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14 de jun. de 2013

Não é o subdesenvolvimento que é um escândalo, o desenvolvimento é que é um milagre

Ora, o fosso que separa os países “desenvolvidos” dos países pudicamente chamados “em vias de desenvolvimento” foi cavado durante um período ínfimo no que se refere à duração da existência humana. No momento da irrupção dos navegadores ocidentais, as mais primitivas das povoações da América do Sul ou da África Equatorial haviam chegado ao nível das populações da Europa dois mil anos antes de nossa era; os chineses tinham atingido um patamar comparável ao da França de Luis XIV. As defasagens podem ser facilmente explicadas por circunstâncias geográficas ou históricas, que estimularam uns e tornaram outros mais lentos, provocaram o isolamento destes, a irritação daqueles. Trinta e cinco séculos de diferença com relação a três milhões e meio de anos: o milionésimo da existência do homem. Nada que possa justificar o sentimento de uma superioridade racial do homem branco sobre o homem de cor.

A Contradição Colonial


A essa fé quase messiânica do Ocidente em si mesmo coloca-o em plena contradição. Posiciona-se como adversário dos seus próprios princípios universalistas compartilhados por toda a Europa, e que a revolução Francesa cristalizou na França. Nega a liberdade, a igualdade e a fraternidade às populações que submete à sua dominação. Essa contradição é tao profunda, que o Ocidente acabou por odiar a si próprio por ter sido colonizador. No momento em que, ao descolonizar, deveria sentir-se novamente em harmonia com seu gênio, ele se flagelou.

Por seu lado, como poderiam os países dominados não se chocarem diante da brutalidade com a qual o Ocidente devastara suas tradições? São orgulhosos, e com razão: um povo que não tem orgulho de si mesmo perde o prazer de viver. Principalmente se for como na Índia ou na China, o centro de uma civilização antiga e refinada. A revolta dos povos do Terceiro Mundo contra o Ocidente era uma reação sadia: a rejeição de uma dominação estrangeira que negara sua identidade. Para qualquer povo que tenha os meios de formar uma nação, a independência não tem preço. Mas em virtude de a necessidade de independência ter suas raízes em profundezas passionais, a descolonização provocou uma explosão de ideias falsas. 

Os marxistas ou “marxizantes” conseguiram convencer não apenas o Mundo Socialista e o Terceiro Mundo, que não queriam outra coisa senão acreditar neles, como também a intelligentsia do Ocidente: o desenvolvimento dos países colonizadores e o subdesenvolvimento dos colonizados seriam o resultado da pilhagem dos segundos pelos primeiros. Esquece-se que a miséria do Terceiro Mundo preexiste à colonização – e sobreviveu a ela, ou, mais frequentemente, renasce depois dela. O subdesenvolvimento, que  deveríamos chamar de não-desenvolvimento, é um fenômeno permanente e universal. 

Desde que o homem apareceu na Terra, a ignorância, as epidemias, a sujeição – escravidão, submissão das mulheres, dependência de um grupo em reação da outro -, a subnutrição, o medo da doença, da fome e da guerra, são o lote comum da espécie. Não é o subdesenvolvimento que é um escândalo, o desenvolvimento é que é um milagre – e muito recente. 

[...]

Naturalmente o irrompimento de uma civilização avançada desestabilizou e finalmente destruiu, do interior, as sociedades de costumes. Mas não se deve idealizá-la retrospectivamente. Na China, tanto quanto nas sociedades primitivas da África, da Ásia, da América ou da Oceania, terríveis flagelos precedera, a irrupção ocidental: a escassez, a lepra, a malária, a mortalidade infantil, a mutilação das mulheres, sem falar do canibalismo [...] nada disso é consecutivo, mas anterior à colonização. Tudo isso a colonização fez recuar. 

O colonizador não trouxe a miséria ao colonizado, mas uma submissão, insuportável e debilitante com o correr do tempo. Aqui reencontramos a contradição: essa submissão não era melhor meio de transmitir ideias que impulsionaram o Ocidente. Não era pela colonização que o Ocidente poderia introduzir sua “civilização” – mas pelo que fundamentava essa civilização: a liberdade e o intercâmbio. (Alain Peyrefitte, O império imóvel, ou o choque dos mundos)

Alain Peyrefitte. O império imóvel, ou o choque dos mundos, p. 588-590

20 de nov. de 2012

Petição contra a Usina de Belo Monte


Esses dias vejo rodando pelo Facebook uma petição contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu. Já assinei várias destas petições sobre outros assuntos. É uma boa forma de se manifestar, mas o efeito prático é nenhum. 

Sobre o assunto não tenho opinião formada, pois o assunto não é tão simples, a começar pelos que são contra a usina: obscuras ONG's estrangeiras apoiadas por artistas hollywoodianos que defendem a internacionalização da Amazônia; antropólogos que se esforçam para que ribeirinhos e índios vivam como tal, nem que eles não queiram; artistas e intelectuais que moram em Ipanema ou no Leblon e só conhecem a "natureza" pelas janelas de suas coberturas; o holandês Greenpeace que defende a preservação de 61% dos nossos biomas, mas não se ocupa dos 0,8% do que sobrou de florestas em seu país de origem.

A construção da Usina de Belo Monte se arrasta por duas décadas. Depois de tantos esforços, sua construção foi autorizada pelos órgãos ambientais com a obrigação de reduzir ao máximo os impactos ambientais e sociais. É impossível construí-la sem causar algum impacto. Aliás, é impossível qualquer atividade humana sem que estes impactos ocorram. 

Tudo deve ser levado em conta, principalmente os diretamente afetados e infinitamente mais importantes do que árvores e animaizinhos: as tribos indígenas e comunidades locais que dependem da extração e da pesca e das únicas rotas de transporte, os rios. A vida destas pessoas pode ser seriamente comprometida, levando-os à miséria extrema.

É fato que o Brasil escolheu o desenvolvimento industrial e para continuá-lo, necessitará de energia elétrica. É fato que as bacias hidrográficas brasileiras estão saturadas e não há outra região para se construir hidrelétricas senão a Bacia Amazônica; é fato que não há outra alternativa de geração de energia que seja limpa e rentável: as usinas eólicas dependem de ventos fortes e constantes e a energia elétrica que produzem é cara tanto quanto a das usinas fotovoltaicas. Restariam as usinas termelétricas (nos últimos anos o governo do PT investiu pesado na construção destas) altamente poluidoras e as usinas nucleares, que produzem energia elétrica barata, mas trazem todos os riscos que conhecemos. 

Portanto, é preciso pensar duas vezes antes de assinar a tal petição, ainda que, repito, na prática não surtirá absolutamente nenhum efeito. Além de todos os argumentos pró e contra que nos levem ou deixem de assinar, também temos que pensar na nossa hipocrisia. O desenvolvimento econômico do Brasil está baseado no consumo. E o governo incentiva dia-a-dia o aumento do consumo. E o pior: CONSUMIMOS! E o que mais consumimos são aparelhos eletroeletrônicos, bugigangas tecnológicas, temos trocentos celulares, IPad, IPod, tablets, PC's, notebooks, TV's, etc, etc. O acesso a toda essa tralha nunca foi tão fácil no Brasil. Com isso, a demanda por energia elétrica aumentou, tanto nas fábricas como nas nossas casas. 

Como manter nosso nível de consumo, nosso "conforto" sem que haja o aumento de produção de eletricidade? Os culpados são as empreiteiras e o governo? Ou somos tão alienados a ponto de não fazer ideia de como a eletricidade chega em nossas tomadas? Antes de assinar comodamente uma petição que não levará a nada talvez por desencargo de consciência, sugiro atitudes mais sérias: utilizem apenas o necessário, não saiam comprando aparelhos eletroeletrônicos quando não precisam deles, gastem menos energia elétrica. A doença é mais grave do que se imagina. E trata-se doenças graves com remédios amargos e muitas vezes dolorosos e não com qualquer aspirina.