuais eram enviados para campos de trabalho forçado, mortos ou exilados. O deputado não sabe destas ações de seus correligionários? Caríssimo deputado, agradeça a Deus – caso creia Nele – por viver em um dos “países laicos do Ocidente”, no mundo livre criado pelo cristianismo, onde transar com qualquer um nem ilegal é. Que bom vivermos em plena democracia onde cada pessoa pode expressar suas ideias e opiniões. O que é certo é que Jean Wyllys passará pela Câmara como mais um deputado exótico, como o índio Juruna e o palhaço Tiririca.

Para terminar, afirmo que as acusações contra a Igreja taxando-a de homofóbica é infundada. Se a Igreja (o Papa, os bispos, os padres e demais fieis) odiasse àqueles que praticam atos homossexuais, não se preocuparia com suas almas, ao contrário, deixando-os em seus pecados, veria, com prazer, todos condenados eternamente ao inferno. A Igreja oferece outro caminho àqueles que sofrem (é exatamente esta a palavra) no homossexualismo. As pessoas homossexuais são livres, podem escolher a vida que querem viver sem patrulhamento ideológico, sem pressão de pretensos grupos que querem defendê-las. Não precisam se “assumir”, manchar suas almas. Há outro caminho: Jesus Cristo, onde todos podem viver na graça e no Espírito de Deus.